10
jan
12

10 Discos de 2011

Charles Antunes Leite

Ocupei meu tempo livre na primeira semana do ano ouvindo e relembrando os álbuns lançados em 2011. Vários discos, apesar de suas qualidades, acabaram por não figurar entre os 10 que mais me agradaram: Sepultura (Kairos), Rosa Passos (É Luxo Só),  The Cults (The Cults), My Morning Jacket (Circuital), Bon Iver (Bom Iver), The Vacines (What Did You Expect From The Vaccines?), Mônica Salmaso (Alma Lírica), Old 97s (Grand Theatre Vol. 2), Peter Bjorn And John (Gimme Some), entre outros. Abaixo os “eleitos”:

Anna Calvi- Anna Calvi

O álbum de estreia da guitarrista Anna Calvi é uma surpresa em meio a enxurrada de cantoras de RB e o pastiche do pop atual. A solidez das músicas tocadas pela jovem Anna revela lampejos técnicos de Ry Cooder – remete às paisagens desertas e solitárias. Ela deve ter ouvido muito Django Reinhardt.
Anna Calvi ganha a audiência já na primeira faixa Rider to the Sea que vem num crescendo acompanhado de coro nos moldes de Ennio Morricone.
No More Words – não é necessário nem mesmo que ela cante, o instrumental por si é suficiente. As nuances vocais acompanham a mudança de andamentos, enquanto Desire é o rock afiado como o desejo e a voz entre Siouxsie e Joanette Napolitano. O baixo e a bateria impoem dureza roqueira como em  I’ll Be Your Man, acordes hipnóticos, ríspidos e modulação vocal carregada de vibração. Ela ainda pode ser colocada ao lado de Patti Smith e PJ Harvey. Poderiam dizer que ela é feia, mas não – Anna Calvi possui porte de modelo.

Criolo – Nó na Orelha

Nó na Orelha apresenta evolução em relação à Ainda Há Tempo (2006) quando assinava Criolo Doido. Ele abre o leque de referências para ilustrar contundentes  crônicas musicais.
Bogotá é latin jazz com carimbó e forte linha de baixo; A já conhecida Não Existe Amor em SP, um lamento com percussão tímida acompanhada de baixo e alguns acordes esparsos de órgão e até violino.
Subirusdoistiozin, Grajauex e Sucrilhos – nas duas últimas ele faz trocadilhos com o mercado de consumo – são as três faixas em que pode ser rotulado como rap tradicional.
Freguês da Meia-Noite se desenvolve no ritmo do bolero com guitarra caribenha, andamento e letra no estilo Odair José.
Criolo parte do rap, mas não pode ser considerado como tal. Categorizar seria restringir a força e a versatilidade da música que utiliza para promover o discurso. Nó na Orelha mistura na receita rap, afro-samba, soul, reggae, mpb, blues e toques de latinidad.
Criolo levou para casa três prêmios do VMB 2011, realizado pela MTV, inclusive melhor disco. Nó na Orelha sintetiza a proposta de dar um “nó na orelha” da audiência acostumada a rótulos – o indefinível só comporta a definição de música, e da boa.

Florence and the Machine – Ceremonials

Florence Welch adquiriu experiência cantando desde criança. Ela mistura no liquidificador de influências o canto lírico, pop e punk para produzir uma massa sonora dotada de  identidade.
A voz pode ser afinada e suntuosa como também pode ser direta e visceral. A comparação com Kate Bush ou Sinéad O´Connor vem naturalmente, mas não é mera cópia desprovida de conteúdo. Seja acompanhada por bateria eletrônica, teclado ou uma banda – ainda assim, sabe-se tratar de Florence and the Machine.

Thurston Moore – Demolished Thoughts

O terceiro disco solo de Thurston Moore chega no momento de transição na vida do guitarrista do Sonic Youth que sai de um casamento e parceria de 30 anos com a baixista Kim Gordon.
Demolished Thoughts é resultado da colaboração de Moore com o multi-instrumentista e produtor Beck Jansen, daí a sonoridade acústica e multifacetada que permeia o álbum. A banda composta por Mary Lattimore (da harpa), Lubielski Sâmara (violino), Inscore Bram (baixo) e Joey Waronker (percussão) formam a base para as incursões dos instrumentos adicionados por Beck. Demolished Thoughts seria uma antítese a discografia do SY, mas o conjunto revela força e sentido mantendo relação de proximidade com o caos sonoro da ex-banda de Moore. Enquanto o Sonic Youth é melodia alinhavada com barulho e distorção, Demolished é calma e inquietação; deve ser apreciado como um todo num tempo em que os i-Pods fracionam e diluem os discos.

