Archive for the 'Álbum clássico' Category

26
jan
15

30 Anos dos Paralamas do Sucesso

Charles Antunes Leite

Janeiro de 1985, no Rio de Janeiro ocorre o primeiro mega festival de rock no Brasil: o Rock in Rio. O evento serviu como vitrine para que artistas internacionais passassem a incluir o país em suas agendas de shows. Dentre os artistas brasileiros que se apresentaram no festival Os Paralamas do Sucesso obtiveram o melhor retorno por parte do público e o respaldo para que pudessem construir uma carreira longeva e repleta de êxitos. Nesses 30 anos, o rock brasileiro mudou muito e se profissionalizou. Os Paralamas abriram caminho para artistas como Legião Urbana, Capital Inicial, Plebe Rude entre outros. Nas décadas seguintes continuaram a influenciar novos artistas como Skank e Jota Quest. 10262083_618345584918170_5221057940088318933_nVoltando a 1983, Os Paralamas estão procurando sua identidade em Cinema Mudo. Nesse primeiro trabalho, apesar da inexperiência e crueza como instrumentistas, eles foram comparados aos ingleses do Police. Músicas com frescor juvenil como Vital e Sua Moto, Cinema Mudo, Patrulha Noturna e Química composta por “um certo” Renato Russo que depois seria apresentado à gravadora EMI por Herbert Vianna já mostravam o caminho a ser seguido.passo do luiO Passo do Lui (1984) flerta com a música jamaicana, principalmente, na faixa instrumental que intitula o disco e em Ska (o título já diz tudo) na levada do ritmo de mesmo nome. O coro de mais de 100 mil vozes cantou Óculos, música que enalteciam a turma dos “quatro olhos”, na primeira edição do Rock in Rio em 1985. Os óculos deixaram de ser excludentes, rapazes míopes tinham em Herbert inspiração – agora também poderiam ter a sua chance com as garotas e também na vida.  O Passo do Lui era uma coleção de sucessos radiofônicos entre eles Meu Erro, Romance Ideal e Me Liga (oito das dez canções tocaram nas Rádios).

imagem: Jorge Marinho

imagem: Jorge Marinho

Com a chegada da Nova República, os Paralamas passaram para um discurso crítico e social, respeito pelos valores brasileiros associados à realidade musical e social jamaicana, além dos ritmos afro-latinos. selvagemSelvagem? (1986) pode ser considerado o trabalho mais maduro e inovador na discografia deles. O álbum selou a paz entre fãs e críticos. A faixa tema Selvagem é robusta na cozinha de Bi e João e o riff da guitarra de Herbert é cortante como seu discurso contra o poder bélico da policia e do governo num momento de transição política. A letra gaiata do Melô do Marinheiro narra aventuras de um clandestino que quer conhecer o mundo de navio e se dá mal. O vídeo clipe de Alagados colocou a banda pop em meio ao povão.  A Novidade, parceria com Gilberto Gil, bebe na fonte do reggae.

Se em Selvagem eles haviam quebrado paradigmas com fusão do rock com ritmos regionais e reggae, em Bora Bora (1988) expandiram a experimentação. O disco se divide em canções quentes e temperadas como praias caribenhas e canções intimistas e passionais para serem ouvidas em apartamentos escuros – eco do final do relacionamento amoroso com Paula Toller. Destaques para O Beco com seu instrumental acrescido de metais; Uns Dias; a confessional Quase Um Segundo; Dois Elefantes. A sonoridade afro-caribenha reforçada pelo naipe de metais e o tecladista João Fera, integrado na turnê de Selvagem e presente desde o álbum D gravado ao vivo no Festival de Montreux (1987), contribuiu para que os Paralamas pudessem explorar novos sons e enriquecessem os arranjos de antigas canções.

Big Bang (1989) eles acrescentaram ritmos brasileiros aos ritmos pesquisados anteriormente: o samba em Se Você Me Quer; o repente de Rabicho do Cachorro Rabugento e canções paralâmicas como Perplexo, Pólvora e Lanterna dos Afogados. Os Grãos (1991) trazia Tendo a Lua, Carro Velho, Trac Trac (versão de composição de Fito Paez) e Sábado. O esmero da produção e um tom monocromático da capa se refletiam também na economia de ritmos, mas com uso de efeitos eletrônicos.

