Archive for the 'Listas' Category

20
dez
14

Meus Discos de 2014

Charles Antunes Leite

Não pretendo com os discos abaixo citados criar uma lista com os melhores do ano. Dentre aqueles que ouvi em 2014 foram os que mais me agradaram e, que sem arrependimentos, pude investir suados reais na certeza de que mereciam ser ouvidos mais de uma vez.

Juçara Marçal – Encarnado

jucara-marcalA sujeira da guitarra e o “noise” em contraponto encarnados pelo discurso a flor da pele e pela voz macia de Juçara. O instrumental característico da geração Lira Paulistana: Itamar Assumpção, Arrigo Barnabé, Thiago Araripe, Grupo Rumo, Jorge Mautner, Eliete Negreiros entre outros ecoam pelo álbum. As harmonias limpas se unem ao instrumental sujo e dissonante. Não é necessário se esgoelar para parecer rock como na “sonic youthiana” Ciranda do Aborto. O disco que se sustenta na guitarra e distorção termina com a suavidade de um sambinha paulista João Carranca.

Johnny Cash – Out Among the Stars

91ZGqKs-0lL__SL1500_Johnny Cash como muitos artistas influentes deixou muito material sem ver a luz do laser. A grata surpresa em perceber já na primeira audição que este não é um mero caça-níqueis.  O filho de Cash encontrou o material durante o processo de catalogação da obra do pai. Out Among the Stars compila material não utilizado nas sessões de gravação de 1981. A faixa título é o anúncio do clima que impera em todo o disco, o ritmo no melhor estilo do Pica Pau e seu fiel cavalo “Pé de Pano”.  Dentre os destaques dois duetos com June Carter Cash e um com outra fera do country Waylon Jennings.  São rocks, baladas e temas com influência gospel reunidos que não perdem em nada para as gravações clássicas do Homem de Preto.

Willie Nelson – Band of Brothers

willieDesde 1996, Nelson não lançava um disco com 100% de material inédito: 14 temas (nove de sua autoria). Band of Brothers (a canção) é uma homenagem àqueles que foram parceiros na carreira de Nelson como Johnny Cash, Waylon Jennings e Kris Kristofferson entre outros. É um grande retorno com uma coleção de baladas límpidas e encorpadas longe da “xaropisse” do neocountry. O disco sereno e próprio para descansar após o dia de trabalho em volta da fogueira com o violão sob a luz das estrelas. Em poucos momentos, ao contrário de Cash, o ritmo é acelerado como nas canções: Crazy Like Me e I’ve Got a Lot of Traveling to Do.

Eric Clapton & Friends – The Breeze: An Appreciation of JJ Cale

 imagesZ9UD6PL4Clapton tem em J.J. Cale uma das suas influências declaradas e teve o prazer de tê-lo como parceiro em 2006 no álbum The Road to Escondido. Cale, morto em 2013, recebe a homenagem de Clapton que conta com a participação de amigos e fãs do compositor: Mark Knopfler, John Mayer, Willie Nelson, Tom Petty, Derek Trucks e Don White em releituras das composições do guitarrista e compositor. Algumas muito boas outras ok. Com poucos momentos aquém da grandiosidade de Cale. Estilos variados resultados também – o que não compromete – no final o saldo é positivo.

St. Vincent – St. Vincent

st vincentAnnie Clark aka St. Vincent (ex-guitarrista do Polyphonic Spree) no seu quarto trabalho solo envereda por caminhos melódicos e vocais semelhantes à Kate Bush e Tori Amos.  No mesmo disco podemos ouvir a pop Prince Johnny; a levada funk  de Prince safra 80’s de Digital Witness; Psycopath lembra a banda do parceiro no disco anterior David Byrne. St. Vincent mescla faixas mais acessíveis com outras situadas no “Art Rock” em que experimenta recursos da sua guitarra amparados pela eletrônica.

Suzanne Vega – Tales from the Realm of the Queen of Pentacles

suzanneSuzanne apresenta músicas inéditas depois de sete anos. O folk com vocal sussurrado acompanhado de violão ganhou a companhia de alguns instrumentos e, em alguns momentos, uma roupagem mais moderna sem descaracterização. A força dos primeiros trabalhos pode ser sentida nas canções que modulam entre o folk econômico e introspectivo e rock, mas sempre com a capacidade de se misturar ao moderno e inusitado: Jacob and the Angel traz nas palmas quase um acompanhamento flamenco. A voz de Vega é um bálsamo para os ouvidos constantemente invadidos pelas vozes das cantoras que acham que gritar é o caminho para se fazer ouvir.

Swans – To The Kind

swansCategorizar o Swans pela música que faz (há décadas) principalmente se analisarmos uma das faixas de To Be Kind que dura mais de meia hora, seria falta de informação ou incongruência, né? O centro nervoso desse trabalho, concebido como álbum duplo em que a música mais curta dura cinco minutos,  é a sequencia Bring The Sun/Toussaint L’Ouvertureo antirrock progressivo, um pesadelo sonoro com batida e vocal xamânico seguido por uma linha de efeitos sonoros tenebrosos. Depois dos 34 minutos de pesadelo, você acorda para beber água e respirar.