Danger MouseRome

O compositor Daniele Luppi e o produtor Danger Mouse (Gorillaz e Gnarls Barkley),  aficionados pelas trilhas sonoras de filmes italianos das décadas de 1960 e 1970,  principalmente western spaguetti, se uniram em torno de Rome – projeto que necessitou de mais de seis anos de maturação.
Para que o disco soasse autêntico utilizaram o estúdio Roma Forum fundado por Ennio Morricone, além de alguns músicos que participaram das gravações desse ícone das soundtracks. Na produção dispensaram os equipamentos modernos e computadores para que a sonoridade ficasse bem próxima das trilhas originais.
O projeto, iniciado em 2004, contou com participações de Jack White (The White Stripes, The Raconteurs, The Dead Weather) e Norah Jones – que gravaram os vocais em brechas de suas agendas durante o longo período de gestação do álbum.
Rome atingiu o intento reproduzindo, quase com perfeição, o clima árido e introspectivo das trilhas sonoras criadas por Morricone.

Pedro Luís – Tempo de Menino

Pedro Luís conhecido pelos trabalhos percussivos junto ao Pedro Luís e a Parede e o projeto Monobloco em que os ritmos como samba e swing são potencializados para promover a salada sonora da MPB. Com o lançamento de Tempo de Menino, ele despressuriza e dilui o groove em favor de temas, digamos, mais leves em termos rítmicos.
Tempo de Menino traz os elementos dos grupos mencionados, porém mais próximos da MPB tradicional – adicionando toada e fado a mistura. O trabalho tem participações dos músicos da Parede, Milton Nascimento, Roberta Sá, Erasmo Carlos e Carminho. A identidade do disco é mérito do duo MiniStereo formado pelo produtor Rodrigo Campello e o guitarrista Jr. Tostoi.

Wynton Marsalis & Eric Clapton – Play The Blues – Live From Jazz At Lincoln Center

A combinação do blues de Eric Clapton com o jazz de Wynton Marsalis proporciona uma abordagem renovada de canções originais. A escolha do repertório ficou por conta de Clapton enquanto Marsalis providenciou os arranjos das canções com o acréscimo luxuoso da Orquestra do Lincoln Center. Os gêneros que tem raízes na música negra do final do século 19 provam que a música popular de qualidade pode ser reinventada e perpetuada, principalmente, se interpretadas por quem conhece do riscado.

Adele – 21

Ela teve ótima repercussão entre público e crítica com o seu début álbum.  Em 2011, Adele voltou e conseguiu de novo. As baladas agridoces da juventude amadureceram em 21. A jovem inglesa capitaneada pelo produtor Rick Rubin evoluiu tecnicamente e as canções receberam a inspiração da dor causada pelo rompimento amoroso após a turnê do álbum 19. Ela não precisa apelar para sensualidade ou escândalos para atrair a atenção e brilhar. Adele, além de intérprete, também é co-autora de 10 das 11 canções.
Tanto o disco 21 como os singles Rolling in the Deep e Someone Like You frequentaram as listas de mais vendidos durante o ano.

Charles Bradley - No Time for Dreaming

Charles Bradley se criou nas ruas do Brooklin e se interessou pela música ao assistir James Brown, no Apollo, em companhia da irmã, em 1962. Na juventude trabalhou como cozinheiro e depois de trabalhar em vários restaurantes pelo país – percebeu que era hora de voltar para casa e para o sonho. A experiência vagando pelos EUA, a vida dificil e a perda do irmão assassinado transformaram o talento em autêntico soul retratado nas músicas de No Time for Dreaming. Charles Bradley, os 51 anos, amadureceu e a dor expressa em pérolas como The World (Is Going Up in Flames) e No Time For Dreamin’ são amostras disso.

