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LP: Closer, Joy Division (1980)

ÁLBUM CLÁSSICO

Charles Antunes Leite


Em 1976, na região metropolitana de Manchester, os amigos Peter Hook e Bernard Sumner por meio de um anúcio nos classificados conhecem o vocalista Ian Curtis e formam o Stiff Kittens, e que, antes da estreia se torna Warszawa, inspirado numa faixa do álbum Low de David Bowie. Com a entrada de Stephen Morris na bateria, descobrem a existência de uma banda com o nome de Warsaw Pakt, então começam a fazer shows em 1977 sob o nome definitivo Joy Division, tirado do livro A Casa das Bonecas de Karol  Cetinsky. O termo se referia a zona de prostituição dos campos de concentração nazistas.

O grupo se torna popular no underground inglês com a sonoridade em que misturava a crueza punk com teclados e letras enigmáticas e taciturnas de Ian Curtis, que também desenvolveu a dança que imitava um ataque epilético, isso dois anos antes de detectar a doença. Durante a turnê do primeiro álbum o vocalista e letrista Ian Curtis tem problemas de saúde e desmarcam diversos shows. A saúde frágil do cantor seria um problema constante no cumprimento de agenda da banda.

Depois da boa acolhida por fãs e crítica do álbum de estreia Unknown Pleasures (1979)  mais direto e pesado, Closer vinha recheado de sintetizadores e a atmosfera fica em torno da sonoridade de Kraftwerk e David Bowie fase Berlim. A capa do álbum, por si só, já apresenta um enigma. Uma cena fúnebre retratada em PB, sem referências nos créditos (que não existem no disco). A estética minimalista da Factory seria uma característica do JD e depois seguida pelo New Order. Nenhuma foto dos integrantes ou relação das músicas. Acima da ilustração, apenas o singelo título “Closer” (mais perto) – seria um convite para o ouvinte se aproximar e tentar decifrar os mistérios e nuances da sonoridade do Joy Division?

O LP não denomina qual é o lado A ou B e traz impressa a data 9/5/80, o nome da banda aparece no selo do álbum junto com o título, número do catalogo FAC 25. No encarte apenas os nomes do produtor Martin Hannett e do designer Peter Saville, além da relação das nove canções (dez na versão brasileira). O single Love Will Tear Us Apart, a música mais conhecida da banda, se tornou a quinta faixa do pseudo lado B.

Além da sonoridade, o JD tinha a genialidade e beleza mórbida das letras de Ian Curtis. A poesia lúgubre expressa por meio de descrença e pessimismo na tradição dos românticos como Charles Baudelaire e William Blake.

Enquanto Unknown Pleasures era mais visceral e direto, Closer trazia temas mais densos e lentos. O vocal é despretensioso e, até mesmo desafinado, enquanto a sonoridade é um quebra cabeça composto por elementos sonoros que juntos formam a identidade peculiar ao JD. Hanett construiu uma abóbada no estúdio para reproduzir a sonoridade esparsa e gélida de um igreja. O Joy Division traz nas letras o reflexo de uma a alma atormentada, a capa evoca o sacro sobre versos profanos e desesperados. Aproxima o suicida do abismo numa busca tortuosa pela redenção.

O lado A inicia com Atrocity Exhibition com bateria marcial, guitarras sujas e ruídos encobrindo a poesia lúgubre. Isolation o timber seco da bateria , baixo pulsante e teclado conduzindo a melodia em que o autor fala de distanciamento como tentativa de auto-afirmação e busca pela aceitação.

Passover
é conduzida pela bateria econômica de Morris e o baixo pulsante de Peter Hook em conjunto com  guitarra de Sumner e servem de alicerce para os versos de uma tragédia anunciada. Ian clama: “Esta é a crise que eu sabia que viria, destruindo o equilíbrio que eu mantinha.(…) Sem a guarda e proteção da infância, Tudo se despedaça ao primeiro toque. (…) Posso seguir adiante com essa série de eventos?”

O lado B abre com Heart and Soul permeada pela cozinha típica do Joy e linha tênue da guitarra. O vocal parece vindo de  uma caverna. No último verso de Twenty Four Hours, Curtis deixa seu recado:“Gotta find my destiny, before it gets too late.”-  Tenho de encontrar meu destino, antes que seja tarde demais…

The Eternal é a faixa mais introspectiva de Closer – uma visão do passado e olhos dirigidos para o futuro numa espera lenta, cuja mixagem a une a Decades introduzida por parca percussão e com teclado hipnótico que tece um manto de melodias envoltas em mistério e  sentimentalismo nostálgico para embalar a poesia sombria.

Em Love Will Tear Us Apart a guitarra crua, bateria seca e teclado harmônico embalam a bela canção de amor e despedida. Um relato autobiográfico do momento de ruptura de seu casamento. O título da canção foi escolhido por Deborah Curtis como epitáfio para o túmulo onde foram depositadas as cinzas de Ian.

Na véspera da turnê americana, Curtis assiste ao filme Stroszek de Werner Herzog, procura a esposa Deborah (eles estavam para se separar), e pede nova chance, diz que tudo será diferente. Ela vai para a casa dos pais dela. Ele fica na casa dos pais dele. Na vitrola The Idiot de Iggy Pop e o artista se enforca na cozinha com uma corda de varal no dia 18 de maio de 1980, aos 23 anos de idade.

O que teria levado Ian Curtis ao suicídio no auge criativo, justo no momento em que a banda se projetava para o estrelato internacional? Pelo perfil psicológico, a incapacidade de auto aceitação, a culpa pelo adultério e o final eminente do casamento aliado a sua inadequação com o mundo, além da epilepsia, e talvez, o medo e hojerizah ao sucesso que se aproximava. Muitas são as hipóteses. O certo é que o poeta resolveu sair de cena e mesmo passados trinta anos sua música continua avassaladora.

LP: Closer, 1980
Artista: Joy Division
Gravadora: Factory/Eldorado

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1 Response to “LP: Closer, Joy Division (1980)”


  1. 1 luiz alves
    abril 3, 2015 às 12:54 pm

    Excelente as colocações sobre o disco e história de Ian. Obrigado.


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