Archive for the 'Crônica' Category

30
out
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Sisters of Mercy: 25 anos da primeira turnê brasileira

São Paulo 1990 - Fanbase-produced cover (front)

São Paulo 1990 – Fanbase-produced cover (front)

Imagine a euforia dos fãs brasileiros, em particular esse escriba, quando ouviu pelo rádio numa longínqua tarde de domingo do ano de 1990 que The Sisters of Mercy tocariam no Brasil. A nota foi dada pelo DJ e locutor José Roberto Mahr no seu programa Novas Tendências (popular NT) na 89 FM. A banda incluíra o nosso país na turnê de lançamento do terceiro álbum (até hoje o último disco) intitulado Vision Thing que chegaria às lojas no mês de novembro daquele ano. As datas confirmadas: Discoteca Zoom em Brasília (25/10), Projeto SP em São Paulo (26 e 27/10), Americana-SP (28/10) e Canecão no Rio de Janeiro (29 e 30/10).

Album Vision Thing (1990)

Album Vision Thing (1990)

Naquela época bandas em atividade ou no auge dificilmente incluíam o Brasil nas turnês.Talvez fosse a última oportunidade para assistir a um show deles. Para tristeza dos fãs, após desavenças com Andrew Eldritch, a baixista Patricia Morrison afastada da banda não viria, e sim, o recém-integrado Tony James (Sigue Sigue Sputnik).

Matéria Folha de S. Paulo por Jean-Yves Neufville 26/Out/1990 (Acervo)

Matéria Folha de S. Paulo por Jean-Yves Neufville 26/Out/1990 (Acervo)

No meu bairro, quem curtia aquele tipo de música era eu, um camarada e mais dois outros que viria a conhecer depois. Não lembro o porquê, mas acabei indo sozinho (afinal faz tanto tempo). A única certeza que tenho: a música de abertura foi First And Last And Always.

Fui de Metrô. A cada parada figuras características embarcavam e não deixavam dúvidas que iriam para o mesmo lugar que eu. Ao desembarcarmos na estação Marechal Deodoro fomos a pé para o Projeto SP situado na Rua Sérgio Meira, na Barra Funda (apenas algumas quadras do metrô). Quem visse aquele grupo de gente esquisita com suas roupas pretas, cabelos espetados e demais paramentos – poderia se assustar. Ao passarmos por uns tiozinhos, eles fizeram o sinal da cruz como se fossemos vampiros ou coisa pior… Hoje em dia tais roupas e o visual se tornaram corriqueiros e até foram incorporados ao mercado de moda.

Ingresso para o primeiro show no Projeto SP 26/Out/1990 (Acervo)

Ingresso para o segundo show no Projeto SP 27/Out/1990 (Acervo)

Fui sozinho, mas encontrei vários conhecidos do Espaço Retrô (porão da região central da cidade de São Paulo frequentado por fãs de bandas como Sisters of Mercy, Bauhaus, Cure entre outras) que também consideravam imperdível a apresentação dos Sisters em Sampa.

O show, apesar da infeliz escolha do insípido Nenhum de Nós como banda de abertura – quando entramos eles estavam saindo do palco ((nenhum de nós assistiu). A apresentação foi arrebatadora: a voz gutural de Andrew Eldritch apoiada por dois guitarristas Tim Bricheno (All About Eve) e Andreas Bruhn (amigo de Eldricht), Tony James (Sigue Sigue Sputnik), o tecladista Dan Donovan (Big Audio Dynamite) e a lendária Doktor Avalanche. Como o ser humano nunca se dá por satisfeito, eu senti falta de No Time To Cry e Walk Away. Abaixo relação das músicas do set list original tocadas dia 27/10 segundo a cópia distribuída aos jornalistas:

First And Last And Always
Lucretia My Reflection
Body And Soul 
Detonation Boulevard 
When You Don`t See Me 
Marian
Body Electric ( relacionada mas não tocada)