Tom Waits – Bad as Me

Tom Waits é um artista na acepção da palavra: instrumentista, cantor, compositor, poeta e ator capaz de circular pelo blues, jazz, folk, pop, música alternativa e ópera com desenvoltura.
Muitas das facetas de sua discografia estão presentes em Bad as Me. Ele passeia pela  visceralidade e pela vanguarda sem perder a aura que aglutinou fãs das mais diversas vertentes durante a longa carreira. Tom Waits é como o Bourbon: quanto mais tempo de envelhecimento mais interessante o “blended”.

25
dez
11

Jornada para comprar um CD

Charles Antunes Leite

O mês de dezembro marca o final do ano, e por isso, é hora de correr para cumprir metas e deixar o mínimo possível de tarefas em aberto para o ano seguinte: Ano novo, vida nova – não é assim o dito popular?

Resolvi entrar na brincadeira de amigo secreto ou amigo oculto – depende da cidade ou estado em que se realiza. Na correria de final de ano, o trânsito, festas de confraternização e todo frenesi que acompanha as festividades, eu teria que sair para comprar um presente. Imaginei que seria rápido e não perderia mais que duas horas, afinal era um CD do Fall Out Boy, uma banda conhecida, e que não estava fora de catálogo – então protelei até a véspera da entrega.

Na década de 1990 seria uma operação simples a compra do referido CD. Bastaria ir a uma das lojas de discos de qualquer shopping center da cidade. Fui ao Center Norte. No entanto, constatei que lojas de discos praticamente desapareceram. Na maioria dos shoppings só restaram os magazines ou mega stores – isso por que estou em São Paulo, a maior cidade do país.

Em 1997, nesse mesmo shopping, havia sete lojas especializadas além de um magazine, hipermercado e mega store – onde podia encontrar o presente mais popular das brincadeiras de amigo secreto ou o tradicional CD do Roberto Carlos.

Quanto ao presente do meu amigo secreto – eu consegui comprá-lo. Depois de quase quatro horas percorrendo corredores de dois shoppings, só fui encontrar o CD numa mega store na  região da Avenida Paulista.

15
dez
11

Trilha sonora para o natal

Charles Antunes Leite

Discos natalinos são tradicionais nos Estados Unidos, principalmente depois de lançado o Bing Crosby – White Christmas (Irving Berlin), considerado o maior sucesso comercial do gênero. A canção foi interpretada pela primeira vez por Crosby, no especial de TV da rede NBC, no natal em 1941. Ela foi regravada em 1947, e segundo estimativas do Guiness World of Records – Vendeu mais de 50 milhões de cópias no mundo.

Seguem sugestões de alguns discos natalinos lançados em 2011:

Os Muppets – Green & Red Christmas

Vale recordar a hilária participação de Caco (Kermit the Frog) e sua turma “atrapalhando” a interpretação de Andrea Bocelli em My Christmas (2009)


She & Him – A Very She & Him Christmas

As músicas natalinas interpretadas por Zooey Deschanel (voz) e M. Ward (voz e violão) mostram que é possível sair do lugar comum e utilizar a simplicidade e bom gosto nas melodias, principalmente quando se trabalha com temas que já tiveram muitas versões. A dupla apresenta com roupagem agridoce no estilo dos Carpenters, Mamas and the Papas e Simon and Garfunkel canções natalinas que sobrevivem após o natal e podem ser ouvidas em qualquer época.


Carole King -  A Holiday Carole

São 12 canções, três delas reescritas, que fogem da obviedade.  O folk, gospel e jazz são elementos para compor a música do feriado mais aguardado do ano. Os mais atentos poderão notar sutilezas na produção de cada faixa. Destaques para a versão de My Favorite Things (Hart & Hammerstein), além de  Chritmas Paradise, Christmas in the Air e New Years Day. Sejam inéditos ou tradicionais, Carole revela frescor nas interpretações de temas sazonais.


Michael Bublé – Christmas

O carismático “crooner” canadense faz releituras nos moldes dos artistas que o influenciaram, principalmente Frank Sinatra. O repertório traz temas bem conhecidos. Ele conta com a participação do trio vocal Puppini Sisters em Jingle Bells; Shania Twain em White Christmas e Thalia na canção Mis Deseos/Feliz Navidad. Provavelmente será o mais vendido no segmento em 2011.

