Archive for the 'Na locadora' Category

21
ago
13

DVD: O Moinho e a Cruz, Lech Majewski (2011)

Por Charles Antunes Leite

“O infinito da estética é um sentimento que resulta da finita e perfeita completeza da coisa que se admira” (Umberto Eco).

omoinhoeacruzposterf2O Moinho e a Cruz (The Mill and the Cross, 2011) do polonês Lech Majewski é uma esmerada produção que recria o quadro A Procissão Para o Calvário (1564) do pintor Pieter Bruegel. As imagens são os pontos fortes da narrativa: cores, formas e texturas sobressaem sobre o som, a música e as palavras. O indizível é descrito em cores e sombras. A fotografia do filme privilegia o contraponto entre luz e sombra, reproduzindo o efeito de “chiaroscuro”  para reforçar a carga dramática das cenas. Poucos diálogos, a narração econômica, a música tímida e quase imperceptível no decorrer do filme. Num raro momento, um camponês bêbado dança ao som de um menestrel. A ausência de música e palavras leva o espectador a divagar de forma subjetiva sobre aquilo que é apresentado na tela.

O pintor holandês Pieter Bruegel, o Velho (1525-1569) sofreu a influência de Hieronymus Bosch na sua forma de compor cenas complexas e com múltiplos elementos, principalmente temas pastoris e sacros. A passionalidade em relação ao divino, a condição humana subjugada pela religião – o olhar do artista descrevia o cotidiano a sua volta em cenas panorâmicas exploradas com maestria no formato “widescreen” do cinema e telas de TV. São vários quadros menores que convergem na grande cena retratada na pintura de 124 cm exposta no Kunsthistorisches Museum de Vienna.

A abertura do filme apresenta os atores se vestindo enqunato Bruegel (Rutger Hauer) instrui o posicionamento dos modelos na cena, ao lado do amigo e colecionador de arte Nicolaes Jonghelinck (Michael York). O plano de fundo pintado à mão e as locações na Polônia, Áustria e Nova Zelândia servem para ilustrar e emoldurar o quadro.

Bruegel elenca os elementos das cenas retratadas na tela da mesma forma que Vittore Carpaccio, Albrecht Dürer e Hieronymus Bosch. Nesse ponto a pintura e o cinema se encontram na apresentação do “storyboard” do quadro a ser pintado. O esboço traça uma cena principal com cenas secundárias e terciárias que convergem e possibilitam a compreensão do tema num sentido mais amplo.

Para sua obra-prima A Procissão Para o Calvário, ele se inspirou no momento político e social em que viviam. Os aldeões incorporam os contemporâneos de Jesus Cristo, principalmente Charlotte Rampling como a inspiração para a Virgem Maria. Os espanhóis representam os romanos e o Salvador moído como grão pelo Moinho. Paralelamente ao drama que se anuncia, o cotidiano familiar do artista se faz presente como ação secundária para inseri-lo naquele ambiente em que é um observador dos fatos.

O quadro com temática religiosa funciona como alegoria para criticar a ação e os conflitos a sua volta. A região de Flandres que abrange atualmente parte da Bélgica e da Holanda estava sob o domínio dos espanhóis. Os invasores subjugavam a classe camponesa em cenários áridos sob o céu constantemente nublado.  Os corvos sobrevoam todos os cenários externos e, mesmo pelas frestas das janelas, podem ser vistos e ouvidos no seu canto fúnebre como símbolos de mal agouro e arautos do mundo dos mortos.

Bruegel descreve o quadro que deverá ter uma centena de personagens “Minha pintura terá que contar muitas histórias… trabalharei como a aranha que esta manhã vi tecer sua teia”. Vários temas alinhavados pelo Poder e Religião. Mulheres enterradas vivas, homens perseguidos e agredidos para depois serem deixados à mercê dos corvos imprimia morbidez às suas pinturas. A intolerância religiosa se faz presente e justifica a perseguição e morte. O reformista em busca de mudanças é tido como criminoso contra o Estado e a Igreja. Da mesma forma que o Cristo da antiguidade deve ser crucificado. O homem que teme a Deus teme morrer e ir para o Inferno – se torna mais fácil de controlar pelos governantes. A presença ostensiva dos cavaleiros do Rei de Espanha como Cavaleiros do Apocalipse lembrava a todos da danação, primeiro na terra e depois no inferno.

