27
dez
12

Show do Lobão: vinte e cinco anos depois

Charles Antunes Leite

Lobão: 50 Anos a Mil -Nova Fronteira (reprodução)

Li recentemente, 50 Anos a Mil, a biografia do Lobão em parceria com o jornalista Cláudio Tognolli. Um calhamaço de quase 600 páginas em que o músico traça os cinquenta anos de vida e mais de trinta de carreira. É a chance de conhecer as origens do homem que se tornou uma das personalidades mais polêmicas da música brasileira.  Em alguns momentos a narrativa  apresenta situações, algumas fantásticas, no entanto todas dignas da personalidade ímpar do Lobão.

No prólogo, digno de cinema independente, Lobão e Cazuza estão no velório do amigo Júlio Barroso. De madrugada, ao se verem a sós, esticaram duas carreiras de cocaína, como homenagem, no caixão do parceiro morto. A partir desse fato, o que poderíamos esperar se concretiza ao longo do livro, a narrativa flui em ritmo frenético desde a infância (que muitos desconheciam) em que um garoto tímido, doente e com déficit de atenção passa a se interessar por música e literatura. A origem do apelido, ainda na escola; a primeira banda e todas que vieram depois. Os amigos, parceiros, colaboradores, namoradas, as diferenças (já resolvidas) com Herbert Vianna. As circunstâncias do julgamento e da prisão por suposto porte de drogas, em 1987 – relatado minuciosamente. O direcionamento da carreira após o incidente e toda sua luta por independência e transparência no mercado fonográfico. 

Em 2012, o “lobo mau” está de volta com o registro ao vivo Lobão Elétrico Lino, Sexy & Brutal em CD/DVDUm único show no Citibank Hall, em São Paulo, em outubro de 2011. Lobão repassou 30 anos de carreira em releituras muito inspiradas mesclando temas dos primeiros trabalhos com outros da sua produção nos anos 2000. Os arranjos e a produção em parceria com Rui Mendes e Chris Winter, além da mixagem em Abbey Road, fizeram com que o repertório independentemente da idade das canções se tornasse coeso.

O artista amadurecido e experiente que procurou se aproximar da música brasileira e de experimentos eletrônicos para se distanciar do rock –  se apresenta sem culpa  e assumidamente rock’n’roll nesse Lobão Elétrico Lino, Sexy & Brutal.

DVD Lobão Elétrico Lino, Sexy & Brutal – Deckdisc (Richard Kovács)

Bambino, originalmente, trazia influências do pop alemão; agora revisitado está mais para o pós-punk britânico.  A revitalização continua em todo o show. Ouvi ecos de Lou Reed, Gang of Four, e até Patife Band. O “guitar  hero” brazuca Luis Carlini abrilhanta Ovelha Negra (Rita Lee), única composição alheia no repertório. Para terminar (no CD) o Rock Errou. Constato, caro  Lobão, que o rock se perdeu pelo caminho, mas está de volta. O melhor ficou para o final, no caso do DVD, com seis sucessos do repertório do Big Wolf como bônus: Essa Noite Não; Me Chama; Rádio Blá (Blá, blá, blá… Eu te Amo); Corações Psicodélicos;  Vida Bandida e  Por Tudo que For.

Lobão Elétrico me traz a recordação de assisti-lo, no auge, em 1987. A precisão dos fatos não pode ser exigida tendo em vista que vinte cinco anos separam os acontecimentos do relato abaixo:

Era uma típica noite de sábado. Subi a avenida central do bairro em que morava em direção a uma rua na parte alta, onde o pessoal se reunia. Lá era o ponto de encontro noturno. Todos passavam por lá, para saber sobre alguma festa, evento ou mesmo para jogar conversa fora. Esses programas, quando muito, se estendiam até duas da madrugada. Naquela noite, apenas dois caras estavam lá e iriam para um aniversário de um primo em Guarulhos:  Então, um abraço! Até amanhã!

Na avenida central, agora no caminho inverso, já considerava a noite como perdida quando encontro um colega de ginásio que perdera o contato há dois anos quando mudou de colégio. Ele estava no ponto de ônibus aguardando a namorada para saírem.

Ele estava morando novamente no bairro. Na rua de trás. Fui convidado a acompanhá-los até uma danceteria que “bombava” na época: a Contra Mão. Naquela noite, o Lobão faria o show de lançamento do álbum Vida Bandida.

Fomos até a casa dele para aguardar mais dois amigos. Resolvi que iria também. Antes, teria que avisar minha mãe.  Abro aqui uns parênteses: na década de 1980, o telefone residencial era artigo de luxo e a maior parte da população não possuía – era o meu caso. Então teria que ligar para a vizinha. Recado dado que voltaria no domingo de manhã. Seguimos para o bairro do Tatuapé.

O show do Lobão, após a saída da prisão, era aguardado com ansiedade e “frisson” – tido como o grande evento daquele sábado. A turnê com apresentações bombásticas e concorridas havia percorrido várias cidades do país até chegar à São Paulo. O disco recém-lançado, diga-se de passagem, dotado de diversidade rítmica devido à direção artística de Marcelo Sussekind trazia  pelo menos duas faixas executas nas principais rádios da época: Rádio Cidade, Jovem Pan 2 e 89 FM, só pra relacionar as emissoras da capital.

O burburinho começava há algumas quadras da Contra Mão, nas dezenas de bares da redondeza. Vamos para a fila, digna de estreia do filme Guerra nas Estrelas, para comprar os ingressos. Finalmente, conseguimos entrar. Noto que o lugar é maior que imaginava e em poucos minutos  já está bem cheio.

As luzes se apagam para a abertura da casa. Som e iluminação de última geração. Se não me falha a memória: This is the Day (The The) começa a tocar. Nesse momento, o lugar que parecia cheio, ficou  insuportávelmente apertado.

A música silencia nas potentes caixas acústicas. As luzes se apagam. Seguem alguns minutos que parecem eternos. A plateia impaciente começa a assoviar e bater os pés no piso. O alvoroço crescente.

Lobão entra no palco acompanhado dos Marajás Apedrejados. Sucessos antigos e músicas do recém lançado Vida Bandida são cantadas com energia. A galera extasiada e suada se acotovela espremida  nas dependências da danceteria. Lobão  estava bravo com o imbróglio que o levou a prisão – a música era sua forma de protesto. Detalhes do show: lembro da euforia.

Após o show, a música volta a rolar na pista até às 4h da manhã: Simple Minds, Cure, Smiths, Tones on Tail, Clash, Bolshói, Michael Jackson, Siousxie and the Banshes, Titãs, Legião Urbana, Plebe Rude, Paralamas do Sucesso, Tears for Fears, Duran Duran… Alguns meses depois, a House Music invadiria a programação das FMs e pistas das danceterias. A Contra Mão foi uma das grandes casas noturnas de São Paulo (1980-1992). Com a ascensão da música sertaneja os proprietários resolveram transformá-la em casa direcionada ao gênero da moda sob o nome de Caipiródramo.

Ficamos na Praça Sílvio Romero até às seis da manhã quando finalmente o ônibus passou. O sol brilhava quando entrei em casa trazendo pão quentinho para o café da manhã.

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