Max Richter – Recomposed By Max Richter: Vivaldi the Four Seasons

28947927778_p0_v1_s260x420O compositor, produtor e pianista Max Richter recriou uma das peças com maior número de interpretações gravadas na história da música: As Quatro Estações (1723) de Antonio Vivaldi. Richter desenvolveu junto com a sua formação erudita o gosto pelo punk rock e pela música contemporânea – predileção por Luciano Berio e Steve Reich. Ele toma como base As Quatro Estações de origem barroca e acrescenta elementos modernos. Manteve a dinâmica, suaviza passagens, cria texturas utilizando loops e o inusitado acréscimo de sintetizador Moog na composição. Ele ainda criou alguns bônus inspirados livremente na obra original em que flerta com a música ambiente, o minimalismo e até a boa acepção do termo New Age. O resultado não desagrada ouvintes de mente aberta, principalmente quando o violinista solo é Daniel Hope, um músico conceituado e conhecedor da peça.

Valentina Lisitsa- Chasing Pianos: The Piano Music of Michael Nyman

valentina_lisitsa_-_chasing_pianos_-_michael_nymaA pianista ucraniana conhecida por interpretações de Rachmaninoff e Liszt homenageia o compositor Michael Nyman conhecido por trilhas inspiradas como O Piano que ocupa quase metade da seleção de Chasing Piano. O score minimalisma pode ser apreciado a partir da capa em que faz referência ao cenário da capa da trilha original.

O pianista mineiro Nélson Freire teve três produtos chegando às lojas em 2014 para celebrar seus 70 anos de vida:

imagesBE8SJYBGA colaboração com o regente Riccardo Chailly que já havia sido bem sucedida com a gravação dos concertos de Brahms se repete com o Concerto nº 5 de BeethovenComplete Columbia Album Collection é uma caixa com sete CDs que cobrem o período de 1969/1982; Radio Days – The Concerto Broadcasts 1969/1979 – CD duplo com gravações das transmissões radiofônicas do início da carreira europeia.

Flying Lotus – You’re Dead!

flyingFlying Lotus aka Steven Ellison traz o DNA do clã Coltrane– ele é sobrinho neto da pianista e harpista Alice Coltrane e primo do saxofonista  Ravi Coltrane , o que já são credenciais para se aventurar a ouvi-lo.  Sinceramente, ele não desaponta.  Sua música permeia entre o jazz fusion em Tesla e Cold Dead, pelo rap em Never Catch Me e Dead Man’s Tetris passando pela psicodelia e eletrônica em Siren Song .

Pat Unity Group Metheny – Kin

kinO premiado guitarrista Pat Metheny apresenta o segundo trabalho com seu Unity Group. Ele mostra que aos 60 anos ainda tem muita lenha para queimar. Sua sensibilidade harmônica e facilidade de improvisação o levaram a colaborar com diversos artistas do pop, jazz e música erudita.  Essa versatilidade adquirida ao longo de tantos anos pode ser ouvida em discos como Kin.

Toninho Ferragutti e Neymar Dias – Festa na Roça

festaToninho Ferragutti (acordeon) e Neymar Dias (viola caipira) recriaram temas presentes na memória afetiva interiorana. Clássicos da música sertaneja autêntica ganharam arranjos instrumentais inspiradíssimos, sem mexer na estrutura das canções originais. O caráter bucólico de obras-primas do cancioneiro caipira recebeu uma embalagem condizente em digipack tendo como capa a reprodução Festa na Roça (Óleo sobre tela, 1957) de José Antônio da Silva.

Também dignos de nota:

Thurston Moore – Best Day; Bruce Springsteen-High Hopes; Leonard Cohen– Popular Problems; Vittor Santos & Grupo – Co(n) vivências; Silva – Vista Para o Mar; Dr. John   Ske-Dat-De-Dat…The Spirit Of Satch ; Keith Jarrett/Charlie Haden-Last Dance; Charlie Haden – Jim Hall; Cecilia Bartoli – St. Petersburg; Anna Netrebko-Strauss, R.: Four Last Songs; Ein Heldenleben; Alisa Weilerstein– Solo; Martha Argerich/Claudio Abbado – Mozart Piano Concertos 20 e 25; Martha Argerich/Daniel Barenboim – Piano Duos de Mozart, Schubert e Stravinsky.

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29
mar
12

Músicas & Musas – A verdadeira história por trás de 50 clássicos pop

Charles Antunes Leite

A curiosidade pelas mulheres que inspiraram direta ou indiretamente grandes compositores do pop rock acompanha, há décadas, os ouvintes e fãs. Músicas & Musas pretende trazer à tona histórias de namoradas, esposas, rivais, “groupies”, celebridades e até mesmo das ilustres desconhecidas que inspiraram 50 das maiores canções pop. Muitas dessas histórias são divulgadas pela primeira vez e se unem a outras já conhecidas.

Entre canções notórias e pérolas de pouca repercussão, pelo menos no Brasil, os autores contextualizam  a personagem inspiradora na vida do compositor e o destino nebuloso delas após a repercussão das referidas músicas. Também descrevem a trajetória do artista e a importância da canção na discografia.

Frank Hopkinson e Michael Heatley elucidaram a origem das músicas e as mulheres que as inspiraram. Pesquisaram matérias em jornais, revistas e depoimentos dos compositores para chegar à história por trás de cada música.

Algumas musas são influências claras, chegando a intitular a música, enquanto outras são sopros de inspiração ou algum detalhe associado a outras informações na composição do perfil/ canção.

A perda é a maior fonte de inspiração artística, principalmente na Música, como pode ser conferido em In The Air Tonight, o primeiro sucesso solo de Phil Collins. O baterista e cantor do Gênesis descobriu o fim do casamento ao voltar de uma turnê e constatar que a esposa o trocara pelo pintor que trabalhava na reforma da mansão deles. A composição se deu num desabafo ao piano na casa vazia.