A paisagem pastoril com o Moinho no alto representa o Gólgota. A Paixão de Cristo é revisitada pelo vermelho da farda espanhola  que se confunde com o sangue do camponês. Não poderia ser diferente – no quadro de Bruegel – o céu se fecha no momento em que Jesus é crucificado.

Fotografia, iluminação, direção de arte e figurinos caprichados são utilizados para transpor uma tela para tridimensionalidade do cinema. O Moinho e a Cruz pode ser descrito, literalmente, como filme de arte.

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09
abr
13

DVD: Hasta a Vista – Venha Como Você É, Geoffrey Enthoven (2011)

Charles Antunes Leite

1006848_nl_hasta_la_vista_1316520301937Três rapazes na faixa dos 20 anos empreendem uma viagem para perder a virgindade num bordel. Eles estão eufóricos, com hormônios a flor da pele, são maliciosos e vivem pensando “naquilo” – semelhança com Porky’s (1982)? Os rapazes em questão: um deficiente visual, um cadeirante e um tetraplégico.

Os protagonistas de Hasta la Vista são belgas e planejam uma excursão até El Cielo, Club Selecta em Punta Del Mar, Espanha. Os europeus são limitados fisicamente, porém muito inteligentes, enquanto os rapazes de Porky’s são saudáveis fisicamente – não se pode dizer o mesmo intelectualmente. Os americanos se deslocam em poucas horas até o inferninho interiorano enquanto os europeus ainda tem o fator complicador da distância para chegar ao luxuoso clube privé. Serão mais de dez dias dentro de uma van adaptada rumo ao Clube Selecta onde belas garotas dispensam tratamento VIP a rapazes especiais.

O tetraplégico Philip (Robrecht Vanden Thoren) convida o cadeirante Lars (Gilles de Schrijver) e o deficiente visual Jozef (Tom Audenaert) para uma viagem. Eles comunicam aos pais que querem se sentir independentes. Para isso, precisam viajar sem a companhia deles – serão acompanhados por um enfermeiro que também será o motorista. Divulgam um roteiro falso em que percorerrão vinhedos da França e da Espanha, visto que os três são apreciadores de vinhos.

Terão, inicialmente, que vencer as restrições impostas pelos pais e pelas próprias limitações, o que torna a aventura muito mais emocionante e arriscada. Quando os pais concordam e tudo já está acertado,  Lars é informado, depois de uma consulta médica, que o tumor progrediu (é revelado que a paralisia é devido a um tipo de câncer) seu estado merece cuidados especiais e não poderá viajar.

Depois de discutirem a possibilidade da viagem sem ele, decidem que só irão se forem todos. Lars assume os riscos porque afinal está com pouco tempo de vida e quer perder a virgindade antes de morrer. Seguem com o plano à revelia dos pais. Lars tem na irmã caçula (antes antagonista) uma aliada que devido a  perda iminente do irmão propõe ajudá-lo na viagem furtiva – ela o acoberta para que saia na surdina.

O motorista da van que haviam alugado diz que não irá sem autorização dos pais, mas indica Claude (Isabelle de Hertog) que descobrem se tratar de um mulher gorda e de aspecto masculinizado. Ela sofre bullying e é destratada por eles, o que torna a convivência mais difícil.
mystique
Entre discussões e desentendimentos seguem em busca do sonho. Aprendem sobre si mesmos, a aceitar limitações e procurar viver de forma mais independente. Num momento em que deixam as diferenças de lado – desfrutam do prazer de viajar cantarolando a música Et Si Tu N’existais Pas do Joe Dassin que toca no rádio do carro. O tema é tratado de forma leve e positiva, mostra que mesmo com as limitações físicas eles podem fazer quase tudo que as outras pessoas fazem.