 

Chicago – Chicago XXXIII: O Christmas Three

A banda Chicago se tornou referência pelo bom gosto instrumental, principalmente metais, e arranjos vocais. Ao longo dos anos perderam o guitarrista Terry Kath  morto em 1978  e o baixista e cantor Peter Cetera que partiu em carreira solo.
Christmas Three como o título designa é o terceiro disco de canções natalinas da banda. A mistura de jazz, pop e blues que os acompanha desde o final dos anos 1960 está de volta. Temas já gravados por muitos outros artistas aparecem personalizados pelo grupo.
Destaque para as participações de Dolly Parton em Wonderful Christmas Time, América em I Saw Three Ships e Steve Cooper do Booker T, na única música inédita do disco composta por Lee Loughnane, o piano blues Rockin’ And Rollin’ On Christmas Day.

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06
dez
11

CD: Achtung Baby – Deluxe Edition, U2 (2011)

RELANÇAMENTO

ÁLBUM CLÁSSICO

Charles Antunes Leite

A atmosfera de Berlim é altamente inspiradora para o rock. David Bowie, Iggy Pop e R.E.M já estiveram na cidade para gravar discos. Bowie utilizou o estúdio Hansa nas vizinhas do famoso muro que dividia Berlim para gravar a trilogia: Low (1977), Heroes (1977) e Lodger (1979), com o produtor Brian Eno, colaborador do U2, que junto com Daniel Lanois, Steve Lillywhite e o produtor Flood se uniram para dar forma ao sétimo álbum da banda: Achtung Baby (1991).

Quando foram anunciadas as diretrizes de Achtung Baby, alguns fãs (eu me incluo nesse grupo)  torceram o nariz. Divulgado o primeiro single, percebi que não poderia analisar de forma tão simplista o conceito do álbum – o mundo estava mudando e a tecnologia inspirava novas sonoridades.

Zoo Station funciona como prelúdio para aquilo que se ouviria ao longo do disco – as canções foram desenvolvidas com o uso de sintetizadores e adereços eletrônicos, mesmo assim ainda era o U2. A guitarra inconfundível de The Edge aparece emoldurada por distorções de eletro pop e o amplo uso de pedais de efeitos; a bateria vem acompanhada pela percussão digital. As canções tem um ganho de “bass” que valoriza a presença do baixista Adam Clayton.

Faixas dançantes como Even Better Than The Real Thing, The Fly e Mysterious Ways e baladas como One e So Cruel passaram a ser executadas nas rádios e na MTV. Para a música One foram criados três clipes pelos diretores Anton Corbjin, Mark Pellington e Phil Joanou (Rattle and Hum).

Achtung Baby traz canções bem próximas daquilo que o U2 havia apresentado em Joshua Tree com o frescor das inovações dos anos 1990: Until The End Of The World fez parte da trilha do filme homônimo do diretor e “brother” alemão Win Wenders, enquanto Who’s Gonna Ride Your Wild Horses soa como uma faixa perdida e mais animadinha de Darklands do Jesus and Mary Chain.

O CD bônus, em sua maioria, serve como memorabilia para os fãs. Traz B sides dos singles, versões alternativas para músicas do álbum, além de novidades como a boa versão para Satellite of Love (Lou Reed); Night and Day de Cole Porter (que já havia aparecido no tributo Red Hot + Blue) vem revigorada com a levada da guitarra de The Edge e marcada pela percussão de Larry e o baixo de Adam – Eu acabei me desfazendo de um vinil “ bootleg” com as referidas músicas – hoje me arrependo disso.

Os covers de Paint it Black (Jagger/Richards) e Fortunate Son (John Fogerty), são dispensáveis. O destaque fica por conta de Salome e Lady With The Spinning Head que ficaram de fora do álbum original.

Achtung Baby, já na primeira audição mostrou a que veio – clássico instantâneo. Passados 20 anos minhas impressões ainda são as mesmas.

A edição de 20º aniversário foi disponibilizada em cinco versões: Standard CD, Deluxe Edition, Super Deluxe Edition, Vinyl Box Set e o sonho de consumo dos fãs Uber Deluxe Edition.

