Archive for the 'Música' Category

11
jan
16

Adeus, Bowie!

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David Bowie nascido David Robert Jones em 1947, em Brixton, Londres (UK) desenvolveu a aptidão para música ainda na pré-escola. Ele ficava fascinado pelos discos do pai: Little Richard, Elvis Presley entre outros. Durante a juventude aprende a tocar diversos instrumentos, se aprofunda na pesquisa de novos sons e a desenvolver a figura de performer que anos mais tarde aperfeiçoaria.

O nome artístico veio da insatisfação de ser confundido com Davy Jones dos Monkees. Ele adota o sobrenome Bowie (facas Bowie). Outra marca característica do artista são os olhos de cores diferentes adquirida aos 15 anos de idade – devido a um soco desferido pelo “amigo” (sic) George Underwood – a pupila esquerda se mantém constantemente dilatada daí a diferença de coloração.
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Bowie adotou vários heterônimos (Major Tom, Ziggy Stardust, Aladdin Sane, Thin White Duke etc) como Fernando Pessoa; foi revolucionário para o Pop Rock como Miles Davis para o Jazz. David Bowie era um artista de muitos talentos: cantor, compositor, produtor, multi-instrumentista, ator – como não se lembrar dele em filmes como o drama de guerra Furyo – Em Nome da Honra (1983), o vampiro John de Fome de Viver (1983) ou Jareth, o rei dos duendes de Labirinto (1986). Da mesma forma que a imagem, a música de Bowie também se diferenciava de um disco para outro. Na discografia podemos destacar trabalhos de inegável valor como Hunky Dory (1971),The Rise and Fall of Ziggy Stardust and Spiders From Mars (1972), Aladdin Sane (1973), Diamond Dogs (1974), Young Americans (1975), Low e Heroes(1977), Lodger (1979) e Scary Monsters (1980) . O “Camaleão” em constante mutação e à frente de seu tempo anunciava tendências e influenciava músicos, atores, estilistas, o mais variado leque de artistas das mais variadas áreas.

Um grande artista que esteve sempre se reinventando e para isso se juntava aos seus pares: revitalizou a carreira de Iggy Pop compondo com ele e produzindo os discos (The Idiot e Lust for Life, ambos de 1977); também produziu Lou Reed no clássico álbum Transformer (1972); parceiro de John Lennon na música “Fame” (Young Americans, 1975) e Queen ”Under Pressure” (Hot Space,1982); regravou a canção “Dancing in the Streets” em dueto com Mick Jagger em 1985.

David Bowie em Sao Paulo (1990)

David Bowie em São Paulo (1990)

Assisti ao show de um Bowie na meia-idade na Sound + Vision Tour em 1990, no Palestra Itália (atual Allianz Parque), mas infelizmente não fui à exposição no MIS em 2014 por falta de tempo e disposição para enfrentar filas quilométricas.

the next dayDavid Bowie se retirou dos holofotes após a Reality Tour em 2004. Ele ensaiou um retorno em 2013 surpreendendo fãs e crítica com um clipe que anunciava novo álbum de inéditas The Next Day – mesmo não se equiparando aos trabalhos anteriores a 1980, pode ser considerado muito acima da média de discos posteriores dele ou de outros artistas contemporâneos. Bowie morre três dias após completar 69 anos e de lançar seu vigésimo oitavo álbum “Blackstar”.

David Bowie saiu de cena de surpresa como sempre o fez ao apresentar suas mutações aos fãs. O “Camaleão” se junta ao panteão dos grandes nomes da música que deixaram esse plano; deixa um legado artístico para a eternidade.

Por Charles Antunes Leite

 

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18
mar
15

Coleção Folha Soul & Blues (2015)

Por Charles Antunes Leite

Primeiro volume da coleção

Primeiro volume da coleção

O Blues e o Soul são dois gêneros da música norte-americana que podem ser considerados os pais do rock. Desde os precursores como Chuck Berry, Little Richard, Elvis Presley passando por Eric Clapton, Beatles, Rolling Stones, The Who, Jimi Hendrix, Janis Joplin, The Doors – todos tiveram como influência decisiva nas suas carreiras os artistas do blues e do soul.