O cinema tem mostrado uma nova postura no tratamento das deficiências. Eles não precisam ser tratados como coitadinhos. No filme francês Intocáveis (2011) um milionário cadeirante contrata auxiliar para acompanhá-lo e dessa forma recuperar quase toda a rotina antes do acidente.  Colegas (2012) do brasileiro Marcelo Galvão narra a jornada de três portadores de síndrome de down num conversível em busca de seus sonhos: ver o mar, casar e voar – bem mais inocente que as intenções dos belgas.

23
jul
09

DVD: Batman, o Cavaleiro das Trevas, Christopher Nolan (2008)

Charles Antunes

Em Batman – o Cavaleiro das Trevas, Christian Bale interpreta o bilionário Bruce Wayne, que durante o dia é um empresário e à noite combate o crime como o vigilante Batman. O homem morcego enfrenta o Coringa (Heath Ledger), que está a serviço do crime organizado. Batman tem o apoio do tenente James Gordon (Gary Oldman) e do promotor Harvey Dent (Aaron Eckhart). O filme traz ainda Morgan Freeman e Michael Caine.

Batman – O Cavaleiro das Trevas, possui mais ritmo e ação que o anterior Batman Begins (2005), no qual o mesmo diretor Christopher Nolan conduz um prólogo para esse. No primeiro filme da nova série sobre o “detetive” mascarado, Nolan procurou explicar a origem do homem morcego, treinamento e criação dos equipamentos utilizados por ele.

O principal vilão do Cavaleiro das Trevas é o Coringa. O personagem já havia sido interpretado por César Romero, que fez dele um bufão, na série televisiva, e aquele interpretado por Jack Nicholson, tão bom a ponto de roubar a cena em Batman (Tim Burton), em 1989.

A tetralogia rodada por Burton e Joel Schumacher, além de contar com atores mais populares, tinha seus atrativos como figurinos e a fotografia, mas os roteiros não eram tão bons.

Para personificar o Coringa, Heath Ledger esteve enclausurado por um mês num hotel, e evitou se influenciar pelas interpretações anteriores do bandido de largo sorriso, para construir seu Coringa. Ele desenvolveu até mesmo a salivação característica de quem tem a boca ferida. Heath Ledger/ Coringa fez o personagem das “HQs”, principalmente A Piada Mortal, sair das páginas e ganhar vida. Ele é assustador, mordaz, sarcástico. O Coringa conta como teve seu rosto deformado, e cada vez inventa uma nova versão. Ele é psicopata, e por isso, a sua forma de agir não tem explicação ou lógica.

O ator fez uma leitura do psicótico vilão na fronteira entre o cômico e o insano e foi merecido o “Oscar” póstumo. Ledger fora indicado em 2005 pela atuação em O Segredo de Brokeback Mountain.

Os fãs do herói mascarado aguardam o terceiro filme, no entanto, o diretor Christopher Nolan não pensa em rodá-lo, por sentir a perda de Ledger e também por não ter um bom roteiro.

Os fãs, com ou sem Nolan,acreditam no potencial de uma nova história com outro conhecido vilão do universo de Batman – o Charada. O público torce para que o personagem anteriormente interpretado por Jim Carey, seja de Johnny Depp (Sweeney Todd e Edward Scissorhands). Enquanto isso não ocorre, Batman – o Cavaleiro das Trevas pode ser considerado o melhor filme sobre o herói até agora.

DVD: Batman – O Cavaleiro das Trevas, EUA, 2008
Título Original: The Dark Knight
Direção: Christopher Nolan
Duração: 142 min
Distribuidora: Warner Bros.

