Posts Tagged ‘Nova República

26
jan
15

30 Anos dos Paralamas do Sucesso

Charles Antunes Leite

Janeiro de 1985, no Rio de Janeiro ocorre o primeiro mega festival de rock no Brasil: o Rock in Rio. O evento serviu como vitrine para que artistas internacionais passassem a incluir o país em suas agendas de shows. Dentre os artistas brasileiros que se apresentaram no festival Os Paralamas do Sucesso obtiveram o melhor retorno por parte do público e o respaldo para que pudessem construir uma carreira longeva e repleta de êxitos. Nesses 30 anos, o rock brasileiro mudou muito e se profissionalizou. Os Paralamas abriram caminho para artistas como Legião Urbana, Capital Inicial, Plebe Rude entre outros. Nas décadas seguintes continuaram a influenciar novos artistas como Skank e Jota Quest. 10262083_618345584918170_5221057940088318933_nVoltando a 1983, Os Paralamas estão procurando sua identidade em Cinema Mudo. Nesse primeiro trabalho, apesar da inexperiência e crueza como instrumentistas, eles foram comparados aos ingleses do Police. Músicas com frescor juvenil como Vital e Sua Moto, Cinema Mudo, Patrulha Noturna e Química composta por “um certo” Renato Russo que depois seria apresentado à gravadora EMI por Herbert Vianna já mostravam o caminho a ser seguido.passo do luiO Passo do Lui (1984) flerta com a música jamaicana, principalmente, na faixa instrumental que intitula o disco e em Ska (o título já diz tudo) na levada do ritmo de mesmo nome. O coro de mais de 100 mil vozes cantou Óculos, música que enalteciam a turma dos “quatro olhos”, na primeira edição do Rock in Rio em 1985. Os óculos deixaram de ser excludentes, rapazes míopes tinham em Herbert inspiração – agora também poderiam ter a sua chance com as garotas e também na vida.  O Passo do Lui era uma coleção de sucessos radiofônicos entre eles Meu Erro, Romance Ideal e Me Liga (oito das dez canções tocaram nas Rádios).

imagem: Jorge Marinho

imagem: Jorge Marinho

Com a chegada da Nova República, os Paralamas passaram para um discurso crítico e social, respeito pelos valores brasileiros associados à realidade musical e social jamaicana, além dos ritmos afro-latinos. selvagemSelvagem? (1986) pode ser considerado o trabalho mais maduro e inovador na discografia deles. O álbum selou a paz entre fãs e críticos. A faixa tema Selvagem é robusta na cozinha de Bi e João e o riff da guitarra de Herbert é cortante como seu discurso contra o poder bélico da policia e do governo num momento de transição política. A letra gaiata do Melô do Marinheiro narra aventuras de um clandestino que quer conhecer o mundo de navio e se dá mal. O vídeo clipe de Alagados colocou a banda pop em meio ao povão.  A Novidade, parceria com Gilberto Gil, bebe na fonte do reggae.

Se em Selvagem eles haviam quebrado paradigmas com fusão do rock com ritmos regionais e reggae, em Bora Bora (1988) expandiram a experimentação. O disco se divide em canções quentes e temperadas como praias caribenhas e canções intimistas e passionais para serem ouvidas em apartamentos escuros – eco do final do relacionamento amoroso com Paula Toller. Destaques para O Beco com seu instrumental acrescido de metais; Uns Dias; a confessional Quase Um Segundo; Dois Elefantes. A sonoridade afro-caribenha reforçada pelo naipe de metais e o tecladista João Fera, integrado na turnê de Selvagem e presente desde o álbum D gravado ao vivo no Festival de Montreux (1987), contribuiu para que os Paralamas pudessem explorar novos sons e enriquecessem os arranjos de antigas canções.

Big Bang (1989) eles acrescentaram ritmos brasileiros aos ritmos pesquisados anteriormente: o samba em Se Você Me Quer; o repente de Rabicho do Cachorro Rabugento e canções paralâmicas como Perplexo, Pólvora e Lanterna dos Afogados. Os Grãos (1991) trazia Tendo a Lua, Carro Velho, Trac Trac (versão de composição de Fito Paez) e Sábado. O esmero da produção e um tom monocromático da capa se refletiam também na economia de ritmos, mas com uso de efeitos eletrônicos.

Severino (1994) foi um disco que não teve a devida aceitação no Brasil sendo o momento de reconhecimento da banda na Argentina. O disco foi produzido na Inglaterra e contou com inúmeros nomes da música internacional, inclusive Brian May do Queen. Dos Margaritas alcançou relativo sucesso no Brasil. Vamo Batê LataVamo Batê Lata (1996) gravado ao vivo trazia um CD bônus com quatro faixas inéditas. Destaque para Uma Brasileira – parceria de Herbert com Carlinhos Brown e enriquecida pelo dueto com Djavan – uma das melhores canções do ano e da carreira da banda; A polêmica Luís Inácio (300 Picaretas) um rap contra a corrupção política com o tempero dos Paralamas.  Ainda em 1996 lançaram um disco de inéditas 9 Luas em que se destacaram: Lourinha Bombril, Capitão da Indústria e La Bella Luna.

