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DVD: O Moinho e a Cruz, Lech Majewski (2011)

Por Charles Antunes Leite

“O infinito da estética é um sentimento que resulta da finita e perfeita completeza da coisa que se admira” (Umberto Eco).

omoinhoeacruzposterf2O Moinho e a Cruz (The Mill and the Cross, 2011) do polonês Lech Majewski é uma esmerada produção que recria o quadro A Procissão Para o Calvário (1564) do pintor Pieter Bruegel. As imagens são os pontos fortes da narrativa: cores, formas e texturas sobressaem sobre o som, a música e as palavras. O indizível é descrito em cores e sombras. A fotografia do filme privilegia o contraponto entre luz e sombra, reproduzindo o efeito de “chiaroscuro”  para reforçar a carga dramática das cenas. Poucos diálogos, a narração econômica, a música tímida e quase imperceptível no decorrer do filme. Num raro momento, um camponês bêbado dança ao som de um menestrel. A ausência de música e palavras leva o espectador a divagar de forma subjetiva sobre aquilo que é apresentado na tela.

O pintor holandês Pieter Bruegel, o Velho (1525-1569) sofreu a influência de Hieronymus Bosch na sua forma de compor cenas complexas e com múltiplos elementos, principalmente temas pastoris e sacros. A passionalidade em relação ao divino, a condição humana subjugada pela religião – o olhar do artista descrevia o cotidiano a sua volta em cenas panorâmicas exploradas com maestria no formato “widescreen” do cinema e telas de TV. São vários quadros menores que convergem na grande cena retratada na pintura de 124 cm exposta no Kunsthistorisches Museum de Vienna.

A abertura do filme apresenta os atores se vestindo enqunato Bruegel (Rutger Hauer) instrui o posicionamento dos modelos na cena, ao lado do amigo e colecionador de arte Nicolaes Jonghelinck (Michael York). O plano de fundo pintado à mão e as locações na Polônia, Áustria e Nova Zelândia servem para ilustrar e emoldurar o quadro.

Bruegel elenca os elementos das cenas retratadas na tela da mesma forma que Vittore Carpaccio, Albrecht Dürer e Hieronymus Bosch. Nesse ponto a pintura e o cinema se encontram na apresentação do “storyboard” do quadro a ser pintado. O esboço traça uma cena principal com cenas secundárias e terciárias que convergem e possibilitam a compreensão do tema num sentido mais amplo.

Para sua obra-prima A Procissão Para o Calvário, ele se inspirou no momento político e social em que viviam. Os aldeões incorporam os contemporâneos de Jesus Cristo, principalmente Charlotte Rampling como a inspiração para a Virgem Maria. Os espanhóis representam os romanos e o Salvador moído como grão pelo Moinho. Paralelamente ao drama que se anuncia, o cotidiano familiar do artista se faz presente como ação secundária para inseri-lo naquele ambiente em que é um observador dos fatos.

O quadro com temática religiosa funciona como alegoria para criticar a ação e os conflitos a sua volta. A região de Flandres que abrange atualmente parte da Bélgica e da Holanda estava sob o domínio dos espanhóis. Os invasores subjugavam a classe camponesa em cenários áridos sob o céu constantemente nublado.  Os corvos sobrevoam todos os cenários externos e, mesmo pelas frestas das janelas, podem ser vistos e ouvidos no seu canto fúnebre como símbolos de mal agouro e arautos do mundo dos mortos.

Bruegel descreve o quadro que deverá ter uma centena de personagens “Minha pintura terá que contar muitas histórias… trabalharei como a aranha que esta manhã vi tecer sua teia”. Vários temas alinhavados pelo Poder e Religião. Mulheres enterradas vivas, homens perseguidos e agredidos para depois serem deixados à mercê dos corvos imprimia morbidez às suas pinturas. A intolerância religiosa se faz presente e justifica a perseguição e morte. O reformista em busca de mudanças é tido como criminoso contra o Estado e a Igreja. Da mesma forma que o Cristo da antiguidade deve ser crucificado. O homem que teme a Deus teme morrer e ir para o Inferno – se torna mais fácil de controlar pelos governantes. A presença ostensiva dos cavaleiros do Rei de Espanha como Cavaleiros do Apocalipse lembrava a todos da danação, primeiro na terra e depois no inferno.

A paisagem pastoril com o Moinho no alto representa o Gólgota. A Paixão de Cristo é revisitada pelo vermelho da farda espanhola  que se confunde com o sangue do camponês. Não poderia ser diferente – no quadro de Bruegel – o céu se fecha no momento em que Jesus é crucificado.

Fotografia, iluminação, direção de arte e figurinos caprichados são utilizados para transpor uma tela para tridimensionalidade do cinema. O Moinho e a Cruz pode ser descrito, literalmente, como filme de arte.

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