20
jul
09

DVD: Encontro com Milton Santos ou o Mundo Globalizado Visto do Lado de Cá, Sílvio Tendler (Brasil 2006)

Charles Antunes

No documentário Encontro com Milton Santos, o cineasta Sílvio Tendler,  intercala depoimentos do geógrafo e intelectual de reconhecimento internacional, Milton Santos (1926-2001) com registros sobre os contrastes geográficos, e sócioeconômicos do Brasil e de países subdesenvolvidos afetados com as disparidades da Globalização.

O filme apresenta o povo argentino indignado nas ruas, ao perder suas economias devido às medidas de um plano econômico, tal qual aconteceu no Brasil quando o presidente Collor em nome de frear a inflação confiscou os ativos em banco da população. A exploração do trabalho por grandes corporações estrangeiras na Ásia, a visita de grupo de favelados a um shopping center sob a vigilância da polícia e olhar curioso dos frequentadores da classe média, o dia-a-dia do MST pela visão de uma cineasta, ou seja, muita coisa acontece dentro desse movimento e pouco chega a conhecimento do público. Em outra passagem a chegada da Internet a uma aldeia indígena e um documentarista que cobre o cotidiano da Ceilândia, entre outros.

A Globalização esconde interesses exclusos de seus governantes, os países pobres são arrendados, poucos vão continuar ganhando, enquanto bilhões continuaram na miséria. Imagine, chegar a ponto de privatizar a distribuição de água, que tem como premissa ser o elemento essencial à vida. Existem lugares no globo onde a população tem acesso água imprópria para o consumo, o que ocasiona sérios problemas de saúde; e em outros não tem acesso ao líquido tão precioso e necessário para a sobrevivência.

Somam-se a água, o desmatamento, extração desenfreada de riquezas minerais que saem do solo dessas nações e a exploração da mão-de-obra operária, e em alguns países da Ásia até crianças trabalham em condições beirando a escravidão em nome da produtividade e hegemonia de determinada marca esportiva.

Devemos considerar a existência de… “Três mundos num só: O mundo no qual nos fazem crer, a globalização como saída evolutiva e benéfica para todos; o mundo tal como ele é, a globalização como perversidade, e o mundo como ele pode ser, uma outra globalização”.

O mundo hoje está sob o domínio de seis países e pouco mais de uma dezena de empresas detém o poder econômico e político no globo. Com a tecnologia alcançada, hoje em dia teríamos ferramentas para realmente fazer uma verdadeira e justa globalização, nas palavras de Santos.

Hoje, a Internet democratizou o acesso às informações e os meios de comunicação de massa, apesar de manipularem-nas muito bem, não podem controlar o pensamento coletivo. Por algum tempo, podem até direcionar ideologicamente a audiência, mas não podem enganar as pessoas o tempo todo.

São nuances nunca vistas juntas, fazendo desse documentário narrado por atores consagrados pelo público e crítica, um panorama com  abordagem geopolítica, sociológica, antropológica e ideológica do que estão fazendo ao rifar o planeta. Um registro histórico da forma de pensar o mundo sem fronteiras e com tantas barreiras a serem quebradas.

DVD: Encontro com Milton Santos ou o Mundo Globalizado Visto do Lado de Cá, Brasil, 2006
Direção: Sílvio Tendler
Duração: 89 min
Distribuidora: Caliban Produções Cinematográficas

18
jul
09

DVD: Super Size Me – A Dieta do Palhaço (2004)

Charles Antunes Leite

A obesidade é um dos fatores que mais contribuem para a mortalidade dos norte-americanos. Ao contrário do câncer de pulmão, é um mal possível de ser evitado.

Os fast foods fazem parte do cotidiano dos EUA. Suas ruas estão repletas destes templos da baixa gastronomia, servindo milhões de refeições altamente calóricas, carregadas de açúcar e gordura, que contribuem para o aumento do colesterol, obesidade e diabetes.

A rede de lanchonetes McDonald’s é detentora da maior parte do segmento nos EUA, e vem ao longo dos anos se expandindo pelo mundo.