George Harrison (Something) e Eric Clapton (Layla) elegeram a mesma musa: Patti Boyd. O fascínio pela modelo resultou em duas das melhores canções das discografias de ambos. Ela chegou a se casar com Harrison e depois o trocou por Clapton, mas a amizade entre os dois guitarristas seguiu inabalada.

Musas podem se tornar esposas e ex-esposas podem se tornar fonte de inspiração. Uma canção pode mudar completamente o rumo de uma carreira.

E não podemos esquecer os amores não correspondidos como Diana de Paul Anka,  ou ainda um pedido de desculpas de Bono (U2) para a esposa em  Sweetest Thing. Até mesmo o fato de uma das musas descritas no livro não ser exatamente uma mulher, e sim um travesti, não foi impecilho para o sucesso de Lola dos Kinks.

Os autores poderiam incluir as letras completas e não apenas trechos selecionados. A edição brasileira poderia ser enriquecida pelas letras traduzidas, mesmo sendo difícil traduzir alguns termos,  para que o leitor pudesse acompanhar a narrativa na íntegra.

A capa é linda e sugestiva: Marianne Faithfull, musa e ex-namorada de Mick Jagger, clicada em PB, sentada no tapete ao lado de uma vitrola ouvindo discos. Música & Musas é leitura deliciosa e recomendável aos curiosos por cultura pop.

Título: Musas & Músicas (The Girl in the Song)
Autores: Frank Hopkinson e Michael Heatley
Tradução: Christiane de Brito Andrei e Cristina Bazan
Páginas: 144
Editora: Editora Gutenberg

10
jan
12

10 Discos de 2011

Charles Antunes Leite

Ocupei meu tempo livre na primeira semana do ano ouvindo e relembrando os álbuns lançados em 2011. Vários discos, apesar de suas qualidades, acabaram por não figurar entre os 10 que mais me agradaram: Sepultura (Kairos), Rosa Passos (É Luxo Só),  The Cults (The Cults), My Morning Jacket (Circuital), Bon Iver (Bom Iver), The Vacines (What Did You Expect From The Vaccines?), Mônica Salmaso (Alma Lírica), Old 97s (Grand Theatre Vol. 2), Peter Bjorn And John (Gimme Some), entre outros. Abaixo os “eleitos”:

Anna Calvi- Anna Calvi

O álbum de estreia da guitarrista Anna Calvi é uma surpresa em meio a enxurrada de cantoras de RB e o pastiche do pop atual. A solidez das músicas tocadas pela jovem Anna revela lampejos técnicos de Ry Cooder – remete às paisagens desertas e solitárias. Ela deve ter ouvido muito Django Reinhardt.
Anna Calvi ganha a audiência já na primeira faixa Rider to the Sea que vem num crescendo acompanhado de coro nos moldes de Ennio Morricone.
No More Words – não é necessário nem mesmo que ela cante, o instrumental por si é suficiente. As nuances vocais acompanham a mudança de andamentos, enquanto Desire é o rock afiado como o desejo e a voz entre Siouxsie e Joanette Napolitano. O baixo e a bateria impoem dureza roqueira como em  I’ll Be Your Man, acordes hipnóticos, ríspidos e modulação vocal carregada de vibração. Ela ainda pode ser colocada ao lado de Patti Smith e PJ Harvey. Poderiam dizer que ela é feia, mas não – Anna Calvi possui porte de modelo.

Criolo – Nó na Orelha

Nó na Orelha apresenta evolução em relação à Ainda Há Tempo (2006) quando assinava Criolo Doido. Ele abre o leque de referências para ilustrar contundentes  crônicas musicais.
Bogotá é latin jazz com carimbó e forte linha de baixo; A já conhecida Não Existe Amor em SP, um lamento com percussão tímida acompanhada de baixo e alguns acordes esparsos de órgão e até violino.
Subirusdoistiozin, Grajauex e Sucrilhos – nas duas últimas ele faz trocadilhos com o mercado de consumo – são as três faixas em que pode ser rotulado como rap tradicional.
Freguês da Meia-Noite se desenvolve no ritmo do bolero com guitarra caribenha, andamento e letra no estilo Odair José.
Criolo parte do rap, mas não pode ser considerado como tal. Categorizar seria restringir a força e a versatilidade da música que utiliza para promover o discurso. Nó na Orelha mistura na receita rap, afro-samba, soul, reggae, mpb, blues e toques de latinidad.
Criolo levou para casa três prêmios do VMB 2011, realizado pela MTV, inclusive melhor disco. Nó na Orelha sintetiza a proposta de dar um “nó na orelha” da audiência acostumada a rótulos – o indefinível só comporta a definição de música, e da boa.

Florence and the Machine – Ceremonials

Florence Welch adquiriu experiência cantando desde criança. Ela mistura no liquidificador de influências o canto lírico, pop e punk para produzir uma massa sonora dotada de  identidade.
A voz pode ser afinada e suntuosa como também pode ser direta e visceral. A comparação com Kate Bush ou Sinéad O´Connor vem naturalmente, mas não é mera cópia desprovida de conteúdo. Seja acompanhada por bateria eletrônica, teclado ou uma banda – ainda assim, sabe-se tratar de Florence and the Machine.