Valentine
Doctor Jeep 
Dominion/Mother Russia
 Alice
Gimme Shelter
Temple Of Love 

Vision Thing  (BIS)
This Corrosion 

Jolene (BIS)
 1969

Sao Paulo 1990 - Fanbase-produced cover (back)

Sao Paulo 1990 – Fanbase-produced cover (back)

O show do Projeto SP (26/10) saiu num CD “bootleg” produzido pelo fan club brasileiro dos Sisters of Mercy com as quatro últimas músicas substituídas pelas apresentadas no show do dia seguinte (27/10). No YouTube está disponível uma das apresentações gravada no Canecão (Rio de Janeiro) com imagem e som sofríveis.

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13
jun
14

Minhas Copas Inesquecíveis

 

Guias e suplementos especiais de Copas do Mundo - Acervo

Guias e suplementos especiais de Copas do Mundo – Acervo

 

Só se fala em Copa do Mundo… Então fica difícil não falar também seja bem ou mal. Aproveito esse espaço para relembrar as copas passadas – recheadas de boas e más recordações – todas inesquecíveis.

Gostar e jogar futebol – prazeres surgidos em momentos distintos de minha infância, mas ambos me acompanharam por muito tempo. Minha lembrança mais remota: a Copa do Mundo da Argentina, aos oito anos de idade, em 1978. Assisti ao jogo em que os donos da casa “golearam” o Peru por 6 x 0 num pequeno televisor em preto e branco enquanto minha mãe passava roupa e aguardava o final do jogo para assistir à novela. A qualidade da transmissão era sofrível e a imagem do aparelho ainda pior. Mesmo assim, um luxo para quem até seis meses antes vivia no interior de Minas Gerais, na zona rural. Os aparelhos de TV da região podiam ser contados nos dedos de uma mão.

Acompanhei alguns jogos sem entender direito as regras. Aqueles estádios lotados, a barulheira e o papel higiênico encobrindo o verde do gramado. Difícil entender, até hoje, como o juiz Clive Thomas pode encerrar o jogo em que Brasil e Suécia empatavam em 1×1 – durante a trajetória de uma cobrança de escanteio convertida por Zico, de cabeça. Argentina e Brasil estavam empatados em número de pontos. O suposto suborno pago aos peruanos para que perdessem por 6 x 0 proporcionaria aos anfitriões o saldo de gols necessário par disputar a final com a Holanda. A Argentina acabou conquistando a Copa pela primeira vez. Ao Brasil coube o título simbólico de “Campeão Moral”.

Jogadores argentinos comemoram gol contra a Holanda na final da Copa de 1978

Jogadores argentinos comemoram gol contra a Holanda na final da Copa de 1978

Algumas semanas depois a casa ao lado recebeu novos moradores, inclusive um menino mais ou menos da idade do meu irmão mais novo. Ele nos convidou para brincar de bola na calçada: “gol a gol” , “três dentro, três fora”– de maneira tímida dava meus chutes na pelota. Dois anos depois, numa tarde ensolarada, na quadra do clube de várzea do bairro tive uma epifania ao arriscar um drible. Percebi que poderia fazer aquilo com naturalidade. Nasceu ali o gosto pela prática do futebol.

A nossa seleção que disputou a Copa da Espanha, em 1982, era de encher os olhos tanto no papel quanto em campo – uma das melhores que já representaram o país. Telê Santana montou uma equipe com jogadores habilidosos e um esquema tático alegre e ofensivo. Só que no meio do caminho tinha uma pedra e se chamava Itália… Até aquele momento a “Esquadra Azurra” vinha aos trancos e barrancos tendo chegado as quartas de final com três empates e uma derrota. O jogo contra os italianos dava como favorito o “escrete canarinho” de Zico, Sócrates, Falcão e Cia. Motivados pela plasticidade do futebol comparável ao apresentado pela seleção de 1970, as ruas foram tomadas por pinturas com motivos futebolísticos e pelo verde e amarelo. O atacante Paolo Rossi, que até aquele fatídico jogo, não havia demonstrado vocação para o gol resolveu jogar justamente naquela partida tudo que não havia feito nas anteriores.