O Soul e, principalmente o Blues, fizeram a cabeça, primeiramente do outro lado do Atlântico, dos jovens ingleses que começaram a apreciar a música negra americana, antes mesmo dos jovens americanos. A “British Invasion” pode exemplificar tal fenômeno em que artistas ingleses em suas excursões pela terra do Tio Sam devolviam aos jovens ianques a música deles repaginada e incutiam o interesse pela busca dessas raízes musicais.

Disco de Howlin Wolf gravado em Londres com a participação de seus fãs ilustres.

Disco de Howlin Wolf gravado em Londres com a participação de seus fãs ilustres (não faz parte da coleção).

Na década de 1980, uma ramificação do que veio a ser conhecido como New Wave, revelou artistas cuja principal influência musical era o Soul: Prince, Simply Red, Sade, Style Council, Fine Young Cannibals. Os anos 1990 continuaram a revelar artistas influenciados pelo soul e blues como Lisa Stansfield, Des’ree, Jamiroquai, Lenny Kravitz. Nos anos 2000 surgiram: Adele, Amy Winehouse, Corinne Bailey Rae, Aloe Blacc, Raphael Saadiq, Joss Stone, Mayer Hawthorne, Gary Clark Jr. Entre muitos outros.

A Coleção Folha Soul & Blues pretende resgatar artistas tão influentes e atemporais dessas duas correntes musicais que poderá agradar aos neófitos e também aos habituais apreciadores dos dois gêneros.

A coleção oferece um panorama da música negra produzida no século XX. O repertório dos CDs foi extraído dos lendários selos fonográficos e gravadoras Stax e Motown (Soul) e Chess e Alligator (Blues) com as principais canções de cada artista. Cada livro traz textos explicativos da obra, principais gravações, curiosidades sobre os artistas, além de indicações de livros e filmes para aprofundar nos estilos musicais em questão.

Nomes de suma importância para os dois gêneros, por não pertencerem ao cast das gravadoras citadas, ficaram de fora da coleção: Sam Cooke, Aretha Franklin, Al Green, Booker T and the MGs, Ray Charles, Lightnin’ Hopkins, Willie Dixon, Pinetop Perkins, Stevie Ray Vaughan.

São 30 livros de capa dura com 44 páginas em papel couché acompanhados respectivamente por um CD. À venda nas bancas a partir de 15 de março. Abaixo a relação dos fascículos:

Soul

  1. Stevie Wonder
  2. Marvin Gaye
  3. James Brown
  4. Ike & Tina Turner
  5. Jackson 5
  6. Diana Ross & The Supremes
  7. Barry White
  8. Curtis Mayfield
  9. The Commodores
  10. Otis Redding
  11. Gladys Knight & The Pips
  12. Isaac Hayes
  13. The Temptations
  14. Etta James
  15. Smokey Robinson

Blues

  1. B.B. King
  2. Muddy Waters
  3. Buddy Guy
  4. John Lee Hooker
  5. Robert Cray
  6. Howlin’ Wolf
  7. Fats Domino
  8. Robert Johnson
  9. Koko Taylor
  10. Johnny Winter
  11. Albert Collins
  12. Magic Slim
  13. Bessie Smith
  14. James Cotton
  15. Shemekia Copeland

 