Severino (1994) foi um disco que não teve a devida aceitação no Brasil sendo o momento de reconhecimento da banda na Argentina. O disco foi produzido na Inglaterra e contou com inúmeros nomes da música internacional, inclusive Brian May do Queen. Dos Margaritas alcançou relativo sucesso no Brasil. Vamo Batê LataVamo Batê Lata (1996) gravado ao vivo trazia um CD bônus com quatro faixas inéditas. Destaque para Uma Brasileira – parceria de Herbert com Carlinhos Brown e enriquecida pelo dueto com Djavan – uma das melhores canções do ano e da carreira da banda; A polêmica Luís Inácio (300 Picaretas) um rap contra a corrupção política com o tempero dos Paralamas.  Ainda em 1996 lançaram um disco de inéditas 9 Luas em que se destacaram: Lourinha Bombril, Capitão da Indústria e La Bella Luna.

Hey Na Na (1998) trazia Ela Disse Adeus cujo clipe sagrou-se vencedor na MTV e o Amor Não Sabe Esperar (dueto com Marisa Monte), além de composições de Charly Garcia e Chico Science.

Fevereiro de 2001: Herbert Vianna, líder e voz dos Paralamas do Sucesso sofre acidente aéreo em que perde a esposa; depois de semanas em coma se vê paraplégico. Para a grande maioria dos fãs, o fim da banda era inevitável, mas a “Música” salvou Herbert – tanto que um ano depois lançaram Um Longo Caminho seguido por outros trabalhos. 30 anos O segredo para a banda se manter na ativa depois de três décadas tem uma resposta compartilhada pelo trio – Eles se consideram uma família. A prova disso é o registro em CD/DVD do show comemorativo de 30 anos realizado no Rio de Janeiro em 2013. São sucessos e músicas emblemáticas (28 no DVD). No telão no fundo do palco são projetadas informações sobre a banda, as músicas e imagens de arquivo. A gravadora cometeu um deslize: Don’t Stand So Close To Me, cover do Police, foi grafada na capa como Don’t Stop So Close to Me – careceu de revisão antes de ir para gráfica.

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12
jan
15

Miragem, Os Lobos (1971)

Por Charles Antunes Leite O mês de janeiro é propício para se aventurar na procura por ofertas e promoções. Em tempos de MP3, em que os CDs já não têm tanta procura como outrora, fãs dos disquinhos prateados podem se surpreender com verdadeiros achados nas gôndolas das lojas. Numa grande livraria de São Paulo deparei com um balcão de promoções com preços convidativos, inclusive uma “bacia das almas” com CDs por um Real.  À primeira vista o cidadão desanima pela desordem dos títulos e gêneros, além da descrença de encontrar algo que valha a busca. Aqueles que tiverem tempo e paciência podem garimpar pérolas ou mesmo se arriscar a conhecer novos artistas. No referido lote de disquinhos, pela módica moedinha, havia Independentes, Jovem Guarda, Regional, Instrumental, Brega… Saí da livraria com um pacote contendo: Uakti (Instrumental mineiro), Os Brasas (Jovem Guarda gaúcho), Um duplo com gravações de 78 rotações da Dóris Monteiro, Yo La Tengo e alguns outros títulos à 3,90 (que convenhamos é uma ninharia) e Os Lobos – Miragem. os-lobos-miragemUma das melhores aquisições do pacote foi o grupo niteroiense Os Lobos. A sonoridade deles era calcada em Beatles e Stones, elementos de psicodelia e música brasileira (em alguns momentos lembra Mutantes). Se não fosse pelo selo Discobertas, não veriam a luz do laser. Fanny, o primeiro sucesso deles, ficou de fora do álbum relançado pela Discobertas – não foi liberado pela família de Ed Lincoln, proprietário do selo Savoya. Duas músicas de Raul Seixas interpretadas por eles no VII Festival Internacional da Canção Popular, em 1972, foram acrescentadas. Os Lobos – Miragem (1971): Seu Lobo – vocal e ritmo Lembra a fase Tutti Frutti da Rita Lee; Homem de Neanderthal – autoria de Luiz Carlos Sá remete ao rock rural do autor e também associo a Zé Geraldo e Eduardo Araújo com guitarra rock setentista; Avenida Central – cordas e o vocal sentimental da cantora Cristina; Meu amor por Cristina – melodia num crescendo “pinkfloydiano” fase Atom Heart Mother, ecos do Tim Maia dos primeiros discos nos vocais; YouMutantes no escracho e na melodia; Miragem – a faixa titulo (outra de ) traz a sonoridade da guitarra de Roger Mcguinn (Byrds) e o vocal de Cristina emulando Rita Lee; Santa Teresa – a canção apresenta vocalização que se tornaria marca dos Secos e Molhados, que surgiriam em 1973; Psicodelia e letras bicho grilo estão em Carro Branco e Na sombra da Amendoeira; Ótimas releituras de Let me Sing, Let me Sing e Eu sou eu, Nicuri e o Diabo ambas de Raul Seixas. A banda se separou em meados dos anos 1970. O cantor e compositor Dalto, que fez parte da primeira formação, se tornaria conhecido nacionalmente, em 1985, com o sucesso radiofônico Muito Estranho.