Paolo Rossi supera a defesa brasileira e marca o primeiro dos três gols da Itália.

Paolo Rossi supera a defesa brasileira e marca o primeiro dos três gols da Itália.

A estrela dos italianos brilhou como o sol naquela tarde no Sarriá enquanto a nossa se apagava. Comoção nacional. Todos os garotos da rua indignados com a virada do destino. Queríamos a desforra mesmo que demorasse alguns anos. Eu fui o mais motivado a jogar e alcançar o profissionalismo. Sonhava com o dia em que faria parte da seleção brasileira e devolver aquela derrota para os italianos.

No mundial do México, em 1986, a seleção brasileira trazia entre os convocados alguns remanescentes do time que disputou a copa de 82, inclusive o técnico Telê Santana. Nossa seleção enfrentou problemas administrativos, de logística e contusões.  Poderia assistir aos jogos em cores, finalmente. . . O carrasco da vez foi a França nos pênaltis. Eu estava no meu auge físico e técnico como jogador, mas mesmo com a dedicação e a possibilidade de jogar no Juventus, percebi que para atingir meu objetivo precisaria contar com a sorte e tratamento fisiológico equivalente ao que Zico havia sido submetido para ganhar massa muscular. Como eu não era um atleta “fora de série” e ainda enfrentava astigmatismo acentuado – tirei meu time de campo. Entre os colegas de clube pelo menos meia dúzia deles apresentava melhores condições que as minhas, porém somente um conseguiu chegar ao futebol profissional e jogar pelo Guarani de Campinas. Os demais se perderam pelo mundo. Eu me conformei em ser apenas torcedor.

Na Itália, em 1990, presenciamos uma das piores formações da seleção brasileira a começar pelo técnico Sebastião Lazaroni e seu esquema tático equivocado. Caímos diante da Argentina de Maradona e Caniggia, ainda nas oitavas de final.

As ruas foram decoradas com cautela para o mundial de 94, nos Estados Unidos. Nossas esperanças depositadas em Romário, Bebeto e Raí que iniciou como capitão da equipe e ainda na primeira fase perdeu a braçadeira para Dunga e a posição para Mazinho. Para a final contra a Itália, a vizinhança se reuniu em volta da TV ligada em cima de um freezer na calçada e fechamos a rua para assistir a partida.

O Brasil disputaria uma final de copa do mundo depois de 24 anos. O momento histórico para a maioria de nós. No meu caso, um ano antes, tive a prévia da emoção de ver meu time vencer um campeonato (o Palmeiras sagrou-se campeão paulista depois de 17 anos e campeão brasileiro depois de 20 anos). Se tudo tivesse corrido como o planejado, a Copa dos Estados Unidos, em 1994, teria sido aquela em que poderia ter disputado e finalmente vencido a Itália na final. Lembro-me da tensão naquela cobrança de pênaltis (veio à memória o desastre da disputa contra a França, em 1986). Mas desta vez tínhamos a estrela de Taffarel que agarrou a cobrança de Massaro e o infortúnio de Baresi e Baggio que chutaram para fora. No ano em que o país perdeu Ayrton Senna, pode se alegrar com o título de tetra campeão mundial de futebol.

O capitão Dunga levanta a Copa do Mundo nos Estados Unidos , em 1994

O capitão Dunga levanta a Copa do Mundo nos Estados Unidos , em 1994

Naquela copa ficou evidente que o futebol vistoso e de jogadores habilidosos estava se tornando um jogo pragmático em que jogadores sobressaiam pela constituição física e não mais pela técnica e domínio dos fundamentos. Não estou generalizando, mas tenho a impressão de que grande parte dos jogadores profissionais possuem dois pés esquerdos – não conseguem fazer um passe ou chute a média distância e mesmo assim recebem altos salários.