26
jan
15

30 Anos dos Paralamas do Sucesso

Charles Antunes Leite

Janeiro de 1985, no Rio de Janeiro ocorre o primeiro mega festival de rock no Brasil: o Rock in Rio. O evento serviu como vitrine para que artistas internacionais passassem a incluir o país em suas agendas de shows. Dentre os artistas brasileiros que se apresentaram no festival Os Paralamas do Sucesso obtiveram o melhor retorno por parte do público e o respaldo para que pudessem construir uma carreira longeva e repleta de êxitos. Nesses 30 anos, o rock brasileiro mudou muito e se profissionalizou. Os Paralamas abriram caminho para artistas como Legião Urbana, Capital Inicial, Plebe Rude entre outros. Nas décadas seguintes continuaram a influenciar novos artistas como Skank e Jota Quest. 10262083_618345584918170_5221057940088318933_nVoltando a 1983, Os Paralamas estão procurando sua identidade em Cinema Mudo. Nesse primeiro trabalho, apesar da inexperiência e crueza como instrumentistas, eles foram comparados aos ingleses do Police. Músicas com frescor juvenil como Vital e Sua Moto, Cinema Mudo, Patrulha Noturna e Química composta por “um certo” Renato Russo que depois seria apresentado à gravadora EMI por Herbert Vianna já mostravam o caminho a ser seguido.passo do luiO Passo do Lui (1984) flerta com a música jamaicana, principalmente, na faixa instrumental que intitula o disco e em Ska (o título já diz tudo) na levada do ritmo de mesmo nome. O coro de mais de 100 mil vozes cantou Óculos, música que enalteciam a turma dos “quatro olhos”, na primeira edição do Rock in Rio em 1985. Os óculos deixaram de ser excludentes, rapazes míopes tinham em Herbert inspiração – agora também poderiam ter a sua chance com as garotas e também na vida.  O Passo do Lui era uma coleção de sucessos radiofônicos entre eles Meu Erro, Romance Ideal e Me Liga (oito das dez canções tocaram nas Rádios).

imagem: Jorge Marinho

imagem: Jorge Marinho

Com a chegada da Nova República, os Paralamas passaram para um discurso crítico e social, respeito pelos valores brasileiros associados à realidade musical e social jamaicana, além dos ritmos afro-latinos. selvagemSelvagem? (1986) pode ser considerado o trabalho mais maduro e inovador na discografia deles. O álbum selou a paz entre fãs e críticos. A faixa tema Selvagem é robusta na cozinha de Bi e João e o riff da guitarra de Herbert é cortante como seu discurso contra o poder bélico da policia e do governo num momento de transição política. A letra gaiata do Melô do Marinheiro narra aventuras de um clandestino que quer conhecer o mundo de navio e se dá mal. O vídeo clipe de Alagados colocou a banda pop em meio ao povão.  A Novidade, parceria com Gilberto Gil, bebe na fonte do reggae.

Se em Selvagem eles haviam quebrado paradigmas com fusão do rock com ritmos regionais e reggae, em Bora Bora (1988) expandiram a experimentação. O disco se divide em canções quentes e temperadas como praias caribenhas e canções intimistas e passionais para serem ouvidas em apartamentos escuros – eco do final do relacionamento amoroso com Paula Toller. Destaques para O Beco com seu instrumental acrescido de metais; Uns Dias; a confessional Quase Um Segundo; Dois Elefantes. A sonoridade afro-caribenha reforçada pelo naipe de metais e o tecladista João Fera, integrado na turnê de Selvagem e presente desde o álbum D gravado ao vivo no Festival de Montreux (1987), contribuiu para que os Paralamas pudessem explorar novos sons e enriquecessem os arranjos de antigas canções.

Big Bang (1989) eles acrescentaram ritmos brasileiros aos ritmos pesquisados anteriormente: o samba em Se Você Me Quer; o repente de Rabicho do Cachorro Rabugento e canções paralâmicas como Perplexo, Pólvora e Lanterna dos Afogados. Os Grãos (1991) trazia Tendo a Lua, Carro Velho, Trac Trac (versão de composição de Fito Paez) e Sábado. O esmero da produção e um tom monocromático da capa se refletiam também na economia de ritmos, mas com uso de efeitos eletrônicos.

Severino (1994) foi um disco que não teve a devida aceitação no Brasil sendo o momento de reconhecimento da banda na Argentina. O disco foi produzido na Inglaterra e contou com inúmeros nomes da música internacional, inclusive Brian May do Queen. Dos Margaritas alcançou relativo sucesso no Brasil. Vamo Batê LataVamo Batê Lata (1996) gravado ao vivo trazia um CD bônus com quatro faixas inéditas. Destaque para Uma Brasileira – parceria de Herbert com Carlinhos Brown e enriquecida pelo dueto com Djavan – uma das melhores canções do ano e da carreira da banda; A polêmica Luís Inácio (300 Picaretas) um rap contra a corrupção política com o tempero dos Paralamas.  Ainda em 1996 lançaram um disco de inéditas 9 Luas em que se destacaram: Lourinha Bombril, Capitão da Indústria e La Bella Luna.