Depois que muitas pessoas processaram a cadeia de lanchonetes, Morgan Spurlock resolveu produzir o documentário Super Size Me – A Dieta do Palhaço, para demonstrar que o consumo exagerado dos alimentos servidos em fast foods seria danoso à saúde. Ele seria a “cobaia” da Dieta do Palhaço por 30 dias, alimentando-se exclusivamente dos itens da referida lanchonete.

Antes de começar sua experiência, Morgan passou por um rigoroso exame médico e contou com o acompanhamento de um Clínico Geral, Endocrinologista, Nutricionista e um Fisiologista – para seguir o cronograma com “segurança”. As câmeras acompanharam a rotina de Spurlock por diversos lanchonetes da rede.

O filme traz informações acerca dos alimentos servidos na famosa cadeia de restaurantes, que não mostram o valor nutricional dos pratos. O documentário aponta também o tamanho, peso e quantidade das porções servidas, e que, se revelam absurdas, além do recomendado para suprir a necessidade calórica da maioria das pessoas.

Cada refeição do documentarista é vista como uma tortura. Inicialmente ele se esforça para engolir os sanduíches, imposição para cumprir sua meta. Ao longo dos dias isso passa a ser automático e até viciante. Ele necessita daqueles alimentos para se sentir bem, qual uma droga que proporciona bem-estar.

Seu corpo sofre desgaste pela dieta e seu peso aumenta significativamente no decorrer do mês, ao passo que sua saúde também se compromete – os médicos o alertam para interromper a dieta, caso contrário provocará danos irreversíveis, principalmente ao seu fígado. Ele prossegue assim mesmo.

Algumas cenas são caricatas, como a tentativa de comer o maior lanche fornecido. Ele vomita pela janela do carro.

Ao término de Super Size Me fica a pergunta – os espectadores continuarão a degustar com o mesmo prazer um Big Mac?

DVD: Super Size Me – A Dieta do Palhaço, EUA, 2004
Título Original: Super Size Me
Direção: Morgan Spurlock
Duração: 95 min
Distribuidora: Imagem Filmes

18
jul
09

DVD: Obrigado por Fumar, Jason Reitman (2005)

Charles Antunes Leite

O cinema sempre utilizou o cigarro como forma de glamour para apresentar a sensualidade dos astros e estrelas de cinema, principalmente nas décadas de 40, 50 e 60. No entanto, fumar nos últimos 20 anos tornou-se quase que uma contravenção. Foi se formando um cerco à nicotina – cigarro vem atrelado à figura de pessoas más, bandidos, delinquentes… Fumar, agora, é politicamente incorreto. Pessoas que fumam são preteridas para empregos, até mesmo ambientes públicos aboliram as áreas reservadas aos fumantes, para que estes se enquadrem ao novo padrão socialmente aceito.

Vários filmes colocaram o cigarro como “leitmotiv” para contar suas histórias: Cortina de Fumaça   e  Sem Fôlego (Wayne Wang e Paul Auster, 1995), retratam a rotina de uma tabacaria e seus frequentadores que encaram o estabelecimento como templo dedicado ao tabagismo e suas convicções em relação ao vício.

No filme Sobre Café e Cigarros (Jim Jarmush, 2003) no qual personalidades do cinema independente se encontram em volta de uma mesa e discorrem sobre o prazer da dobradinha café e cigarro em meio a diálogos inverossímeis; Nicotina (Hugo Rodriguez, 2003), filme que narra uma ação criminosa mal sucedida em que a nicotina é apresentada como antídoto para aliviar a tensão, descarregar a frustração ou anestésico para conter a dor.

Obrigado Por Fumar teve o roteiro baseado no livro de Christopher Buckley e narra a história de Nick Naylor (Aaron Eckhart, indicado ao Globo de Ouro melhor ator) é um homem de meia idade, atraente e carismático, com pleno domínio da retórica, capaz de argumentar e convencer as pessoas para que façam o que for de seu interesse. Justamente por isso, seu trabalho não é nada convencional – espécie de relações públicas, “lobista”, pago pela Academia de Estudos do Tabaco (órgão financiado pela Indústria Tabagista) para defender, mascarar, suavizar os danos provenientes dos cigarros perante a opinião pública.