Em 1998, na França, a melhor lembrança tenho da semifinal contra a Holanda que chegou às últimas consequências: relembrou a disputa contra a Itália, quatro anos antes, e novamente Taffarel deu uma mãozinha ( ou melhor duas) ao defender as cobranças de pênaltis de Cocu e Ronald de Boer. Aquele foi o último jogo de Copa do Mundo que torci e me emocionei. Foi considerado como final antecipada e muitos acreditavam que não seria difícil vencer os anfitriões que não apresentaram um futebol tão bom quanto à Holanda. O domingo amanheceu nublado – um presságio de que o jogo contra a França não teria um resultado favorável ao Brasil. Dito e feito. O jogo foi nebuloso como aquele domingo. Ronaldo, nossa maior esperança, teve aquelas “convulsões” e não rendeu. Ficou apático durante o jogo, enquanto o craque Zidane apresentou talento e sofisticação ao liderar  a equipe durante o jogo. Foi responsável por dois dos três gols da derrota brasileira . A França levantou seu primeiro título mundial.

Na Copa de 2002, disputada pela primeira vez em duas sedes Coréia e Japão não cheguei a assistir aos jogos. Acompanhei o jogo final contra a Alemanha porque foi num domingo. Fazia alguns anos que não via o Brasil tão bem como naquela partida.

Os mundiais de 2006 e 2010 nem liguei para as eliminações precoces. Aquelas seleções não me empolgaram.

Eis que chegamos a 2014 e a chance de disputar e ganhar a Copa do Mundo no Brasil. Estava de folga e poderia assistir a Abertura e estreia da seleção brasileira. Pela manha saí pelo bairro para ver o movimento nas ruas e até aproveitei para cortar o cabelo. Durante o almoço, em casa, no telejornal acompanhei a cobertura da Copa e as manifestações contrárias à realização dela. Em São Paulo, onde seria o primeiro jogo, alguns manifestantes tentaram fechar o acesso à Arena Corinthians. A policia revidou com “tiro, porrada e bomba” para reestabelecer a ordem.

Mascote oficial da Copa do Mundo do Brasil 2014

Mascote oficial da Copa do Mundo do Brasil 2014

Que abertura mequetrefe! O mundo todo assistiu a uma gigantesca festa de escola infantil. Deixar a direção do espetáculo de abertura por conta de uma europeia… Perpetuação da imagem estereotipada do brasileiro. Um carnavalesco o faria com concisão, volume e originalidade. A geração de imagens e transmissão capenga da Rede Globo completou o trabalho.

Assisti ao evento em casa com a minha mãe, como em 1978. O restante da família não conseguiu vir assistir ao jogo em casa. Cinco da tarde, a seleção em campo e começa a execução do Hino Nacional Brasileiro, confesso que me emocionei. O zagueiro David Luiz gritava ao invés de cantar, deixando evidente o nervosismo. A FIFA que vem limitando o Hino Nacional a 90 segundos teve que se dobrar a vontade dos torcedores que entoaram “à capela” o restante do hino.

Mesmo liberada às pressas, a Arena Corinthians, pelo menos pela TV, lembra estádios europeus: uma beleza! Pena que houve várias quedas de energia durante o primeiro tempo (havia sol). Pelo menos no segundo tempo se estabilizou (a noite caiu rapidamente). Bola rolando e nervosismo da estreia. Aos 11 minutos do primeiro tempo, num lance rápido pela linha de fundo, Marcelo acabou jogando contra o patrimônio. O empate persistia até os 25 minutos do segundo tempo quando a malandragem brazuca de Fred enrolou o juiz que marcou um pênalti duvidoso. Convertido por Neymar numa cobrança mais ou menos (por pouco o goleiro não defende). Neymar pode ter feito dois gols, mas o melhor em campo foi Oscar. Ele foi responsável pelo passe do primeiro gol, o lançamento que originou o pênalti e ainda teve tempo para marcar o seu aos 46 minutos do segundo tempo.

