Posts Tagged ‘Willie Nelson

20
dez
14

Meus Discos de 2014

Charles Antunes Leite

Não pretendo com os discos abaixo citados criar uma lista com os melhores do ano. Dentre aqueles que ouvi em 2014 foram os que mais me agradaram e, que sem arrependimentos, pude investir suados reais na certeza de que mereciam ser ouvidos mais de uma vez.

Juçara Marçal – Encarnado

jucara-marcalA sujeira da guitarra e o “noise” em contraponto encarnados pelo discurso a flor da pele e pela voz macia de Juçara. O instrumental característico da geração Lira Paulistana: Itamar Assumpção, Arrigo Barnabé, Thiago Araripe, Grupo Rumo, Jorge Mautner, Eliete Negreiros entre outros ecoam pelo álbum. As harmonias limpas se unem ao instrumental sujo e dissonante. Não é necessário se esgoelar para parecer rock como na “sonic youthiana” Ciranda do Aborto. O disco que se sustenta na guitarra e distorção termina com a suavidade de um sambinha paulista João Carranca.

Johnny Cash – Out Among the Stars

91ZGqKs-0lL__SL1500_Johnny Cash como muitos artistas influentes deixou muito material sem ver a luz do laser. A grata surpresa em perceber já na primeira audição que este não é um mero caça-níqueis.  O filho de Cash encontrou o material durante o processo de catalogação da obra do pai. Out Among the Stars compila material não utilizado nas sessões de gravação de 1981. A faixa título é o anúncio do clima que impera em todo o disco, o ritmo no melhor estilo do Pica Pau e seu fiel cavalo “Pé de Pano”.  Dentre os destaques dois duetos com June Carter Cash e um com outra fera do country Waylon Jennings.  São rocks, baladas e temas com influência gospel reunidos que não perdem em nada para as gravações clássicas do Homem de Preto.

Willie Nelson – Band of Brothers

willieDesde 1996, Nelson não lançava um disco com 100% de material inédito: 14 temas (nove de sua autoria). Band of Brothers (a canção) é uma homenagem àqueles que foram parceiros na carreira de Nelson como Johnny Cash, Waylon Jennings e Kris Kristofferson entre outros. É um grande retorno com uma coleção de baladas límpidas e encorpadas longe da “xaropisse” do neocountry. O disco sereno e próprio para descansar após o dia de trabalho em volta da fogueira com o violão sob a luz das estrelas. Em poucos momentos, ao contrário de Cash, o ritmo é acelerado como nas canções: Crazy Like Me e I’ve Got a Lot of Traveling to Do.

Eric Clapton & Friends – The Breeze: An Appreciation of JJ Cale

 imagesZ9UD6PL4Clapton tem em J.J. Cale uma das suas influências declaradas e teve o prazer de tê-lo como parceiro em 2006 no álbum The Road to Escondido. Cale, morto em 2013, recebe a homenagem de Clapton que conta com a participação de amigos e fãs do compositor: Mark Knopfler, John Mayer, Willie Nelson, Tom Petty, Derek Trucks e Don White em releituras das composições do guitarrista e compositor. Algumas muito boas outras ok. Com poucos momentos aquém da grandiosidade de Cale. Estilos variados resultados também – o que não compromete – no final o saldo é positivo.

St. Vincent – St. Vincent

st vincentAnnie Clark aka St. Vincent (ex-guitarrista do Polyphonic Spree) no seu quarto trabalho solo envereda por caminhos melódicos e vocais semelhantes à Kate Bush e Tori Amos.  No mesmo disco podemos ouvir a pop Prince Johnny; a levada funk  de Prince safra 80’s de Digital Witness; Psycopath lembra a banda do parceiro no disco anterior David Byrne. St. Vincent mescla faixas mais acessíveis com outras situadas no “Art Rock” em que experimenta recursos da sua guitarra amparados pela eletrônica.

Suzanne Vega – Tales from the Realm of the Queen of Pentacles

suzanneSuzanne apresenta músicas inéditas depois de sete anos. O folk com vocal sussurrado acompanhado de violão ganhou a companhia de alguns instrumentos e, em alguns momentos, uma roupagem mais moderna sem descaracterização. A força dos primeiros trabalhos pode ser sentida nas canções que modulam entre o folk econômico e introspectivo e rock, mas sempre com a capacidade de se misturar ao moderno e inusitado: Jacob and the Angel traz nas palmas quase um acompanhamento flamenco. A voz de Vega é um bálsamo para os ouvidos constantemente invadidos pelas vozes das cantoras que acham que gritar é o caminho para se fazer ouvir.