27
ago
13

LP: Estação Primeira, Gueto (1987)

Por Charles Antunes Leite

ÁLBUM CLÁSSICO

Na cidade de São Paulo, em meados dos anos 1980, um movimento surgia com jovens em torno da cultura hip hop (música, artes plásticas e dança) que ainda engatinhava por terras brasileiras. No Largo São Bento (região central) “MC’s”, “DJs” e dançarinos de “break” se reuniam para animadas disputas musicais. Thaíde era um desses breakers – ele viria a se tornar um dos expoentes do Rap no Brasil. Nesse cenário surgiu o GUETO com a proposta de unir rock com a sonoridade dos jovens de periferia. O que era um gueto na cultura oitentista, nos anos 2000, foi assimilado por todas as classes socioeconômicas por meio de artistas como Racionais MCs, Marcelo D2, Criolo, Emicida entre outros.

GUETO_~1Estação Primeira (1987) trazia na capa o grupo clicado em meio aos edifícios do centro da cidade – reflexo do estilo cosmopolita da música que estavam produzindo. O som era calcado no rap, funk, rock, samba, soul e demais influências da black music. Outra novidade introduzida na música brasileira seria o uso de “scratchs” – depois incorporados pelo Ira! no Psicoacústica (1988) e pelos Titãs no disco Õ Blésq Blom (1989).

A abertura G-U-E-T-O funciona como um aquecimento em que os “slaps” do baixo de Marcola, bateria e guitarra pesadas, scratchs do DJ Marlboro e a percussão do samba são utilizados para compor esse “prelúdio”. A banda e seus integrantes são apresentados “… nos anos 90 é misturando que a gente inventa”.

A guitarra suingada no estilo Nile Rodgers (Chic) de Márcio, a bateria de Edson X  e o vocal nervoso de Júlio César são acrescidos de um naipe de metais para contar Uma Estória –  roqueira, pesada, mas sem perder o swing. É como percorrer uma imensa estrada sem saber o que vai encontrar pelo caminho.

A climática Esse Homem é Você centrada na cozinha em que o baixo se sobressai junto com o trombone de Raul de Souza até se encontrar com a cuíca de escola de samba para dialogarem entre si. Emoção tem nas frases da guitarra e a cozinha azeitada um típico “funk de breque”.

Borboleta Psicodélica com a participação de Paulo Calazans nos teclados, Geraldo D’Arbilly e Luiz Batera é cantarolável e efusiva sem deixar o groove de lado. Você Errou é mais uma levada em que rock e o funk unem a guitarra e a cozinha trabalhando a favor de uma narrativa musical que remetem ao grupo Skowa e a Máfia, outro artista que bebeu na fonte da black music nos 80’s.

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Estação Primeira
anuncia a criação de uma rádio para difundir a música celebrada pela banda e a cultura hip hop. A canção vem escorada no instrumental do Gueto e outra vez os scratchs do DJ Marlboro e a programação de Dino Vicente incrementam o som. Ensaio Geral promove a descontração e criatividade que surge durante os ensaios, discutem-se os erros e experimenta-se “por que ainda bem que é só ensaio geral”.

A banda lançou três discos em 11 anos, alterou a grafia do nome e trocou de vocalista no derradeiro trabalho. Esse primeiro disco pela coesão, diversidade rítmica e competência de seus integrantes inseriu o nome do GUETO na história do pop rock brasileiro.

Álbum: Estação Primeira, 1987
Artista: Gueto
Gravadora: WEA (Warner)

24
jan
13

Memórias Musicais: Transa, Caetano Veloso (1972)

Charles Antunes Leite

RELANÇAMENTO

Certa noite estava assistindo a um programa de TV… E surpreso, percebi na trilha uma canção de Caetano Veloso que não costuma tocar no rádio: It`s a Long Way, abre o lado dois do álbum Transa (1972). Lembrei-me da primeira vez em que ouvi um LP de Caetano – até então havia tido acesso a  canções mais conhecidas e esparsas na programação das emissoras de rádio nos anos 1980.