O futebol apresentado foi mediano, deu para o gasto e ainda contou com a ajuda da arbitragem. As manchetes internacionais davam ênfase ao juiz e não ao futebol brasileiro. Muita desconfiança no ar. Vamos torcer muito pelo Brasil (a seleção e o país) para que entrem nos eixos.

Charles Antunes Leite

27
dez
12

Show do Lobão: vinte e cinco anos depois

Charles Antunes Leite

Lobão: 50 Anos a Mil -Nova Fronteira (reprodução)

Li recentemente, 50 Anos a Mil, a biografia do Lobão em parceria com o jornalista Cláudio Tognolli. Um calhamaço de quase 600 páginas em que o músico traça os cinquenta anos de vida e mais de trinta de carreira. É a chance de conhecer as origens do homem que se tornou uma das personalidades mais polêmicas da música brasileira.  Em alguns momentos a narrativa  apresenta situações, algumas fantásticas, no entanto todas dignas da personalidade ímpar do Lobão.

No prólogo, digno de cinema independente, Lobão e Cazuza estão no velório do amigo Júlio Barroso. De madrugada, ao se verem a sós, esticaram duas carreiras de cocaína, como homenagem, no caixão do parceiro morto. A partir desse fato, o que poderíamos esperar se concretiza ao longo do livro, a narrativa flui em ritmo frenético desde a infância (que muitos desconheciam) em que um garoto tímido, doente e com déficit de atenção passa a se interessar por música e literatura. A origem do apelido, ainda na escola; a primeira banda e todas que vieram depois. Os amigos, parceiros, colaboradores, namoradas, as diferenças (já resolvidas) com Herbert Vianna. As circunstâncias do julgamento e da prisão por suposto porte de drogas, em 1987 – relatado minuciosamente. O direcionamento da carreira após o incidente e toda sua luta por independência e transparência no mercado fonográfico. 

Em 2012, o “lobo mau” está de volta com o registro ao vivo Lobão Elétrico Lino, Sexy & Brutal em CD/DVDUm único show no Citibank Hall, em São Paulo, em outubro de 2011. Lobão repassou 30 anos de carreira em releituras muito inspiradas mesclando temas dos primeiros trabalhos com outros da sua produção nos anos 2000. Os arranjos e a produção em parceria com Rui Mendes e Chris Winter, além da mixagem em Abbey Road, fizeram com que o repertório independentemente da idade das canções se tornasse coeso.

O artista amadurecido e experiente que procurou se aproximar da música brasileira e de experimentos eletrônicos para se distanciar do rock –  se apresenta sem culpa  e assumidamente rock’n’roll nesse Lobão Elétrico Lino, Sexy & Brutal.

DVD Lobão Elétrico Lino, Sexy & Brutal – Deckdisc (Richard Kovács)

Bambino, originalmente, trazia influências do pop alemão; agora revisitado está mais para o pós-punk britânico.  A revitalização continua em todo o show. Ouvi ecos de Lou Reed, Gang of Four, e até Patife Band. O “guitar  hero” brazuca Luis Carlini abrilhanta Ovelha Negra (Rita Lee), única composição alheia no repertório. Para terminar (no CD) o Rock Errou. Constato, caro  Lobão, que o rock se perdeu pelo caminho, mas está de volta. O melhor ficou para o final, no caso do DVD, com seis sucessos do repertório do Big Wolf como bônus: Essa Noite Não; Me Chama; Rádio Blá (Blá, blá, blá… Eu te Amo); Corações Psicodélicos;  Vida Bandida e  Por Tudo que For.

