18
jul
09

DVD: Obrigado por Fumar, Jason Reitman (2005)

Charles Antunes Leite

O cinema sempre utilizou o cigarro como forma de glamour para apresentar a sensualidade dos astros e estrelas de cinema, principalmente nas décadas de 40, 50 e 60. No entanto, fumar nos últimos 20 anos tornou-se quase que uma contravenção. Foi se formando um cerco à nicotina – cigarro vem atrelado à figura de pessoas más, bandidos, delinquentes… Fumar, agora, é politicamente incorreto. Pessoas que fumam são preteridas para empregos, até mesmo ambientes públicos aboliram as áreas reservadas aos fumantes, para que estes se enquadrem ao novo padrão socialmente aceito.

Vários filmes colocaram o cigarro como “leitmotiv” para contar suas histórias: Cortina de Fumaça   e  Sem Fôlego (Wayne Wang e Paul Auster, 1995), retratam a rotina de uma tabacaria e seus frequentadores que encaram o estabelecimento como templo dedicado ao tabagismo e suas convicções em relação ao vício.

No filme Sobre Café e Cigarros (Jim Jarmush, 2003) no qual personalidades do cinema independente se encontram em volta de uma mesa e discorrem sobre o prazer da dobradinha café e cigarro em meio a diálogos inverossímeis; Nicotina (Hugo Rodriguez, 2003), filme que narra uma ação criminosa mal sucedida em que a nicotina é apresentada como antídoto para aliviar a tensão, descarregar a frustração ou anestésico para conter a dor.

Obrigado Por Fumar teve o roteiro baseado no livro de Christopher Buckley e narra a história de Nick Naylor (Aaron Eckhart, indicado ao Globo de Ouro melhor ator) é um homem de meia idade, atraente e carismático, com pleno domínio da retórica, capaz de argumentar e convencer as pessoas para que façam o que for de seu interesse. Justamente por isso, seu trabalho não é nada convencional – espécie de relações públicas, “lobista”, pago pela Academia de Estudos do Tabaco (órgão financiado pela Indústria Tabagista) para defender, mascarar, suavizar os danos provenientes dos cigarros perante a opinião pública.

Ele circula com desenvoltura pelos meios de comunicação, fazendo uso deles para defender os interesses de seus empregadores. Nick é amoral, faz o que seu trabalho exige – “todo mundo tem uma hipoteca para pagar”. Rodeado por câmeras e microfones, tem o “palco” para suas atuações, dar vazão às estratégias para reverter a posição da Indústria de Cigarros perante a opinião pública, de vilões para vítimas de perseguição. Seu discurso é tão bem construído, com argumentos irrefutáveis que, em momento algum precisa omitir que o cigarro não faz mal; ele incita as pessoas a experimentarem para fazer sua escolha, o que cada um deve fazer sozinho.

Naylor se encontra semanalmente com outros defensores de interesses politicamente incorretos, o Esquadrão dos Mercadores da Morte, que defendem os fabricantes de armas e bebidas, além dele que defende o fumo. Os integrantes do grupo tratam as perdas provenientes dos produtos defendidos por eles, com distanciamento e se eximem de culpa, afinal existem várias outras coisas que matam muito mais que aquelas produzidas por seus patrões.

Divorciado, no pouco tempo que passa com o filho Joey (Cameron Bright), ele tenta estreitar os laços entre os dois e reverter a imagem que a mídia faz dele e, ao mesmo tempo, ensinar ao garoto o poder da argumentação, o que será útil para seu desempenho na escola e na vida.

A tônica do filme está na primeira cena em que o protagonista, Nick Naylor, tem entre seus predicados a autoconfiança no seu poder de argumentação e persuasão – “sou pago pra falar”, “sabe aquele cara que consegue a garota que quiser, sou eu”, o que deixa bem claro para o espectador que aquele homem na sua frente  faz o seu trabalho porque deve ser feito e se não o fizer outro o fará, só que não tão bem quanto ele.

Nick vai para um debate na TV, onde será bombardeado com acusações – afinal ele defende o lado dos vilões (indústria tabagista), e não aguarda ser inquirido, mas parte em ofensiva não dando chances para seus antagonistas, promete promover campanha conscientizando o público dos malefícios do fumo, reverte sua imagem e sai do programa vitorioso.

A caça às bruxas empreendida pela opinião pública contra o fumo e o fim da publicidade de cigarros exigem que a Indústria do Tabaco parta para ofensiva, primeiro subornando Lorne Lercher, o garoto propaganda dos cigarros Marlboro, que está com câncer e ameaça revelar o caso para a Imprensa; e depois tentar reimplantar o glamour dos cigarros nas telas do cinema.

Ocorre o embate entre a indústria tabagista e a política mediado pela grande mídia, Naylor tem um envolvimento com a jornalista Heather Holloway (Katie Holmes), o que poderá custar-lhe caro; o Senado, não podendo vencê-lo, tenta matá-lo com seu próprio veneno, Nick no entanto sobrevive e ainda sai como herói do incidente. Os mesmos meios que o protagonista usa a seu favor, num descuido poderão derrubá-lo.

Ótimo roteiro e direção de Jason Reitman em sua estréia e grandes atuações do veterano Robert Duvall (Um Dia de Fúria, Colors) como empresário da indústria tabagista; Aaron Eckhart (Dália Negra) empresta seu charme e carisma a Nick Naylor; William H. Macy (Magnólia, Seabiscuit) interpreta o senador Finistirre e Katie Holmes (Dawnson’s Creek, Batman Begins) no papel da jornalista capaz de tudo por uma reportagem. Ainda marcam presença no filme Rob Lowe, Sam Elliott, Adam Brody. O elenco é um motivo a mais para assistir essa comédia politicamente incorreta do cinema independente americano.

DVD: Obrigado por Fumar, EUA, 2005
Título Original: Thank You For Smoking

Direção: Jason Reitman
Duração: 92 min
Distribuidora: Fox Home Entertainment

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