Swans – To The Kind

swansCategorizar o Swans pela música que faz (há décadas) principalmente se analisarmos uma das faixas de To Be Kind que dura mais de meia hora, seria falta de informação ou incongruência, né? O centro nervoso desse trabalho, concebido como álbum duplo em que a música mais curta dura cinco minutos,  é a sequencia Bring The Sun/Toussaint L’Ouvertureo antirrock progressivo, um pesadelo sonoro com batida e vocal xamânico seguido por uma linha de efeitos sonoros tenebrosos. Depois dos 34 minutos de pesadelo, você acorda para beber água e respirar.

Max Richter – Recomposed By Max Richter: Vivaldi the Four Seasons

28947927778_p0_v1_s260x420O compositor, produtor e pianista Max Richter recriou uma das peças com maior número de interpretações gravadas na história da música: As Quatro Estações (1723) de Antonio Vivaldi. Richter desenvolveu junto com a sua formação erudita o gosto pelo punk rock e pela música contemporânea – predileção por Luciano Berio e Steve Reich. Ele toma como base As Quatro Estações de origem barroca e acrescenta elementos modernos. Manteve a dinâmica, suaviza passagens, cria texturas utilizando loops e o inusitado acréscimo de sintetizador Moog na composição. Ele ainda criou alguns bônus inspirados livremente na obra original em que flerta com a música ambiente, o minimalismo e até a boa acepção do termo New Age. O resultado não desagrada ouvintes de mente aberta, principalmente quando o violinista solo é Daniel Hope, um músico conceituado e conhecedor da peça.

Valentina Lisitsa- Chasing Pianos: The Piano Music of Michael Nyman

valentina_lisitsa_-_chasing_pianos_-_michael_nymaA pianista ucraniana conhecida por interpretações de Rachmaninoff e Liszt homenageia o compositor Michael Nyman conhecido por trilhas inspiradas como O Piano que ocupa quase metade da seleção de Chasing Piano. O score minimalisma pode ser apreciado a partir da capa em que faz referência ao cenário da capa da trilha original.

O pianista mineiro Nélson Freire teve três produtos chegando às lojas em 2014 para celebrar seus 70 anos de vida:

imagesBE8SJYBGA colaboração com o regente Riccardo Chailly que já havia sido bem sucedida com a gravação dos concertos de Brahms se repete com o Concerto nº 5 de BeethovenComplete Columbia Album Collection é uma caixa com sete CDs que cobrem o período de 1969/1982; Radio Days – The Concerto Broadcasts 1969/1979 – CD duplo com gravações das transmissões radiofônicas do início da carreira europeia.

Flying Lotus – You’re Dead!

flyingFlying Lotus aka Steven Ellison traz o DNA do clã Coltrane– ele é sobrinho neto da pianista e harpista Alice Coltrane e primo do saxofonista  Ravi Coltrane , o que já são credenciais para se aventurar a ouvi-lo.  Sinceramente, ele não desaponta.  Sua música permeia entre o jazz fusion em Tesla e Cold Dead, pelo rap em Never Catch Me e Dead Man’s Tetris passando pela psicodelia e eletrônica em Siren Song .

Pat Unity Group Metheny – Kin

kinO premiado guitarrista Pat Metheny apresenta o segundo trabalho com seu Unity Group. Ele mostra que aos 60 anos ainda tem muita lenha para queimar. Sua sensibilidade harmônica e facilidade de improvisação o levaram a colaborar com diversos artistas do pop, jazz e música erudita.  Essa versatilidade adquirida ao longo de tantos anos pode ser ouvida em discos como Kin.

Toninho Ferragutti e Neymar Dias – Festa na Roça

festaToninho Ferragutti (acordeon) e Neymar Dias (viola caipira) recriaram temas presentes na memória afetiva interiorana. Clássicos da música sertaneja autêntica ganharam arranjos instrumentais inspiradíssimos, sem mexer na estrutura das canções originais. O caráter bucólico de obras-primas do cancioneiro caipira recebeu uma embalagem condizente em digipack tendo como capa a reprodução Festa na Roça (Óleo sobre tela, 1957) de José Antônio da Silva.