Edição limitada e numerada Achtung Baby Uber Deluxe em todo o seu explendor

Uber Deluxe Edition – Edição limitada e numerada numa caixa de quebra-cabeça magnética com 10 discos (6CDs + 4DVDs): o álbum original, o CD bônus, Zooropa (1993), b-sides e material inédito gravado durante as sessões de Achtung Baby. DVDs From The Sky Down, documentário de Davis Guggenheim; o show Zoo TV – Live From Sidney, todos os vídeos de Achtung Baby e bônus. Vinil duplo do álbum, cinco singles 7” de vinil transparente em suas capas originais, 16 cópias da arte tiradas do encarte do álbum original com fotos de Anton Corbjin; livro de capa dura com 84 páginas, uma cópia da revista oficial do U2, quatro emblemas, uma folha de etiqueta, e uma réplica dos óculos escuros “The Fly” usados por Bono Vox durante a turnê de 1992.

Álbum: Achtung Baby Deluxe Edition, 2011
Artista: U2
Gravadora: Island Records/Universal 

02
out
11

Requiem para um punk brazuca

Charles Antunes Leite

Esse post está alguns dias atrasado, porém não poderia deixar de expressar meus pêsames pela perda de Redson, guitarrista e vocalista do Cólera.

Edson Lopes Pozzi, o Redson, morreu na noite de 27 de outubro devido a uma hemorrgia interna decorrente de úlcera no estômago.                                                   Divulgação: Redson, vocalista do Cólera

Em 1979, Redson formou a banda com o irmão “Pierre” e ao lado dos Inocentes e Ratos de Porão iniciaram a cena punk paulista.

Redson também foi sócio do selo discográfico Ataque Frontal que lançou vários artistas de punk e rock alternativo nos anos 1980.

Divulgação: Apresentação da banda Cólera, em 1985

A banda se tornou conhecida no underground mundial e chegou a fazer shows pela Europa foram depois registrados no disco Cólera European Tour ’87 (1988).

O Cólera tinha como característica letras incisivas contra o sistema político e o militarismo. A busca pela paz foi expressa em Pela Paz em Todo o Mundo (1986). O capitalismo e a fome foram abordadas em É Natal!!?(1987); levantaram a bandeira da ecologia, muitos anos antes de virar moda, com Verde, Não Devaste (1989).

Diferentemente de seus colegas de geração, Redson não ocupou espaços na mídia como fizeram João Gordo e Clemente (merecidamente), motivo pelo qual grande parte da molecada que curte rock hoje em dia não saiba da importância dele para história do punk nacional e para o rock independente.

Acervo: Cartaz do show no CCSP, em setembro de 1988.

Lembro de um show memorável no Centro Cultural São Paulo, em 1988. Naquela época promoviam shows com várias bandas por uma merreca. No programa daquela noite tocaram Patife Band e Grinders (o DeFalla não pode comparecer). O Cólera fechou a noite e, como sempre, contou com a participação da plateia. A banda abriu um microfone no palco para quem quisesse participar – dezenas de moleques se acotovelaram para cantar junto.

Na saída, Redson foi sentado ao nosso lado, trocando ideia, no metrô. Hoje, qualquer grupinho que aparece na TV se acha no direito de fazer exigências absurdas e manter distância dos fãs…

12
set
11

Wynton Marsalis & Eric Clapton, Play The Blues – Live From Jazz At Lincoln Center (2011)

Charles Antunes Leite

O trompetista Wynton Marsalis é um dos  músicos mais versáteis na ativa. Divide seu talento entre o jazz e a música erudita e ainda encontra tempo e inspiração para a música popular. Em 2008, ele dividiu o palco com Willie Nelson no show Live From New York City .

Marsalis havia participado, ao lado de vários convidados, do álbum de Eric Clapton em 2010. A colaboração revelou afinidade artística entre o americano e o inglês, tanto que eles se reuniram para duas apresentações, com casa cheia, em Nova Iorque, em abril deste ano. O resultado chega às lojas sob o título: Play The Blues – Live From Jazz At Lincoln Center.

Eric Clapton e Wynton Marsalis são reconhecidos estudiosos de música e exímios instrumentistas. Marsalis é director artístico do Jazz at Lincoln Center e detentor de nove prêmios Grammy. Eric Clapton é um ícone do rock, seja tocando solo, em grupos ou mesmo em projetos com artistas do porte de B.B. King, J.J. Cale e Steve Winwood – na maioria das vezes, o guitarrista inglês alcança o respaldo do público e da crítica.