Ele circula com desenvoltura pelos meios de comunicação, fazendo uso deles para defender os interesses de seus empregadores. Nick é amoral, faz o que seu trabalho exige – “todo mundo tem uma hipoteca para pagar”. Rodeado por câmeras e microfones, tem o “palco” para suas atuações, dar vazão às estratégias para reverter a posição da Indústria de Cigarros perante a opinião pública, de vilões para vítimas de perseguição. Seu discurso é tão bem construído, com argumentos irrefutáveis que, em momento algum precisa omitir que o cigarro não faz mal; ele incita as pessoas a experimentarem para fazer sua escolha, o que cada um deve fazer sozinho.

Naylor se encontra semanalmente com outros defensores de interesses politicamente incorretos, o Esquadrão dos Mercadores da Morte, que defendem os fabricantes de armas e bebidas, além dele que defende o fumo. Os integrantes do grupo tratam as perdas provenientes dos produtos defendidos por eles, com distanciamento e se eximem de culpa, afinal existem várias outras coisas que matam muito mais que aquelas produzidas por seus patrões.

Divorciado, no pouco tempo que passa com o filho Joey (Cameron Bright), ele tenta estreitar os laços entre os dois e reverter a imagem que a mídia faz dele e, ao mesmo tempo, ensinar ao garoto o poder da argumentação, o que será útil para seu desempenho na escola e na vida.

A tônica do filme está na primeira cena em que o protagonista, Nick Naylor, tem entre seus predicados a autoconfiança no seu poder de argumentação e persuasão – “sou pago pra falar”, “sabe aquele cara que consegue a garota que quiser, sou eu”, o que deixa bem claro para o espectador que aquele homem na sua frente  faz o seu trabalho porque deve ser feito e se não o fizer outro o fará, só que não tão bem quanto ele.

Nick vai para um debate na TV, onde será bombardeado com acusações – afinal ele defende o lado dos vilões (indústria tabagista), e não aguarda ser inquirido, mas parte em ofensiva não dando chances para seus antagonistas, promete promover campanha conscientizando o público dos malefícios do fumo, reverte sua imagem e sai do programa vitorioso.

A caça às bruxas empreendida pela opinião pública contra o fumo e o fim da publicidade de cigarros exigem que a Indústria do Tabaco parta para ofensiva, primeiro subornando Lorne Lercher, o garoto propaganda dos cigarros Marlboro, que está com câncer e ameaça revelar o caso para a Imprensa; e depois tentar reimplantar o glamour dos cigarros nas telas do cinema.

Ocorre o embate entre a indústria tabagista e a política mediado pela grande mídia, Naylor tem um envolvimento com a jornalista Heather Holloway (Katie Holmes), o que poderá custar-lhe caro; o Senado, não podendo vencê-lo, tenta matá-lo com seu próprio veneno, Nick no entanto sobrevive e ainda sai como herói do incidente. Os mesmos meios que o protagonista usa a seu favor, num descuido poderão derrubá-lo.

Ótimo roteiro e direção de Jason Reitman em sua estréia e grandes atuações do veterano Robert Duvall (Um Dia de Fúria, Colors) como empresário da indústria tabagista; Aaron Eckhart (Dália Negra) empresta seu charme e carisma a Nick Naylor; William H. Macy (Magnólia, Seabiscuit) interpreta o senador Finistirre e Katie Holmes (Dawnson’s Creek, Batman Begins) no papel da jornalista capaz de tudo por uma reportagem. Ainda marcam presença no filme Rob Lowe, Sam Elliott, Adam Brody. O elenco é um motivo a mais para assistir essa comédia politicamente incorreta do cinema independente americano.

DVD: Obrigado por Fumar, EUA, 2005
Título Original: Thank You For Smoking

Direção: Jason Reitman
Duração: 92 min
Distribuidora: Fox Home Entertainment




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