Thurston Moore – Demolished Thoughts

O terceiro disco solo de Thurston Moore chega no momento de transição na vida do guitarrista do Sonic Youth que sai de um casamento e parceria de 30 anos com a baixista Kim Gordon.
Demolished Thoughts é resultado da colaboração de Moore com o multi-instrumentista e produtor Beck Jansen, daí a sonoridade acústica e multifacetada que permeia o álbum. A banda composta por Mary Lattimore (da harpa), Lubielski Sâmara (violino), Inscore Bram (baixo) e Joey Waronker (percussão) formam a base para as incursões dos instrumentos adicionados por Beck. Demolished Thoughts seria uma antítese a discografia do SY, mas o conjunto revela força e sentido mantendo relação de proximidade com o caos sonoro da ex-banda de Moore. Enquanto o Sonic Youth é melodia alinhavada com barulho e distorção, Demolished é calma e inquietação; deve ser apreciado como um todo num tempo em que os i-Pods fracionam e diluem os discos.

Danger MouseRome

O compositor Daniele Luppi e o produtor Danger Mouse (Gorillaz e Gnarls Barkley),  aficionados pelas trilhas sonoras de filmes italianos das décadas de 1960 e 1970,  principalmente western spaguetti, se uniram em torno de Rome – projeto que necessitou de mais de seis anos de maturação.
Para que o disco soasse autêntico utilizaram o estúdio Roma Forum fundado por Ennio Morricone, além de alguns músicos que participaram das gravações desse ícone das soundtracks. Na produção dispensaram os equipamentos modernos e computadores para que a sonoridade ficasse bem próxima das trilhas originais.
O projeto, iniciado em 2004, contou com participações de Jack White (The White Stripes, The Raconteurs, The Dead Weather) e Norah Jones – que gravaram os vocais em brechas de suas agendas durante o longo período de gestação do álbum.
Rome atingiu o intento reproduzindo, quase com perfeição, o clima árido e introspectivo das trilhas sonoras criadas por Morricone.

Pedro Luís – Tempo de Menino

Pedro Luís conhecido pelos trabalhos percussivos junto ao Pedro Luís e a Parede e o projeto Monobloco em que os ritmos como samba e swing são potencializados para promover a salada sonora da MPB. Com o lançamento de Tempo de Menino, ele despressuriza e dilui o groove em favor de temas, digamos, mais leves em termos rítmicos.
Tempo de Menino traz os elementos dos grupos mencionados, porém mais próximos da MPB tradicional – adicionando toada e fado a mistura. O trabalho tem participações dos músicos da Parede, Milton Nascimento, Roberta Sá, Erasmo Carlos e Carminho. A identidade do disco é mérito do duo MiniStereo formado pelo produtor Rodrigo Campello e o guitarrista Jr. Tostoi.

Wynton Marsalis & Eric Clapton – Play The Blues – Live From Jazz At Lincoln Center

A combinação do blues de Eric Clapton com o jazz de Wynton Marsalis proporciona uma abordagem renovada de canções originais. A escolha do repertório ficou por conta de Clapton enquanto Marsalis providenciou os arranjos das canções com o acréscimo luxuoso da Orquestra do Lincoln Center. Os gêneros que tem raízes na música negra do final do século 19 provam que a música popular de qualidade pode ser reinventada e perpetuada, principalmente, se interpretadas por quem conhece do riscado.

Adele – 21

Ela teve ótima repercussão entre público e crítica com o seu début álbum.  Em 2011, Adele voltou e conseguiu de novo. As baladas agridoces da juventude amadureceram em 21. A jovem inglesa capitaneada pelo produtor Rick Rubin evoluiu tecnicamente e as canções receberam a inspiração da dor causada pelo rompimento amoroso após a turnê do álbum 19. Ela não precisa apelar para sensualidade ou escândalos para atrair a atenção e brilhar. Adele, além de intérprete, também é co-autora de 10 das 11 canções.
Tanto o disco 21 como os singles Rolling in the Deep e Someone Like You frequentaram as listas de mais vendidos durante o ano.

Charles Bradley – No Time for Dreaming

Charles Bradley se criou nas ruas do Brooklin e se interessou pela música ao assistir James Brown, no Apollo, em companhia da irmã, em 1962. Na juventude trabalhou como cozinheiro e depois de trabalhar em vários restaurantes pelo país – percebeu que era hora de voltar para casa e para o sonho. A experiência vagando pelos EUA, a vida dificil e a perda do irmão assassinado transformaram o talento em autêntico soul retratado nas músicas de No Time for Dreaming. Charles Bradley, os 51 anos, amadureceu e a dor expressa em pérolas como The World (Is Going Up in Flames) e No Time For Dreamin’ são amostras disso.

Tom Waits – Bad as Me

Tom Waits é um artista na acepção da palavra: instrumentista, cantor, compositor, poeta e ator capaz de circular pelo blues, jazz, folk, pop, música alternativa e ópera com desenvoltura.
Muitas das facetas de sua discografia estão presentes em Bad as Me. Ele passeia pela  visceralidade e pela vanguarda sem perder a aura que aglutinou fãs das mais diversas vertentes durante a longa carreira. Tom Waits é como o Bourbon: quanto mais tempo de envelhecimento mais interessante o “blended”.