Hey Na Na (1998) trazia Ela Disse Adeus cujo clipe sagrou-se vencedor na MTV e o Amor Não Sabe Esperar (dueto com Marisa Monte), além de composições de Charly Garcia e Chico Science.

Fevereiro de 2001: Herbert Vianna, líder e voz dos Paralamas do Sucesso sofre acidente aéreo em que perde a esposa; depois de semanas em coma se vê paraplégico. Para a grande maioria dos fãs, o fim da banda era inevitável, mas a “Música” salvou Herbert – tanto que um ano depois lançaram Um Longo Caminho seguido por outros trabalhos. 30 anos O segredo para a banda se manter na ativa depois de três décadas tem uma resposta compartilhada pelo trio – Eles se consideram uma família. A prova disso é o registro em CD/DVD do show comemorativo de 30 anos realizado no Rio de Janeiro em 2013. São sucessos e músicas emblemáticas (28 no DVD). No telão no fundo do palco são projetadas informações sobre a banda, as músicas e imagens de arquivo. A gravadora cometeu um deslize: Don’t Stand So Close To Me, cover do Police, foi grafada na capa como Don’t Stop So Close to Me – careceu de revisão antes de ir para gráfica.

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26
set
12

Os anos de ouro do Ultraje à Rigor

Charles Antunes Leite

ÁLBUM CLÁSSICO

Em 2012, o Ultraje à Rigor completa 30 anos de carreira. Roger Rocha Moreira, Leospa, Sílvio e Edgard Scandurra já tocavam juntos há alguns anos, até que em 1982 começaram a se apresentar como Ultraje à Rigor. Um ano depois são contratados pela WEA, mas só após dois compactos Inútil/ Mim Quer Tocar (1983) e Eu Me Amo/ Rebelde Sem Causa (1984), finalmente chega às lojas Nós Vamos Invadir Sua Praia (1985). Nessa ocasião, Roger (guitarra e vocal), Leospa (bateria), Carlinhos (guitarra) e Maurício (baixo) já estavam mais do que prontos para invadir as rádios e casas de shows e programas de auditório.

As influências de bandas dos anos 1960 e os estilos surf music, rockabilly e punk se manifestam nas composições, a maioria de autoria de Roger, cheias de humor e apelo rocker do grupo.

A música tema abre o disco e mostra a que veio: na capa o característico logo da banda manuscrito em duas cores e um periscópio com expressão maliciosa vindo à tona. No verso os integrantes da banda são clicados numa praia fake vestidos de guerrilheiros no momento “descansar”, bem à vontade, traçando uma farofinha com direito a coxinha de galinha. Os paulistanos esculhambando o fato de não terem praia em frente de casa como os cariocas.

Vislumbrando tempos menos sombrios com a iminente Nova República, o jovem da classe média não tem motivo para se rebelar em Rebelde Sem Causa; Se o Brasil é o país do futuro, todos querem votar e ganhar dinheiro, sem deixar de lado o provincianismo tropical, impresso na letra de Mim Quer Tocar.

Zoraide invoca o machismo; Ciúme, a insegurança de uma relação aberta; e Eu me Amo é um hino narcisista. Nós Vamos Invadir Sua Praia traz ainda uma regravação oportuna de Inútil, canção que havia saído em compacto – um protesto ansioso pela liberdade de escolha do presidente em eleições diretas – expresso num português “macarrônico” faz todo sentido na composição que se tornou um sucesso.

Marylou é a história de uma galinha… A música foi composta no período em que Edgard Scandurra integrou o Ultraje, sendo co-autor. A marchinha carnavalesca mostrou sua popularidade ao ser relançada como EP, revivendo a magia dos carnavais em meados dos anos 1980. Provando sua popularidade crescente mesmo ainda sem disco lançado, Roger e cia. reuniram fãs num sábado de aleluia para a gravação ao vivo de Independente Futebol Clube, faixa que encerra um dos melhores álbuns (com jeitão de coletânea) de estreia do pop brasileiro.

O segundo disco é sempre encarado como teste se um artista vai ou não triunfar. Durante a gravação do segundo trabalho, Sérgio Serra ocupa a vaga de Carlinhos que se muda para os Estados Unidos. Após a troca de guitarrista, o Ultraje marcou mais um gol na sua carreira ao tratar com leveza e sarcasmo à moda de Picardias Estudantis o tabu que era falar de Sexo! A fórmula continuou funcionando com temas certeiros como: Pelado, Eu Gosto de Mulher e Sexo.

O Ultraje estava em alta a ponto de Roger e Cia. surpreenderem seus fãs com um show num dia e local inesperado para promover o lançamento de Sexo! – nos moldes dos Beatles para Let it Be, em 1969 (estratégia também utilizada pelo U2, em 1988), em cima da marquise do Shopping Top Center, na Avenida Paulista (centro financeiro de São Paulo) na hora do almoço. Eu, na época, trabalhava como office boy e estava nas proximidades dentro de um ônibus parado devido ao trânsito ocasionado pelo show. Desci e fui conferir.