Hey Na Na (1998) trazia Ela Disse Adeus cujo clipe sagrou-se vencedor na MTV e o Amor Não Sabe Esperar (dueto com Marisa Monte), além de composições de Charly Garcia e Chico Science.

Fevereiro de 2001: Herbert Vianna, líder e voz dos Paralamas do Sucesso sofre acidente aéreo em que perde a esposa; depois de semanas em coma se vê paraplégico. Para a grande maioria dos fãs, o fim da banda era inevitável, mas a “Música” salvou Herbert – tanto que um ano depois lançaram Um Longo Caminho seguido por outros trabalhos. 30 anos O segredo para a banda se manter na ativa depois de três décadas tem uma resposta compartilhada pelo trio – Eles se consideram uma família. A prova disso é o registro em CD/DVD do show comemorativo de 30 anos realizado no Rio de Janeiro em 2013. São sucessos e músicas emblemáticas (28 no DVD). No telão no fundo do palco são projetadas informações sobre a banda, as músicas e imagens de arquivo. A gravadora cometeu um deslize: Don’t Stand So Close To Me, cover do Police, foi grafada na capa como Don’t Stop So Close to Me – careceu de revisão antes de ir para gráfica.

12
jan
15

Miragem, Os Lobos (1971)

Por Charles Antunes Leite O mês de janeiro é propício para se aventurar na procura por ofertas e promoções. Em tempos de MP3, em que os CDs já não têm tanta procura como outrora, fãs dos disquinhos prateados podem se surpreender com verdadeiros achados nas gôndolas das lojas. Numa grande livraria de São Paulo deparei com um balcão de promoções com preços convidativos, inclusive uma “bacia das almas” com CDs por um Real.  À primeira vista o cidadão desanima pela desordem dos títulos e gêneros, além da descrença de encontrar algo que valha a busca. Aqueles que tiverem tempo e paciência podem garimpar pérolas ou mesmo se arriscar a conhecer novos artistas. No referido lote de disquinhos, pela módica moedinha, havia Independentes, Jovem Guarda, Regional, Instrumental, Brega… Saí da livraria com um pacote contendo: Uakti (Instrumental mineiro), Os Brasas (Jovem Guarda gaúcho), Um duplo com gravações de 78 rotações da Dóris Monteiro, Yo La Tengo e alguns outros títulos à 3,90 (que convenhamos é uma ninharia) e Os Lobos – Miragem. os-lobos-miragemUma das melhores aquisições do pacote foi o grupo niteroiense Os Lobos. A sonoridade deles era calcada em Beatles e Stones, elementos de psicodelia e música brasileira (em alguns momentos lembra Mutantes). Se não fosse pelo selo Discobertas, não veriam a luz do laser. Fanny, o primeiro sucesso deles, ficou de fora do álbum relançado pela Discobertas – não foi liberado pela família de Ed Lincoln, proprietário do selo Savoya. Duas músicas de Raul Seixas interpretadas por eles no VII Festival Internacional da Canção Popular, em 1972, foram acrescentadas. Os Lobos – Miragem (1971): Seu Lobo – vocal e ritmo Lembra a fase Tutti Frutti da Rita Lee; Homem de Neanderthal – autoria de Luiz Carlos Sá remete ao rock rural do autor e também associo a Zé Geraldo e Eduardo Araújo com guitarra rock setentista; Avenida Central – cordas e o vocal sentimental da cantora Cristina; Meu amor por Cristina – melodia num crescendo “pinkfloydiano” fase Atom Heart Mother, ecos do Tim Maia dos primeiros discos nos vocais; YouMutantes no escracho e na melodia; Miragem – a faixa titulo (outra de ) traz a sonoridade da guitarra de Roger Mcguinn (Byrds) e o vocal de Cristina emulando Rita Lee; Santa Teresa – a canção apresenta vocalização que se tornaria marca dos Secos e Molhados, que surgiriam em 1973; Psicodelia e letras bicho grilo estão em Carro Branco e Na sombra da Amendoeira; Ótimas releituras de Let me Sing, Let me Sing e Eu sou eu, Nicuri e o Diabo ambas de Raul Seixas. A banda se separou em meados dos anos 1970. O cantor e compositor Dalto, que fez parte da primeira formação, se tornaria conhecido nacionalmente, em 1985, com o sucesso radiofônico Muito Estranho.