O repertório ficou por conta de Clapton enquanto Marsalis providenciou os arranjos das canções, várias nuances do blues com acréscimo dos instrumentos da Orquestra do Lincoln Center. A emblemática Layla  não poderia ficar de fora, rearranjada aos moldes de New Orleans, ao lado de temas como Corrine Corrina e Careless Love – só para citar as mais conhecidas. O DVD traz como bônus Stagger Lee interpretada pelo bluesman Taj Mahal, que participou como convidado em duas faixas do set.

A combinação do blues de Clapton com o jazz de Marsalis proporciona uma abordagem renovada das canções originais. Os gêneros que tem raízes na música negra do final do século 19 provam que a música popular de qualidade pode ser reinventada e perpetuada, principalmente, se interpretadas por quem conhece do riscado.

CD and DVD Track Listing

1. Ice Cream
2. Forty-Four
3. Joe Turner’s Blues
4. The Last Time
5. Careless Love
6. Kidman Blues
7. Layla
8. Joliet Bound
9. Just A Closer Walk With Thee – feat. Taj Mahal
10. Corrine, Corrina – feat. Taj Majal

CD/DVD: Play the Blues Live From Jazz at Lincoln Center, 2011
Artista: Wynton Marsalis & Eric Clapton
Gravadora: Warner

03
ago
11

DVD: O Mundo Cabe Numa Cadeira de Barbeiro

Charles Antunes Leite

José Roberto Torero fez um recorte da diversidade étnica de São Paulo no  século 20. Imigrantes que formaram o universo cosmopolita da metrópole: espanhóis, italianos, japoneses, portugueses, sírios e bolivianos – comentam a relação afetiva com a cidade e a língua do país que os acolheu.

                                              Seis imigrantes narram suas vidas numa cadeira de barbeiro

O filme retrata a lusofonia – as diferenças marcantes que caracterizam a mesma língua, o português. O idioma sofre mutações de acordo com o país, nível socioeconômico, idade e religião dos habitantes. Daí, a língua utilizada pode ter variações linguísticas em que palavras já existentes recebem novos significados. São consideradas, também, palavras estrangeiras adicionadas e adaptadas que passam a fazer parte do vocabulário. Isso poderia torná-la incompreensível inicialmente. Na realidade faz com que ela seja revestida de diversidade cultural – espelho dos povos que a utilizam como ferramenta para se comunicar.

O Mundo Cabe Numa Cadeira de Barbeiro complementa a discussão em torno da importância e riqueza da língua portuguesa no documentário Língua: Vidas em Português de Victor Lopes. O idioma de Camões se espalhou pelo mundo por meio da expansão territorial empreendida por Portugal a partir do século 14 e foi adotado por vários países no globo.

Enquanto Língua analisa o português falado nos países lusófonos, O Mundo trata da barreira idiomática a ser transposta por imigrantes que não têm o português como língua nativa e se veem “obrigados” a aprender um novo idioma.

O título O Mundo Cabe Numa Cadeira de Barbeiro se deve ao local onde foram colhidos os depoimentos: a cadeira do salão do barbeiro espanhol, também, entrevistado. Ele declara nunca ter discriminado clientes independentemente de sua etnia, cor ou religião. A cadeira sempre foi democrática e serviu para estreitar laços entre os povos.

Todos os imigrantes entrevistados comentam a mudança do país de origem para o Brasil, a viagem, a profissão que abraçaram, suas famílias e a dificuldade enfrentada para comunicar-se em português. Alguns, inicialmente, tiveram problemas de adaptação – pensaram até mesmo em retornar.

Revendo tudo isso, muitos anos depois, todos afirmam categoricamente que são mais brasileiros que estrangeiros, pelo fato de terem passado mais tempo no Brasil que na sua terra natal. Eles sentem saudade do país de origem, naturalmente, mas é um  sentimento recôndito, um fragmento de memória desfocado pelo tempo e pela distância.

Apesar da barreira linguística e carregarem no sotaque (DNA de suas nacionalidades) foram unânimes em confessar que se consideram filhos da pátria que os acolheu: “mãe é quem cria”. Não poderiam ser mais felizes em outro lugar – essa mãe adotiva tem um coração tão grande quanto sua extensão territorial.

DVD: O Mundo Cabe Numa Cadeira de Barbeiro, BRA, 2002
Direção: José Roberto Torero
Duração: 55 min
Distribuidora: Synapse/Superfilmes




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