01
jan
11

Os 7 melhores filmes de 2010

Charles Antunes Leite

Toy Story 3 (Toy Story 3, EUA, 2010)
Direção: Lee Unkrich

A missão de conseguir um bom roteiro, personagens cativantes e trama envolvente em se tratando do terceiro filme de uma franquia,  nem sempre é fácil. Toy Story conseguiu. O epílogo da história dos brinquedos e seu dono Andy, que cresceu e está a caminho da faculdade. Chega a hora de Andy se despedir das coisas de criança e seguir para a vida adulta. Essa mudança também é sentida pelos brinquedos que aguardam angustiados o seu destino: ir para lixo, serem guardados no sótão ou doados. Na terceira parte de Toy Story, os bonecos mais que nunca, se metem em aventuras e criam vida. A  brincadeira é vista da ótica do brinquedo que se sente ligado ao dono e a utilidade que tem para vida deste. Enquanto a criança cresce, ele envelhece. Quem não tem algum brinquedo guardado no fundo de uma caixa e que aparece quando estamos fazendo uma limpeza e nos traz de volta a memória das tardes de aventuras de uma infância longínqua? O filme consegue fechar uma trilogia sem altos e baixos e muitos consideram a terceira parte ainda melhor que os anteriores.

O Segredo dos Seus Olhos (El Secreto de Sus Ojos, Argentina/ Espanha, 2009)
Direção: Juan José Campanella

A história de um brutal assassinato e a obsessão de um homem para resolvê-lo. Benjamin Esposito (Ricardo Darín) ao se aposentar do cargo de oficial de justiça começa a escrever um livro sobre o crime ocorrido em 1974. Na época, ele foi designado para investigar um caso de estupro e assassinato de uma jovem. É desta forma que Benjamin conhece Ricardo Morales (Pablo Rago), marido da falecida, a quem promete ajudar a encontrar o culpado. Para tanto, ele conta com a ajuda de Pablo Sandoval (Guillermo Francella), seu grande amigo e Irene Menéndez Hastings (Soledad Villamil), sua chefe imediata, por quem nutre uma paixão secreta. Uma trama cheia de mistério, romance e comicidade graças ao talento de Ricardo Darin e a direção de Campanella.

A Origem (Inception, EUA/ Reino Unido 2010)
Direção: Christopher Nolan

Don Cobb (Leonardo Di Caprio) é especialista em invadir a mente das pessoas durante o sono e roubar-lhes os segredos. Essa habilidade faz com que seja alvo de grupos de espionagem e ele se torne um fugitivo. Cobb para redimir-se é contratado para implantar pensamentos e não roubá-los e conseguindo executar a missão poderá retornar para sua casa e para seus filhos. Paul Franklin, já havia trabalhado com Christopher Nolan nos filmes do Batman, foi o responsável por conceber o cenário e os efeitos oníricos, essenciais para condução da trama. Os efeitos e as sequências de perseguição tornam o filme dinâmico. Várias dimensões do sonhar se misturam quando sonhos são sobrepostos. A realidade e os sonhos se confundem. A Origem mostra que os sonhos são feitos de impulsos cerebrais, logística, química e arquitetura para que o sonhador possa trilhá-los com segurança. Mais um grande triunfo de Nolan (Batman – O Cavaleiro das Trevas). O filme gerou muitos comentários e interpretações pelo público.

Tropa de Elite 2 (Tropa de Elite 2, Brasil, 2010)
Direção: José Padilha

Segunda parte da saga do Capitão Nascimento (Wagner Moura) em sua luta contra o crime no Rio de Janeiro. Nascimento é afastado do BOPE, após operação mal sucedida, no entanto é promovido a Coronel. Ele sai da batalha contra traficantes nas favelas e vai para trás de uma mesa na Secretaria de Segurança Pública do Estado e verá que os criminosos mais perigosos  estão infiltrados no órgão que deveria combatê-lo. Tropa de Elite é conduzido como se fosse uma produção “hollywoodiana” com muitas explosões e tiroteios, em sequências dirigidas magistralmente por Padilha. O filme se tornou por conta da qualidade e aceitação do público o recordista brasileiro de bilheteria superando Dona Flor e seus Dois Maridos (1976) que ocupava o posto a 34 anos.

Machete (Machete, EUA, 2010)
Direção: Robert Rodriguez

Não me lembro de um início de filme com a intensidade da carnificina executada por Machete. A violência é um dos ingredientes dos filmes dirigidos por Robert Rodriguez (El Mariachi, Um Drink no Inferno e Planeta Terror). Machete (Danny Trejo) é um agente federal e imigrante mexicano que cai em uma armadilha do traficante de drogas Torres (Steven Seagal), que resulta na morte de sua esposa e o torna um renegado. Três anos depois, Machete, que agora trabalha como operário, é contratado por Michael Booth (Jeff Fahey) para assassinar o Senador John McLaughin (Robert De Niro), que quer expulsar todos os imigrantes ilegais do México. Ele é incriminado no atentado e com a ajuda do  “Padre” (Cheech Marin), Shé (Michelle Rodriguez) e Sartana (Jéssica Alba) ele vai empreender uma luta contra Torres e sua orgnização.

Ilha do Medo (Shutter Island, EUA, 2010)
Direção: Martin Scorsese

O drama de Martin Scorsese, como o título sugere, se passa em uma ilha que abriga um hospital psiquiátrico para criminosos, espécie de Asilo Arkham. Dois policiais (Leonardo Di Caprio e Mark Ruffalo) vão para lá para investigar o desaparecimento de um paciente do Shutter Island Ashecliffe Hospital, em Boston. Durante a trama as coisas se revelam nebulosas e nada é o que parece à primeira vista. Os policiais encontram resistência de todos os funcionários e da direção da instituição. No hospício são realizadas experiências ilegais com os internos. Impossibilitado de sair da ilha devido à tempestade, Teddy Daniels (Di Caprio) começa a ser drogado inconscientemente e passa a ser tratado como um paciente. O “thriller psicológico” já havia sido explorado pelo cineasta em Cabo do Medo (1991) com Robert De Niro e se distancia dos filmes tradicionais de Scorsese, mas prende a atenção.