Os dois discos de sucesso consecutivos permitiram ao Ultraje figurar na lista dos maiores grupos de pop rock brasileiro da década de 1980.

01
jun
12

Diário da Corte, Paulo Francis

Charles Antunes Leite

Diário da Corte reúne 76 textos selecionados entre os milhares que foram publicados na coluna de mesmo nome pela Folha de S. Paulo entre 1976 e 1990. A compilação organizada pelo jornalista Nelson de Sá vem acrescida do posfácio do filósofo e articulista Luis Felipe Pondé.

Paulo Francis (1930-1997) alcançou o status de um dos jornalistas mais cultos e o mais bem pago do Brasil. Em 1971, anunciou no Pasquim “Vou escrever sobre porcaria. Uma expressão pornográfica: Roberto Marinho”. Como era muito lido, mesmo assim, anos depois ocupou espaço no jornalismo da emissora do Dr. Roberto Marinho.

No Jornal da Globo, numa coluna de um minuto, que desenvolveu e deixou sua marca indelével tecendo comentários sobre os mais variados assuntos: música, literatura, cinema e, principalmente, teatro onde começou a desenvolver sua veia interpretativa e crítica. Não se ocupava somente com produtos culturais, falava com propriedade sobre relações internacionais, política interna e externa. A política foi o que mais trouxe dor de cabeça para ele e para os veículos em que trabalhou.

A morte de Francis não pode ser atribuída somente a um diagnóstico errado (suposta bursite), mas agravado pela preocupação causada pelo processo movido por alguns diretores da Petrobras acusados de corrupção e terem enviado 50 milhões de dólares para bancos da Suíça. A informação, que carecia de provas, foi divulgada no Programa Manhattan Connection, da Globosat, em 1997.

Paulo Francis, apesar da acidez de seus comentários, era capaz de arrancar sorrisos e a simpatia dos leitores e espectadores. Ele era misógino e não admitia que se levantassem bandeiras da causa gay. A aversão por negros e pobres era notória. Francis se tornou um personagem tão imitado quanto Jânio Quadros, Paulo Maluf, Lula e Sílvio Santos.

A língua ferina disparava contra pilares da sociedade. Muitas vezes, ele o fazia por pura pirraça, provocação, mesmo – toda corte precisa de um bufão. Ele atacava personalidades que poucos teriam a pachorra de ofender. Ultrapassava a crítica e partia para as ofensas. Jacqueline Onassis foi descrita como “prostituta  de alto coturno” e a então esposa do vocalista dos Rolling Stones “… Bianca Jagger (que não se sabe se é homem ou travesti)…” Luciano Pavarotti era um “tenoreco”. Não se dignaria sair de casa para ouvi-lo.

No seu dicionário não existia a palavra intocável, nem mesmo Caio Túlio Costa, o primeiro ombudsman da Folha, saiu ileso – isso porque era colega de redação.

Francis viu defeitos em Annie Hall (1977), considerado um dos melhores filmes de Woody Allen. No entanto, valoriza o talento do cineasta em alguns momentos e acrescentava que Allen tinha Bergman como modelo, mas era apenas Woody Allen.

Num artigo sobre Eugene O’Neill desmereceu a obra de Virginia Woolf, Norman Mailer, e até Gabriel García Márquez – nomes de peso e respeitados pela crítica especializada – em detrimento de Georges Simenon, um autor menos badalado e assumidamente reconhecido como um dos preferidos do colunista. Não contente com isso, comenta em tom de chacota “já irritei bastante gente?” Ele sabia o efeito que teriam tais comentários.

Ele um ranzinza crônico e considerava tudo que a maioria gostava como sofrível e insípido “… o julgamento da maioria está errado sempre”. Pelas suas crônicas se mostrava desiludido e entojado pelas manifestações artísticas de todas as formas que chegavam ao público fosse na literatura, cinema, teatro ou música. Nenhuma peça despertava maior interesse e Francis se via no papel do Artista da Fome de Kafka – deixava de apreciar por que não o aprazia. Ainda esperava pelo manjar que despertasse seu apetite.

Paulo Francis praticou o jornalismo “free style” em que chutes e opiniões substituíam as normas da profissão, principalmente da apuração. Sua crônica se aproximava, algumas vezes, do gênero gonzo. Atravessou o período da Ditadura Militar (1964-1985), reportou a Anistia, em 1979, e acompanhou com olhar privilegiado os primeiros anos da Nova República.

A segunda década do século XXI o deixaria perplexo e em maus lençóis, os processos seriam constantes. No país que diz ter liberdade de expressão (e de imprensa) humoristas temerosos com a vigilância pudica reformulam piadas. Um filme publicitário precisou ser alterado depois de alguns dias de veiculação – uma palavrinha na última frase incomodou algumas pessoas. A mensagem perdeu a graça da mesma forma que o jornalismo com a morte de Paulo Francis.

Título: Diário da Corte
Autor: Paulo Francis
Páginas: 408 páginas
Editora: Três Estrelas




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