Essa audição ocorreu quando Transa havia alcançado a maioridade, em 1990. Eu, que até então, só ouvia rock – fui apresentado aos grandes expoentes da MPB e também do jazz por um amigo.

Transa foi produzido por Ralph Mace que havia sido tecladista do álbum The Man Who Sould the World (1970) de David Bowie. Mace já havia produzido o disco homônimo Caetano Veloso (1971). A banda: Jards Macalé (violões, guitarras e direção musical), Tutty Moreno (bateria), Áureo de Souza (percussão), Moacyr Albuquerque (baixo) além das participações de Gal Costa e Ângela Ro Ro.

O vinil durava menos de 40 minutos distribuídos em apenas sete faixas:

You Don’t Know Me: Guitarra blues com letra cantada primeiro em inglês e depois no característico português que confirma a origem baiana do compositor. Aí aparece pela primeira vez o backing vocal luxuoso de Gal Costa nesse disco.

Nine Out of Ten: Um passeio por Portobelo Road ao som do reggae – Carpe Diem!

Triste Bahia: Um lamento embalado pela música de capoeira. Duas estrofes de um soneto do poeta baiano Gregório de Matos fazem parte da letra.

It’s a Long Way: O longo caminho percorrido pelo mais famoso filho de Santo Amaro da Purificação:  do exílio em Londres para finalmente voltar ao Brasil. A canção é conduzida pelo violão e apresenta percussão e influência rítmica da música nordestina.

Mora na Filosofia:  Originalmente um samba vinculado ao carnaval- era um descarrego percussivo. A música na versão de Caetano propõe a análise de uma relação pondo amor e dor como dois pesos de uma balança. A interpretação de andamento cadenciado (a maior parte do tempo) pode ser considerada uma das melhores versões para a célebre composição de Monsueto e Arnaldo Passos.

Neolithic Man: A música vem numa crescente com violão e percussão tímida para culminar no tribal concretista.

Nostalgia (That’s What Rock’n Roll Is All About): Caetano revisita o rock’n’roll dos fifties. Nessa faixa nota-se a gaita tocada pela  jovem, ainda desconhecida, Ângela Ro Ro que no início dos anos 1970 “ralava” em Londres servindo mesas, cantando e tocando piano.

O disco Transa como introdução ao universo de Caetano Veloso é plural em influências- mescla raízes antropofágicas, naturalismo e a musicalidade londrina da época.  O mix de instrumentos acústicos e elétricos, ritmos e idiomas fez do compositor baiano um artista cosmopolita  sem se afastar de suas raízes provincianas.

Em 2012, Transa completou 40 anos. A Universal relançou em CD remasterizado em Abbey Road e vinil 180g com projeto gráfico de Álvaro Guimarães.

26
set
12

Os anos de ouro do Ultraje à Rigor

Charles Antunes Leite

ÁLBUM CLÁSSICO

Em 2012, o Ultraje à Rigor completa 30 anos de carreira. Roger Rocha Moreira, Leospa, Sílvio e Edgard Scandurra já tocavam juntos há alguns anos, até que em 1982 começaram a se apresentar como Ultraje à Rigor. Um ano depois são contratados pela WEA, mas só após dois compactos Inútil/ Mim Quer Tocar (1983) e Eu Me Amo/ Rebelde Sem Causa (1984), finalmente chega às lojas Nós Vamos Invadir Sua Praia (1985). Nessa ocasião, Roger (guitarra e vocal), Leospa (bateria), Carlinhos (guitarra) e Maurício (baixo) já estavam mais do que prontos para invadir as rádios e casas de shows e programas de auditório.

As influências de bandas dos anos 1960 e os estilos surf music, rockabilly e punk se manifestam nas composições, a maioria de autoria de Roger, cheias de humor e apelo rocker do grupo.

A música tema abre o disco e mostra a que veio: na capa o característico logo da banda manuscrito em duas cores e um periscópio com expressão maliciosa vindo à tona. No verso os integrantes da banda são clicados numa praia fake vestidos de guerrilheiros no momento “descansar”, bem à vontade, traçando uma farofinha com direito a coxinha de galinha. Os paulistanos esculhambando o fato de não terem praia em frente de casa como os cariocas.