Tetro (Tetro, Argentina, Itália, Espanha, EUA, 2009)
Direção: de Francis Ford Coppola

O ingênuo Bennie (Alden Ehreinreich), de 17 anos, chega a Buenos Aires para encontrar seu irmão mais velho, Angelo (Vincent Gallo), que resolveu tirar um ano sabático para escrever um livro e nunca mais entrou em contato com a família. Angelo não é mais a mesma pessoa, inclusive renegou o nome de batismo e passou a se chamar Tetro. Ele parou de escrever, vive com uma bela dançarina e trabalha como iluminador de teatro. O filme utiliza “flashbacks” para explicar o motivo do afastamento de Tetro. No final uma revelação torna ainda mais profunda a relação dos dois irmãos.

01
jan
11

Os 10 melhores discos internacionais de 2010

Charles Antunes Leite

Joanna Newsom – Have One on Me

A harpista pop americana Joanna Newsom colaboradora em discos de outros artistas e com três discos na bagagem finalmente chega ao seu melhor trabalho. O CD anterior Ys era composto por cinco longas faixas na tradição do rock progressivo e a capa remetia ao gênero também. O vocal infantil no estilo Bjork, Coco Rosie, Regina Spektor, e até, Kate Bush – à primeira audição causa estranheza. As letras são narrativas esotéricas, bucólicas e tudo que estiver a sua volta pode virar assunto e se tornar música. Have One on Me seria ambicioso mesmo se lançado trinta anos antes: álbum triplo como não se via desde os discos de artistas como Yes. O álbum apresenta influências de folk e detalhes instrumentais sutis que devem ser ouvidos com calma. É algo meio difícil para quem está acostumado à audição “randômica” de música em MP3, mas só assim poderá tirar proveito desse grande disco.

Brian Wilson – Reimagines Gershwin

A banda Beach Boys foi o principal expoente da surf music dos sixties. A genialidade de seu líder Brian Wilson, só foi superada pela dupla Lennon e McCartney. Wilson é tão criterioso e profissional que demorou mais de trinta anos para lançar Smile (1966/2004).
Gershwin (George e Ira) estão entre os compositores mais populares dos Estados Unidos. A música deles alia os arranjos sinfônicos com elementos de jazz.
Wilson orquestrou algumas das mais conhecidas peças do compositor americano e transpôs para a ensolarada Califórnia. Deixou-as composições mais suaves e alegres. Os arranjos orquestrais estão lá, e em alguns momentos, são vistos pela personalidade de Wilson como ao acrescentar vocais dobrados no melhor estilo Beach Boys para acompanhar a orquestração em Rhapsody in Blue. Em alguns momentos, o clima é de baile como em I’ve Got a Crush on You; I Got Rhythm ficou com a levada de I Can Hear Music dos BB. O disco ainda traz duas canções inacabadas de Gershwin e finalizadas por Brian Wilson: The Like in I Love You e Nothing But Love. Ele fez o que Gershwin faria se vivesse na Califórnia e não em New York.

Arcade Fire – The Suburbs

O terceiro disco do septeto canadense mantém o nível dos trabalhos anteriores. Nas músicas nota-se algumas pitadas de Springsteen, Neil Young, Mike Scott e também de grupos da gravadora Rough Trade e 4AD, entre outros. A música deles utiliza eletrônica, arranjos orquestrais e instrumentos acústicos, sem que eles se debrucem em uma fórmula pré-concebida. A cada faixa podem acrescentar ou subtrais elementos que lembram o bom pop da década de 1980 ou o indie do século 21. O tom melancólico das letras e melodias é mais uma característica de algumas de suas referências.

Gil Scott-Heron – I’m New Here

Scott-Heron é um poeta a serviço das causas afro-americanas  que se expressa através da fusão de soul, jazz e ritmos latinos e pode ser considerado o pai do rap. Lançou o primeiro disco em 1970, mas se tornou conhecido com o disco e música The Revolution Will Not Be Televised (1974). Nos últimos anos ele esteve envolvido com drogas e passagens pela polícia. O estilo falado de suas canções (narrativas musicadas), adotado pelos rappers continua presente, no entanto menos orgânico. I’m New Here tomou dezoito meses de trabalho do artista, que ao contrário de trabalhos anteriores, preferiu o suporte eletrônico ao invés do acompanhamento de uma banda. O que importa é que ele continua com o discurso afiado e consegue dar o recado.

Sharon Jones & The Dap-Kings – I Learned the Hard Way

A sonoridade “fake” de cantoras do neo soul é real na carreira de Sharon Jones, a mais velha das cantoras do gênero, nasceu em 1956, mas só gravou o primeiro disco em 2001. A banda Dap Kings, que toca com ela, gravou e excursionou com a inglesa Amy Winehouse. A norte americana Sharon Jones segue a tradição das cantoras de soul que iniciaram cantando na igreja, utiliza nos discos instrumentos e equipamentos de época aliados a sua voz e qualidade de intérprete e o respaldo dos Dap Kings recria verdadeiramente a atmosfera dos 60’s, o que pode ser ouvido em I Learned the Hard Way.

Charlie Haden and Quartet West – Sophisticated Ladies

O baixista Charlie Hadden fundador da Liberation Music Orchestra vem construindo uma sólida carreira no jazz. Não se prendeu a rótulos ou se fechou para influências e parcerias. Trabalhou com músicos de várias nacionalidades inclusive com Egberto Gismonti no selo ECM.
Sophisticated Ladies foi gravado com a sua habitual banda Quartet West e teve a participação de cantoras para executar versões de standards americanos. São intérpretes contemporâneas de várias idades e correntes musicais, desde a jovem e talentosa Melody Gardot, passando pela pianista de jazz pop Norah Jones até a soprano Renée Fleming.