20
dez
14

Meus Discos de 2014

Charles Antunes Leite

Não pretendo com os discos abaixo citados criar uma lista com os melhores do ano. Dentre aqueles que ouvi em 2014 foram os que mais me agradaram e, que sem arrependimentos, pude investir suados reais na certeza de que mereciam ser ouvidos mais de uma vez.

Juçara Marçal – Encarnado

jucara-marcalA sujeira da guitarra e o “noise” em contraponto encarnados pelo discurso a flor da pele e pela voz macia de Juçara. O instrumental característico da geração Lira Paulistana: Itamar Assumpção, Arrigo Barnabé, Thiago Araripe, Grupo Rumo, Jorge Mautner, Eliete Negreiros entre outros ecoam pelo álbum. As harmonias limpas se unem ao instrumental sujo e dissonante. Não é necessário se esgoelar para parecer rock como na “sonic youthiana” Ciranda do Aborto. O disco que se sustenta na guitarra e distorção termina com a suavidade de um sambinha paulista João Carranca.

Johnny Cash – Out Among the Stars

91ZGqKs-0lL__SL1500_Johnny Cash como muitos artistas influentes deixou muito material sem ver a luz do laser. A grata surpresa em perceber já na primeira audição que este não é um mero caça-níqueis.  O filho de Cash encontrou o material durante o processo de catalogação da obra do pai. Out Among the Stars compila material não utilizado nas sessões de gravação de 1981. A faixa título é o anúncio do clima que impera em todo o disco, o ritmo no melhor estilo do Pica Pau e seu fiel cavalo “Pé de Pano”.  Dentre os destaques dois duetos com June Carter Cash e um com outra fera do country Waylon Jennings.  São rocks, baladas e temas com influência gospel reunidos que não perdem em nada para as gravações clássicas do Homem de Preto.

Willie Nelson – Band of Brothers

willieDesde 1996, Nelson não lançava um disco com 100% de material inédito: 14 temas (nove de sua autoria). Band of Brothers (a canção) é uma homenagem àqueles que foram parceiros na carreira de Nelson como Johnny Cash, Waylon Jennings e Kris Kristofferson entre outros. É um grande retorno com uma coleção de baladas límpidas e encorpadas longe da “xaropisse” do neocountry. O disco sereno e próprio para descansar após o dia de trabalho em volta da fogueira com o violão sob a luz das estrelas. Em poucos momentos, ao contrário de Cash, o ritmo é acelerado como nas canções: Crazy Like Me e I’ve Got a Lot of Traveling to Do.

Eric Clapton & Friends – The Breeze: An Appreciation of JJ Cale

 imagesZ9UD6PL4Clapton tem em J.J. Cale uma das suas influências declaradas e teve o prazer de tê-lo como parceiro em 2006 no álbum The Road to Escondido. Cale, morto em 2013, recebe a homenagem de Clapton que conta com a participação de amigos e fãs do compositor: Mark Knopfler, John Mayer, Willie Nelson, Tom Petty, Derek Trucks e Don White em releituras das composições do guitarrista e compositor. Algumas muito boas outras ok. Com poucos momentos aquém da grandiosidade de Cale. Estilos variados resultados também – o que não compromete – no final o saldo é positivo.

St. Vincent – St. Vincent

st vincentAnnie Clark aka St. Vincent (ex-guitarrista do Polyphonic Spree) no seu quarto trabalho solo envereda por caminhos melódicos e vocais semelhantes à Kate Bush e Tori Amos.  No mesmo disco podemos ouvir a pop Prince Johnny; a levada funk  de Prince safra 80’s de Digital Witness; Psycopath lembra a banda do parceiro no disco anterior David Byrne. St. Vincent mescla faixas mais acessíveis com outras situadas no “Art Rock” em que experimenta recursos da sua guitarra amparados pela eletrônica.