Lobão Elétrico me traz a recordação de assisti-lo, no auge, em 1987. A precisão dos fatos não pode ser exigida tendo em vista que vinte cinco anos separam os acontecimentos do relato abaixo:

Era uma típica noite de sábado. Subi a avenida central do bairro em que morava em direção a uma rua na parte alta, onde o pessoal se reunia. Lá era o ponto de encontro noturno. Todos passavam por lá, para saber sobre alguma festa, evento ou mesmo para jogar conversa fora. Esses programas, quando muito, se estendiam até duas da madrugada. Naquela noite, apenas dois caras estavam lá e iriam para um aniversário de um primo em Guarulhos:  Então, um abraço! Até amanhã!

Na avenida central, agora no caminho inverso, já considerava a noite como perdida quando encontro um colega de ginásio que perdera o contato há dois anos quando mudou de colégio. Ele estava no ponto de ônibus aguardando a namorada para saírem.

Ele estava morando novamente no bairro. Na rua de trás. Fui convidado a acompanhá-los até uma danceteria que “bombava” na época: a Contra Mão. Naquela noite, o Lobão faria o show de lançamento do álbum Vida Bandida.

Fomos até a casa dele para aguardar mais dois amigos. Resolvi que iria também. Antes, teria que avisar minha mãe.  Abro aqui uns parênteses: na década de 1980, o telefone residencial era artigo de luxo e a maior parte da população não possuía – era o meu caso. Então teria que ligar para a vizinha. Recado dado que voltaria no domingo de manhã. Seguimos para o bairro do Tatuapé.

O show do Lobão, após a saída da prisão, era aguardado com ansiedade e “frisson” – tido como o grande evento daquele sábado. A turnê com apresentações bombásticas e concorridas havia percorrido várias cidades do país até chegar à São Paulo. O disco recém-lançado, diga-se de passagem, dotado de diversidade rítmica devido à direção artística de Marcelo Sussekind trazia  pelo menos duas faixas executas nas principais rádios da época: Rádio Cidade, Jovem Pan 2 e 89 FM, só pra relacionar as emissoras da capital.

O burburinho começava há algumas quadras da Contra Mão, nas dezenas de bares da redondeza. Vamos para a fila, digna de estreia do filme Guerra nas Estrelas, para comprar os ingressos. Finalmente, conseguimos entrar. Noto que o lugar é maior que imaginava e em poucos minutos  já está bem cheio.

As luzes se apagam para a abertura da casa. Som e iluminação de última geração. Se não me falha a memória: This is the Day (The The) começa a tocar. Nesse momento, o lugar que parecia cheio, ficou  insuportávelmente apertado.

A música silencia nas potentes caixas acústicas. As luzes se apagam. Seguem alguns minutos que parecem eternos. A plateia impaciente começa a assoviar e bater os pés no piso. O alvoroço crescente.

Lobão entra no palco acompanhado dos Marajás Apedrejados. Sucessos antigos e músicas do recém lançado Vida Bandida são cantadas com energia. A galera extasiada e suada se acotovela espremida  nas dependências da danceteria. Lobão  estava bravo com o imbróglio que o levou a prisão – a música era sua forma de protesto. Detalhes do show: lembro da euforia.

Após o show, a música volta a rolar na pista até às 4h da manhã: Simple Minds, Cure, Smiths, Tones on Tail, Clash, Bolshói, Michael Jackson, Siousxie and the Banshes, Titãs, Legião Urbana, Plebe Rude, Paralamas do Sucesso, Tears for Fears, Duran Duran… Alguns meses depois, a House Music invadiria a programação das FMs e pistas das danceterias. A Contra Mão foi uma das grandes casas noturnas de São Paulo (1980-1992). Com a ascensão da música sertaneja os proprietários resolveram transformá-la em casa direcionada ao gênero da moda sob o nome de Caipiródramo.

Ficamos na Praça Sílvio Romero até às seis da manhã quando finalmente o ônibus passou. O sol brilhava quando entrei em casa trazendo pão quentinho para o café da manhã.




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