Gorillaz – Plastic Beach

O Gorillaz, o projeto de Damon Albarn (Blur) é mais eclético que os anteriores. Como sempre vem acompanhado pelos convidados mais inesperados. Desta vez  Lou Reed, o rappers Snoop Dog, De La Soul, Mos Def, Mark E. Smith (Fall) e o soul man Bobby Womack e para engrossar a mistura The National Orchestra of Arabic Music e o Hypnotic Brass Ensemble (músicos de jazz/hip hop) e uma aparição inédita de Mick Jones e Paul Simonon (Clash) que não tocavam juntos desde a dissolução da banda.

Dizzy Gillespie -Dizzy Gillespie no Brasil com Trio Mocotó

Foram encontradas gravações inéditas de Dizzy Gillespie e Trio Mocotó feitas no Brasil em 1974. As gravações ocorreram no Estúdio Eldorado, durante uma visita de Dizzy ao país. A gravação marca o encontro do influente inventor do Bee Bop com os ases do samba-rock. O disco deveria ter sido lançado em 1975, mas acabou não saindo das fitas. São oito composições inéditas que ficaram 35 anos engavetadas, o que torna mais interessante a audição.

National –  High Violet

O The National sempre esteve a sombra de outras artistas indie, o que começou a mudar com Alligator (2005) e manteve a pegada para arregimentar um pequeno e fiel grupo de admiradores com as músicas melancólicas e agridoces cantadas por Matt Berninger. High Violet é a continuação lógica na escalada para o estrelato mesmo porque trocaram figurinhas com Richard Parry (Arcade Fire) quando fizeram um projeto para gravação de um disco natalino ao lado de Sulfjan Stevens.

John Legend & The Roots – Wake Up!

O cantor de soul/ rhythm blues John Legend e o grupo The Roots se uniram para gravar Wake Up! A parceria tinha tudo pra dar certo e deu. O clima das músicas, os vocais e a parte instrumental lembram a cada faixa algum momento perdido nos anos sessenta e setenta. São músicas de uma época em que havia preocupação política e social: Guerra do Vietnã, Os Panteras Negras. Eles captaram isso nas grandes releituras de clássicas canções da american black music. Destaque para a faixa de abertura Hard Times e Wake Up Everybody com  as participações de Common e Melanie Fiona.

01
jan
11

Os 10 Melhores discos nacionais de 2010

Charles Antunes Leite

Jeneci – Feito para Acabar

Marcelo Jeneci aos 17 anos já tocava na banda de Chico César, mas até o lançamento de Feito para Acabar, se amparava em duas músicas no MySpace. Mas a Internet é capaz de reverberar informação e abrir portas, e foi o que ocorreu com esse paulistano que esperou 27 anos para gravar seu próprio disco. O multi-instrumentista utiliza como fonte de inspiração o indie e até o brega como referências e sabe fazer com que tais ingredientes se tornem os quitutes desse álbum de estréia. As mãos do produtor Kassin e a banda formada por Curumim (bateria), Edgar Scandurra (guitarras) e Regis Damasceno e a cantora Laura Laviere contribuem para esse “debut” de Jeneci . O álbum tem como atrativo a apresentação das letras das canções que não estão dispostas num encarte, mas em cartões individuais. Jeneci está presente em duas trilhas globais e traz na bagagem parcerias com Chico César, Vanessa da Mata, Zélia Duncan e Arnaldo Antunes. O próprio Arnaldo ao conhecê-lo disse: “Ele é um caso de instrumentista brilhante que tem sensibilidade para fazer canções, sabe adequar letra e melodia. Muitos virtuoses não sabem unir som e texto.” Jeneci se tornou tecladista da banda de Arnaldo Antunes.

Seu Jorge  & Almaz – Seu Jorge & Almaz

O que era uma ação entre amigos para uma trilha sonora há alguns anos, agora retorna no formato de um supergrupo e com um álbum. Seu Jorge; o compositor de trilhas Antônio Pinto (Colateral, O Amor nos Tempos do Cólera);  Lúcio Maia (guitarra) e Pupillo (bateria), membros do Nação Zumbi, em releituras bem pessoais de músicas que vão de Kraftwerk à Nélson Cavaquinho. Uma das melhores é a versão “viajandona” de The Model dos pais do tecnopop.

Maquinado – Mundialmente Anônimo

Mundialmente Anônimo – O Magnético Sangramento da Existência é o segundo disco do projeto Maquinado do guitarrista Lúcio Maia do Nação Zumbi. Enquanto o Nação tem na percussão a sua essência, Maquinado prima pelo uso de guitarras orgânicas em direção ao rock, incluindo elementos de hip-hop, psicodelia e ritmos brasileiros. Ele contou com a participação da cantora Lourdes da Luz (Mamelo Sound System). No disco, Maia assume os vocais em sete faixas.

André Abujamra – Mafaro

André Abujamra, desde os tempos de Os Mulheres Negras (a terceira menor big band do mundo) e o Karnak (doze integrantes e um cachorro) vem direcionando sua música para diversidade e mistura de estilos e  ritmos, agora evidenciado nesse Mafaro. A concepção de MPB proposta por Abujamra vem do caldeirão de referências de André, homem viajado, e que  chegou a excursionar pelo mundo munido de um gravador para coletar sonoridade do leste europeu, África, Oriente e países latinos. Ele assimilou referências musicais tão dispares dessas regiões somadas aos ritmos brasileiros. Mafaro, ao contrário do que se possa imaginar, não é indigesto e se revelou uma mistura palatável.