Suzanne Vega – Tales from the Realm of the Queen of Pentacles

suzanneSuzanne apresenta músicas inéditas depois de sete anos. O folk com vocal sussurrado acompanhado de violão ganhou a companhia de alguns instrumentos e, em alguns momentos, uma roupagem mais moderna sem descaracterização. A força dos primeiros trabalhos pode ser sentida nas canções que modulam entre o folk econômico e introspectivo e rock, mas sempre com a capacidade de se misturar ao moderno e inusitado: Jacob and the Angel traz nas palmas quase um acompanhamento flamenco. A voz de Vega é um bálsamo para os ouvidos constantemente invadidos pelas vozes das cantoras que acham que gritar é o caminho para se fazer ouvir.

Swans – To The Kind

swansCategorizar o Swans pela música que faz (há décadas) principalmente se analisarmos uma das faixas de To Be Kind que dura mais de meia hora, seria falta de informação ou incongruência, né? O centro nervoso desse trabalho, concebido como álbum duplo em que a música mais curta dura cinco minutos,  é a sequencia Bring The Sun/Toussaint L’Ouvertureo antirrock progressivo, um pesadelo sonoro com batida e vocal xamânico seguido por uma linha de efeitos sonoros tenebrosos. Depois dos 34 minutos de pesadelo, você acorda para beber água e respirar.

Max Richter – Recomposed By Max Richter: Vivaldi the Four Seasons

28947927778_p0_v1_s260x420O compositor, produtor e pianista Max Richter recriou uma das peças com maior número de interpretações gravadas na história da música: As Quatro Estações (1723) de Antonio Vivaldi. Richter desenvolveu junto com a sua formação erudita o gosto pelo punk rock e pela música contemporânea – predileção por Luciano Berio e Steve Reich. Ele toma como base As Quatro Estações de origem barroca e acrescenta elementos modernos. Manteve a dinâmica, suaviza passagens, cria texturas utilizando loops e o inusitado acréscimo de sintetizador Moog na composição. Ele ainda criou alguns bônus inspirados livremente na obra original em que flerta com a música ambiente, o minimalismo e até a boa acepção do termo New Age. O resultado não desagrada ouvintes de mente aberta, principalmente quando o violinista solo é Daniel Hope, um músico conceituado e conhecedor da peça.

Valentina Lisitsa- Chasing Pianos: The Piano Music of Michael Nyman

valentina_lisitsa_-_chasing_pianos_-_michael_nymaA pianista ucraniana conhecida por interpretações de Rachmaninoff e Liszt homenageia o compositor Michael Nyman conhecido por trilhas inspiradas como O Piano que ocupa quase metade da seleção de Chasing Piano. O score minimalisma pode ser apreciado a partir da capa em que faz referência ao cenário da capa da trilha original.

O pianista mineiro Nélson Freire teve três produtos chegando às lojas em 2014 para celebrar seus 70 anos de vida:

imagesBE8SJYBGA colaboração com o regente Riccardo Chailly que já havia sido bem sucedida com a gravação dos concertos de Brahms se repete com o Concerto nº 5 de BeethovenComplete Columbia Album Collection é uma caixa com sete CDs que cobrem o período de 1969/1982; Radio Days – The Concerto Broadcasts 1969/1979 – CD duplo com gravações das transmissões radiofônicas do início da carreira europeia.

Flying Lotus – You’re Dead!

flyingFlying Lotus aka Steven Ellison traz o DNA do clã Coltrane– ele é sobrinho neto da pianista e harpista Alice Coltrane e primo do saxofonista  Ravi Coltrane , o que já são credenciais para se aventurar a ouvi-lo.  Sinceramente, ele não desaponta.  Sua música permeia entre o jazz fusion em Tesla e Cold Dead, pelo rap em Never Catch Me e Dead Man’s Tetris passando pela psicodelia e eletrônica em Siren Song .