Vislumbrando tempos menos sombrios com a iminente Nova República, o jovem da classe média não tem motivo para se rebelar em Rebelde Sem Causa; Se o Brasil é o país do futuro, todos querem votar e ganhar dinheiro, sem deixar de lado o provincianismo tropical, impresso na letra de Mim Quer Tocar.

Zoraide invoca o machismo; Ciúme, a insegurança de uma relação aberta; e Eu me Amo é um hino narcisista. Nós Vamos Invadir Sua Praia traz ainda uma regravação oportuna de Inútil, canção que havia saído em compacto – um protesto ansioso pela liberdade de escolha do presidente em eleições diretas – expresso num português “macarrônico” faz todo sentido na composição que se tornou um sucesso.

Marylou é a história de uma galinha… A música foi composta no período em que Edgard Scandurra integrou o Ultraje, sendo co-autor. A marchinha carnavalesca mostrou sua popularidade ao ser relançada como EP, revivendo a magia dos carnavais em meados dos anos 1980. Provando sua popularidade crescente mesmo ainda sem disco lançado, Roger e cia. reuniram fãs num sábado de aleluia para a gravação ao vivo de Independente Futebol Clube, faixa que encerra um dos melhores álbuns (com jeitão de coletânea) de estreia do pop brasileiro.

O segundo disco é sempre encarado como teste se um artista vai ou não triunfar. Durante a gravação do segundo trabalho, Sérgio Serra ocupa a vaga de Carlinhos que se muda para os Estados Unidos. Após a troca de guitarrista, o Ultraje marcou mais um gol na sua carreira ao tratar com leveza e sarcasmo à moda de Picardias Estudantis o tabu que era falar de Sexo! A fórmula continuou funcionando com temas certeiros como: Pelado, Eu Gosto de Mulher e Sexo.

O Ultraje estava em alta a ponto de Roger e Cia. surpreenderem seus fãs com um show num dia e local inesperado para promover o lançamento de Sexo! – nos moldes dos Beatles para Let it Be, em 1969 (estratégia também utilizada pelo U2, em 1988), em cima da marquise do Shopping Top Center, na Avenida Paulista (centro financeiro de São Paulo) na hora do almoço. Eu, na época, trabalhava como office boy e estava nas proximidades dentro de um ônibus parado devido ao trânsito ocasionado pelo show. Desci e fui conferir.

Os dois discos de sucesso consecutivos permitiram ao Ultraje figurar na lista dos maiores grupos de pop rock brasileiro da década de 1980.

06
dez
11

CD: Achtung Baby – Deluxe Edition, U2 (2011)

RELANÇAMENTO

ÁLBUM CLÁSSICO

Charles Antunes Leite

A atmosfera de Berlim é altamente inspiradora para o rock. David Bowie, Iggy Pop e R.E.M já estiveram na cidade para gravar discos. Bowie utilizou o estúdio Hansa nas vizinhanças do famoso muro que dividia Berlim para gravar a trilogia: Low (1977), Heroes (1977) e Lodger (1979), com o produtor Brian Eno, colaborador do U2, que junto com Daniel Lanois, Steve Lillywhite e o produtor Flood se uniram para dar forma ao sétimo álbum da banda: Achtung Baby (1991).

Quando foram anunciadas as diretrizes de Achtung Baby, alguns fãs (eu me incluo nesse grupo)  torceram o nariz. Divulgado o primeiro single, percebi que não poderia analisar de forma tão simplista o conceito do álbum – o mundo estava mudando e a tecnologia inspirava novas sonoridades.

Zoo Station funciona como prelúdio para aquilo que se ouviria ao longo do disco – as canções foram desenvolvidas com o uso de sintetizadores e adereços eletrônicos, mesmo assim ainda era o U2. A guitarra inconfundível de The Edge aparece emoldurada por distorções de eletro pop e o amplo uso de pedais de efeitos; a bateria vem acompanhada pela percussão digital. As canções tem um ganho de “bass” que valoriza a presença do baixista Adam Clayton.

Faixas dançantes como Even Better Than The Real Thing, The Fly e Mysterious Ways e baladas como One e So Cruel passaram a ser executadas nas rádios e na MTV. Para a música One foram criados três clipes pelos diretores Anton Corbjin, Mark Pellington e Phil Joanou (Rattle and Hum).

Achtung Baby traz canções bem próximas daquilo que o U2 havia apresentado em Joshua Tree com o frescor das inovações dos anos 1990: Until The End Of The World fez parte da trilha do filme homônimo do diretor e “brother” alemão Win Wenders, enquanto Who’s Gonna Ride Your Wild Horses soa como uma faixa perdida e mais animadinha de Darklands do Jesus and Mary Chain.