Jair de Oliveira – Sambajazz

Jair de Oliveira, passada a fase Balão Mágico, cresceu, estudou música e se tornou produtor. Nesse CD e Livro, o artista prova a maturidade e criatividade artística peculiar às suas raízes. Ele esbanja competência com um disco recheado de samba e jazz e assina 15 das 17 faixas. O disco cumpre o que promete e lembra Marcos Valle e João Donato, que provavelmente ele ouviu muito. O trabalho gráfico é um atrativo à parte em tempos de MP3. O CD vem encartado num livro em que autor documenta o processo de criação do álbum.

João Donato e Paula Morelenbaum – Água

João Donato construiu uma carreira como um dos pilares da bossa nova. Paula Morelembaum se revelou como cantora no grupo de Tom Jobim em álbuns como Passarim (1986). Entre 1998 e 2001 gravou com o marido Jacques Morelenbaum, Paulo Jobim e Ryuki Sakamoto até se aventurar em dois álbuns solo, dos quais foi bem sucedida. No CD Água eles buscaram a atemporalidade de canções. Sem a preocupação com a tradição ou modernidade, num objetivo que é somente fazer música (boa música). Para tanto, a diversidade dos arranjadores do disco: Marcos Cunha, Alex Moreira, Jacques Morelenbaum, Léo Gandelman, Kassin, Beto Villares, Bossacucanova e Donatinho (filho do homem). Usaram o que a modernidade tem de salutar, os equipamentos eletrônicos, aliados aos instrumentos tradicionais – tudo isso sem perder a unidade.

Mauro Senise e Gilson Peranzzetta – Linha de Passe

Linha de Passe trabalho que une dois dos grandes músicos brasileiros na ativa: Mauro Senise (sax, sax alto, flauta) e Gilson Peranzzetta (pianista e arranjador). Era muito aguardado o encontro desses dois craques da música. Eles provam desde a primeira faixa a disposição de jogar no ataque em tabelinhas em que ora um, ora o outro dá o passe para o gol como em Linha de Passe (João Bosco / Paulo Emílio / Aldir Blanc), Tico Tico no Fubá (Jose Gomes de Abreu/ Miguel De Lima Mattos) ou Brasileirinho (Waldir Azevedo), só para citar algumas jogadas. O ouvinte vibra a cada lance (compasso) jogada. No final Linha de Passe promove uma goleada musical.

Alzira E – Pedindo a Palavra

Alzira Espíndola, ou simplesmente Alzira E, é cantora e compositora e foi parceira do falecido Itamar Assumpção, figura contundente e irreverente do circuito artístico paulistano da década de 1980. Ela teve posteriormente parcerias notáveis com a poetisa Alice Ruiz e Ney Matogrosso. Pedindo a Palavra revela ótimos resultados da união entre poesia e música proposta por Alzira que não precisa pedir a palavra porque ela se impõe aos ouvidos.

Tulipa Ruiz – Efêmero

Tulipa Ruiz no seu primeiro disco solo revela o vocal agradabilíssimo e econômico em relação aos recursos para expressar sua musicalidade. Tulipa propõe em Efêmera algo contrário daquilo que o termo significa: passageiro, pouco duradouro. Em Zoologia, os “efemerídeos” são insetos que quando adultos vivem por poucas horas. Pelo contrário, o álbum de Tulipa Ruiz é perene.


Mombojó – Amigo do Tempo

É a reaproximação e reestruturação da banda que vem do revés que foi a saída do multi-instrumentista Marcelo Campello e a perda do flautista Rafael Torres, morto em 2007. Cinco das onze músicas foram produzidas por Pupillo, baterista do Nação Zumbi. O álbum surgiu de um retiro da banda, em 2009, para um sítio em Aldeia. O clima, inicialmente, despreocupado de ensaios e esboços de composições anteriores a 2008 deram origem a Amigo do Tempo.

08
jan
10

Os 10 Melhores Discos Nacionais e Internacionais de 2009

Charles Antunes

Álbuns selecionados sem ordem de preferência.

Nacionais



Maria Gadú – Maria Gadú (Som Livre)

Céu – Vagarosa (Urban Jungle – Universal)

Jane Duboc e Victor Biglione -Tributo a Ella Fitzgerald (Rob Digital)

Ná Ozzetti – Balangandãs (Biscoito Fino)

Ney Matogrosso – Beijo Bandido (EMI)

Nego – Vários (Biscoito Fino)

Caetano Veloso – Zii e Zie (Universal)

Tiê – Sweet Jardim (Warner)

Mariana Aydar – Peixes, Pássaros, Pessoas (Universal)

João Bosco – Não Vou Pro Céu, Mas Já Não Vivo No Chão (Universal)


Internacionais

Bruce Springsteen – Working On A Dream (Columbia)

Pete Yorn & Scarlett Johansson – Break Up (Warner)

U2 – No Line On The Horizon (Universal)

Bob Dylan –Together Through Life (Sony- BMG)

Wilco – The Album (Warner)

Florence And The Machine – Lungs (Island)

Animal Collective – Merriweather Post Pavilion (Domino)

Dirty Projectors – Bitte Orca (Domino)

Franz Ferdinand – Tonight (Universal)

Antony And The Johnsons – The Crying Light (Secretly Canadian)





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