Pat Unity Group Metheny – Kin

kinO premiado guitarrista Pat Metheny apresenta o segundo trabalho com seu Unity Group. Ele mostra que aos 60 anos ainda tem muita lenha para queimar. Sua sensibilidade harmônica e facilidade de improvisação o levaram a colaborar com diversos artistas do pop, jazz e música erudita.  Essa versatilidade adquirida ao longo de tantos anos pode ser ouvida em discos como Kin.

Toninho Ferragutti e Neymar Dias – Festa na Roça

festaToninho Ferragutti (acordeon) e Neymar Dias (viola caipira) recriaram temas presentes na memória afetiva interiorana. Clássicos da música sertaneja autêntica ganharam arranjos instrumentais inspiradíssimos, sem mexer na estrutura das canções originais. O caráter bucólico de obras-primas do cancioneiro caipira recebeu uma embalagem condizente em digipack tendo como capa a reprodução Festa na Roça (Óleo sobre tela, 1957) de José Antônio da Silva.

Também dignos de nota:

Thurston Moore – Best Day; Bruce Springsteen-High Hopes; Leonard Cohen– Popular Problems; Vittor Santos & Grupo – Co(n) vivências; Silva – Vista Para o Mar; Dr. John   Ske-Dat-De-Dat…The Spirit Of Satch ; Keith Jarrett/Charlie Haden-Last Dance; Charlie Haden – Jim Hall; Cecilia Bartoli – St. Petersburg; Anna Netrebko-Strauss, R.: Four Last Songs; Ein Heldenleben; Alisa Weilerstein– Solo; Martha Argerich/Claudio Abbado – Mozart Piano Concertos 20 e 25; Martha Argerich/Daniel Barenboim – Piano Duos de Mozart, Schubert e Stravinsky.

27
ago
13

LP: Estação Primeira, Gueto (1987)

Por Charles Antunes Leite

ÁLBUM CLÁSSICO

Na cidade de São Paulo, em meados dos anos 1980, um movimento surgia com jovens em torno da cultura hip hop (música, artes plásticas e dança) que ainda engatinhava por terras brasileiras. No Largo São Bento (região central) “MC’s”, “DJs” e dançarinos de “break” se reuniam para animadas disputas musicais. Thaíde era um desses breakers – ele viria a se tornar um dos expoentes do Rap no Brasil. Nesse cenário surgiu o GUETO com a proposta de unir rock com a sonoridade dos jovens de periferia. O que era um gueto na cultura oitentista, nos anos 2000, foi assimilado por todas as classes socioeconômicas por meio de artistas como Racionais MCs, Marcelo D2, Criolo, Emicida entre outros.

GUETO_~1Estação Primeira (1987) trazia na capa o grupo clicado em meio aos edifícios do centro da cidade – reflexo do estilo cosmopolita da música que estavam produzindo. O som era calcado no rap, funk, rock, samba, soul e demais influências da black music. Outra novidade introduzida na música brasileira seria o uso de “scratchs” – depois incorporados pelo Ira! no Psicoacústica (1988) e pelos Titãs no disco Õ Blésq Blom (1989).

A abertura G-U-E-T-O funciona como um aquecimento em que os “slaps” do baixo de Marcola, bateria e guitarra pesadas, scratchs do DJ Marlboro e a percussão do samba são utilizados para compor esse “prelúdio”. A banda e seus integrantes são apresentados “… nos anos 90 é misturando que a gente inventa”.

A guitarra suingada no estilo Nile Rodgers (Chic) de Márcio, a bateria de Edson X  e o vocal nervoso de Júlio César são acrescidos de um naipe de metais para contar Uma Estória –  roqueira, pesada, mas sem perder o swing. É como percorrer uma imensa estrada sem saber o que vai encontrar pelo caminho.

A climática Esse Homem é Você centrada na cozinha em que o baixo se sobressai junto com o trombone de Raul de Souza até se encontrar com a cuíca de escola de samba para dialogarem entre si. Emoção tem nas frases da guitarra e a cozinha azeitada um típico “funk de breque”.