O CD bônus, em sua maioria, serve como memorabilia para os fãs. Traz B sides dos singles, versões alternativas para músicas do álbum, além de novidades como a boa versão para Satellite of Love (Lou Reed); Night and Day de Cole Porter (que já havia aparecido no tributo Red Hot + Blue) vem revigorada com a levada da guitarra de The Edge e marcada pela percussão de Larry e o baixo de Adam – Eu acabei me desfazendo de um vinil “ bootleg” com as referidas músicas – hoje me arrependo disso.

Os covers de Paint it Black (Jagger/Richards) e Fortunate Son (John Fogerty), são dispensáveis. O destaque fica por conta de Salome e Lady With The Spinning Head que ficaram de fora do álbum original.

Achtung Baby, já na primeira audição mostrou a que veio – clássico instantâneo. Passados 20 anos minhas impressões ainda são as mesmas.

A edição de 20º aniversário foi disponibilizada em cinco versões: Standard CD, Deluxe Edition, Super Deluxe Edition, Vinyl Box Set e o sonho de consumo dos fãs Uber Deluxe Edition.

Edição limitada e numerada Achtung Baby Uber Deluxe em todo o seu explendor

Uber Deluxe Edition – Edição limitada e numerada numa caixa de quebra-cabeça magnética com 10 discos (6CDs + 4DVDs): o álbum original, o CD bônus, Zooropa (1993), b-sides e material inédito gravado durante as sessões de Achtung Baby. DVDs From The Sky Down, documentário de Davis Guggenheim; o show Zoo TV – Live From Sidney, todos os vídeos de Achtung Baby e bônus. Vinil duplo do álbum, cinco singles 7” de vinil transparente em suas capas originais, 16 cópias da arte tiradas do encarte do álbum original com fotos de Anton Corbjin; livro de capa dura com 84 páginas, uma cópia da revista oficial do U2, quatro emblemas, uma folha de etiqueta, e uma réplica dos óculos escuros “The Fly” usados por Bono Vox durante a turnê de 1992.

Álbum: Achtung Baby Deluxe Edition, 2011
Artista: U2
Gravadora: Island Records/Universal 

02
out
11

Requiem para um punk brazuca

Charles Antunes Leite

Esse post está alguns dias atrasado, porém não poderia deixar de expressar meus pêsames pela perda de Redson, guitarrista e vocalista do Cólera.

Edson Lopes Pozzi, o Redson, morreu na noite de 27 de setembro devido a uma hemorrgia interna decorrente de úlcera no estômago.                                                   Divulgação: Redson, vocalista do Cólera

Em 1979, Redson formou a banda com o irmão “Pierre” e ao lado dos Inocentes e Ratos de Porão iniciaram a cena punk paulista.

Redson também foi sócio do selo discográfico Ataque Frontal que lançou vários artistas de punk e rock alternativo nos anos 1980.

Divulgação: Apresentação da banda Cólera, em 1985

A banda se tornou conhecida no underground mundial e chegou a fazer shows pela Europa foram depois registrados no disco Cólera European Tour ’87 (1988).

O Cólera tinha como característica letras incisivas contra o sistema político e o militarismo. A busca pela paz foi expressa em Pela Paz em Todo o Mundo (1986). O capitalismo e a fome foram abordadas em É Natal!!?(1987); levantaram a bandeira da ecologia, muitos anos antes de virar moda, com Verde, Não Devaste (1989).

Diferentemente de seus colegas de geração, Redson não ocupou espaços na mídia como fizeram João Gordo e Clemente (merecidamente), motivo pelo qual grande parte da molecada que curte rock hoje em dia não saiba da importância dele para história do punk nacional e para o rock independente.

Acervo: Cartaz do show no CCSP, em setembro de 1988.

Lembro de um show memorável no Centro Cultural São Paulo, em 1988. Naquela época promoviam shows com várias bandas por uma merreca. No programa daquela noite tocaram Patife Band e Grinders (o DeFalla não pode comparecer). O Cólera fechou a noite e, como sempre, contou com a participação da plateia. A banda abriu um microfone no palco para quem quisesse participar – dezenas de moleques se acotovelaram para cantar junto.

Na saída, Redson foi sentado ao nosso lado, trocando ideia, no metrô. Hoje, qualquer grupinho que aparece na TV se acha no direito de fazer exigências absurdas e manter distância dos fãs…




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