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Restaram lembranças em 35 milimetros

Charles Antunes Leite

O que fora uma hipótese ensaiada nos últimos meses, finalmente num acesso de coragem, se concretizara. A empresa encerrou suas atividades. Na primeira sexta-feira de dezembro, o expediente terminou mais cedo. A porta de aço fechada depois do almoço. O quadro era desolador: prateleiras vazias (algumas já desmontadas), caixas de papelão seladas com fita adesiva e o conteúdo identificado com pincel atômico preto – inertes e silenciosas aguardavam destino longe daquelas paredes.

Retornemos ao ano de 1986. Alunos da oitava série (atual nono ano do ensino fundamental) conversam em meio à balbúrdia do “recreio”. Um colega me informa, entusiasmado, que conseguiu um emprego para trabalhar meio período como aprendiz numa loja de fotografia do bairro – apenas três quadras da casa dele. Lembro que havia tirado fotos 3×4 para matrícula naquele estúdio há alguns anos.

kodakchromeNo final da década de 1980, ainda não havia Internet; os computadores pessoais dispunham de parcos recursos e memória irrisória. Telefonia celular era coisa de cinema. O mundo vivia o auge da música gravada em LPs. CD era artigo de luxo. As câmeras fotográficas eram analógicas e pareciam ser eternas. As pessoas tiravam fotos e o trabalho de profissionais era requisitado sempre que necessário um registro de qualidade para eventos sociais como casamentos, formaturas, batizados…

Os consumidores compravam máquinas, pilhas, flashes, filmes, álbuns e deixavam filmes para revelar. A loja se estabeleceu e prosperou naquele local. O ponto era estratégico num bairro em que conviviam harmonicamente residências, comércio, indústrias, escolas, transportadoras, além da sede da antiga CMTC (Companhia Municipal de Transportes Coletivos), atual SPTrans.

A popularidade dos funcionários fez com que o local se tornasse ponto de encontro dos jovens do bairro na saída da escola ou do trabalho. Em dezembro, o “amigo secreto” se estendia a alguns dos conhecidos que frequentavam o estabelecimento. O proprietário morreu, mas deixou funcionários preparados para seguir com o negócio, apesar de serem jovens. Aquele garoto da oitava série havia se tornado um bom fotógrafo. Comprou a loja em 1992.

Devido a problemas com o esgoto em 1998, por uma semana, o atendimento foi feito de forma improvisada enquanto obras emergenciais eram realizadas. A entrada de um sócio viabilizou a implantação dos setores de papelaria e CDs.

Em 2005, o ramo fotográfico começou a declinar. A rede Fotóptica (ainda com p), na ativa desde 1920, referência em equipamentos e serviços fotográficos no Brasil foi adquirida pelo grupo holandês Hal Investments B.V, em 2007. Reestruturada, a Fotótica passou a se dedicar exclusivamente ao setor ótico – o que pode ser percebido com a mudança do logotipo.

As transformações nos hábitos de consumo e novas tecnologias (foto digital, celulares, notebooks, Ipad, e-mail etc) fizeram com que os setores de papelaria e, principalmente, fotografia retraíssem. Novamente se fez necessário reestruturar a empresa. Houve a troca de sócio. Um amigo que fora vizinho comercial propôs que investissem na locação de equipamentos de áudio visual.

Essa fase levou a empresa ao apogeu. A primeira grande reforma estrutural no imóvel foi executada. Porém, em 2008, o novo sócio (muy amigo!) pôs tudo a perder. Não honrou compromissos financeiros. Saiu sorrateiro, com grande parte do ativo, deixando dividas para trás. Nessa época, o mercado de locação também estava em declínio devido à oferta de equipamentos novos com baixo custo.

Filmes-e-papeis-fotograficos

O segmento de fotografia definitivamente estava mudando. A Eastman Kodak, empresa que em 1888 lançou a primeira câmera portátil para amadores, se tornou sinônimo de fotografia no século XX. Em 1973, Paul Simon compôs a canção Kodachrome (marca de um filme produzido pela empresa) incluída no álbum There Goes Rhymin’Simon. A companhia também inventou a fotografia digital, porém foi suplantada pela concorrência. Em 2012 encerrou a fabricação de câmeras e anunciou a saída do mercado fotográfico, segundo apurou o jornal USA Today.

O gigante da fotografia tradicional se curvou à era da informação. Como poderia um pequeno varejista se manter? Para completar a nova administração do condomínio, com a morte do proprietário do imóvel, foi inflexível quanto ao reajuste do aluguel, o que inviabilizou a permanência no ponto.

Aos 41 anos de idade, ele teria que recomeçar como funcionário. Um amigo da juventude ofereceu oportunidade de emprego numa loja de varejo, num segmento totalmente diferente daquele em que trabalhara nos últimos 26 anos. Causava apreensão, frio na barriga, mas não tinha volta. Quem sabe o melhor ainda possa estar por vir.

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