Borboleta Psicodélica com a participação de Paulo Calazans nos teclados, Geraldo D’Arbilly e Luiz Batera é cantarolável e efusiva sem deixar o groove de lado. Você Errou é mais uma levada em que rock e o funk unem a guitarra e a cozinha trabalhando a favor de uma narrativa musical que remetem ao grupo Skowa e a Máfia, outro artista que bebeu na fonte da black music nos 80’s.

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Estação Primeira
anuncia a criação de uma rádio para difundir a música celebrada pela banda e a cultura hip hop. A canção vem escorada no instrumental do Gueto e outra vez os scratchs do DJ Marlboro e a programação de Dino Vicente incrementam o som. Ensaio Geral promove a descontração e criatividade que surge durante os ensaios, discutem-se os erros e experimenta-se “por que ainda bem que é só ensaio geral”.

A banda lançou três discos em 11 anos, alterou a grafia do nome e trocou de vocalista no derradeiro trabalho. Esse primeiro disco pela coesão, diversidade rítmica e competência de seus integrantes inseriu o nome do GUETO na história do pop rock brasileiro.

Álbum: Estação Primeira, 1987
Artista: Gueto
Gravadora: WEA (Warner)

24
mar
13

The Next Day, David Bowie (2013)

Charles Antunes Leite

the next dayDavid Bowie rompeu o silêncio que sucedeu o último álbum de estúdio Reality (2003) ao anunciar o lançamento de The Next Day no dia em que completou 66 anos. O cantor gravou em Nova Iorque com o produtor Tony Visconti que já havia colaborado em vários de seus discos desde Space Oddity (1969).

Bowie revisitou referências visuais e musicais de vários de seus trabalhos desde a década de 1970, principalmente a fase Berlim. Alusões ao período podem ser percebidas desde a reciclagem da capa de Heroes (1977). O título foi riscado e The Next Day aparece em fonte preta num quadro branco sobre a foto original.

O primeiro clipe Where Are We Now?, dirigido por Tony Oursler, serviu como apresentação dessa volta ao “Berlim sound”: Um boneco siamês tendo um rosto de mulher e o outro do próprio Bowie em cima de uma mesa num cômodo (ou seria a memória?) em meio vários objetos que remetem a estadia do camaleão em Berlim. O rosto do artista é mostrado ao natural, sem maquiagem ou retoques – traços característicos de um sexagenário aparecem no rosto. Num telão, atrás do boneco, cenas da fase berlinense se desenrolam. A letra menciona lugares pelos quais passou. A balada com tom pesaroso e voz quase embargada remete à Buddha Of Suburbia que por sua vez trazia riffs de Space Oddity.

O disco não se propõe a temas tristes: momentos mais alegres como a cantarolável Valentine’s Day ou If You Can See Me em que a estrutura traz bateria drum bass e vocal semelhante ao U2 circa 83 no início e que depois retoma o vocal tradicional de Bowie.

Em I’d Rather Be High a bateria marcial e guitarra hipnótica. Boss of Me traz o diálogo entre bateria e saxofone direcionando à Black Tie White Noise (1993). How Does The Grass Grow?, o teclado soa como Led Zeppelin em In Through the Out Door (1979). The Next Day é vigorosa como nos tempos do Tin Machine – peso e groove – conquista na primeira audição. O mesmo vale para (You Will) Set The World On Fire.

The Stars (Are Out Tonight) remete aos trabalhos da primeira metade dos anos 1980. O vídeo clipe apresenta a atriz Tilda Swinton como esposa do camaleão. Um casal maduro à sombra de um passado de fama e excessos que se veem assombrados por casal de adolescentes rebeldes – ele traz o visual e maneirismos de Bowie nos Golden Years 1974/76.

A cadência do saxofone lembra o grupo Morphine acrescido de guitarra enquanto a letra é praticamente declamada em Dirty Boys. A suntuosidade de arranjos de cordas e coral gospel conduzidos por bateria marcial permeiam You Feel So Lonely You Could Die, enquanto Heat – a derradeira faixa na versão standard do álbum- é climática, pessimista e bela. Aos 66 anos, o camaleão ainda é capaz de surpreender e provar que não se aposentou.

Álbum: The Next Day, 2013
Artista: David Bowie
Gravadora: Sony




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