Também dignos de nota:

Thurston Moore – Best Day; Bruce Springsteen-High Hopes; Leonard Cohen– Popular Problems; Vittor Santos & Grupo – Co(n) vivências; Silva – Vista Para o Mar; Dr. John   Ske-Dat-De-Dat…The Spirit Of Satch ; Keith Jarrett/Charlie Haden-Last Dance; Charlie Haden – Jim Hall; Cecilia Bartoli – St. Petersburg; Anna Netrebko-Strauss, R.: Four Last Songs; Ein Heldenleben; Alisa Weilerstein– Solo; Martha Argerich/Claudio Abbado – Mozart Piano Concertos 20 e 25; Martha Argerich/Daniel Barenboim – Piano Duos de Mozart, Schubert e Stravinsky.

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12
set
11

Wynton Marsalis & Eric Clapton, Play The Blues – Live From Jazz At Lincoln Center (2011)

Charles Antunes Leite

O trompetista Wynton Marsalis é um dos  músicos mais versáteis na ativa. Divide seu talento entre o jazz e a música erudita e ainda encontra tempo e inspiração para a música popular. Em 2008, ele dividiu o palco com Willie Nelson no show Live From New York City .

Marsalis havia participado, ao lado de vários convidados, do álbum de Eric Clapton em 2010. A colaboração revelou afinidade artística entre o americano e o inglês, tanto que eles se reuniram para duas apresentações, com casa cheia, em Nova Iorque, em abril deste ano. O resultado chega às lojas sob o título: Play The Blues – Live From Jazz At Lincoln Center.

Eric Clapton e Wynton Marsalis são reconhecidos estudiosos de música e exímios instrumentistas. Marsalis é director artístico do Jazz at Lincoln Center e detentor de nove prêmios Grammy. Eric Clapton é um ícone do rock, seja tocando solo, em grupos ou mesmo em projetos com artistas do porte de B.B. King, J.J. Cale e Steve Winwood – na maioria das vezes, o guitarrista inglês alcança o respaldo do público e da crítica.

O repertório ficou por conta de Clapton enquanto Marsalis providenciou os arranjos das canções, várias nuances do blues com acréscimo dos instrumentos da Orquestra do Lincoln Center. A emblemática Layla  não poderia ficar de fora, rearranjada aos moldes de New Orleans, ao lado de temas como Corrine Corrina e Careless Love – só para citar as mais conhecidas. O DVD traz como bônus Stagger Lee interpretada pelo bluesman Taj Mahal, que participou como convidado em duas faixas do set.

A combinação do blues de Clapton com o jazz de Marsalis proporciona uma abordagem renovada das canções originais. Os gêneros que tem raízes na música negra do final do século 19 provam que a música popular de qualidade pode ser reinventada e perpetuada, principalmente, se interpretadas por quem conhece do riscado.

CD and DVD Track Listing

1. Ice Cream
2. Forty-Four
3. Joe Turner’s Blues
4. The Last Time
5. Careless Love
6. Kidman Blues
7. Layla
8. Joliet Bound
9. Just A Closer Walk With Thee – feat. Taj Mahal
10. Corrine, Corrina – feat. Taj Majal

CD/DVD: Play the Blues Live From Jazz at Lincoln Center, 2011
Artista: Wynton Marsalis & Eric Clapton
Gravadora: Warner

23
jul
09

CD: Working on a Dream, Bruce Springsteen (2009)

Charles Antunes Leite

Bruce Springsteen atingiu o estrelato mundial com Born in USA (1984), disco ufanista; The Rising (2002) trabalho conceitual em memória das vítimas do 11/9, cantou a dor e confortou a nação com a esperança por dias melhores; em 2006 lançou o belo tributo a Pete Seeger, We Shall Overcome.

Em Working on a Dream, “The Bossestá mais rock do que nunca. Mesmo nas baladas deixou de lado músicas com violão ou a simplicidade de sua voz rouca em faixas à capela, optando por músicas mais elaboradas instrumentalmente. Nesse disco,  além de compor e cantar, também toca guitarra, teclados, harmônica e glockenspiel.

Para gravar o álbum, Brendan o’Brien, o produtor de grandes bandas de rock (Pearl Jam, AC/DC, Rage Against the Machine), e que vem trabalhando com Springsteen desde The Rising. Os músicos escolhidos,  nada menos que a “vitaminada” E-Street Band, que vem acompanhando Bruce intermitentemente desde os 70’s.

O capricho da produção contou com os arranjos de cordas e sopros a cargo de Edward Horst. A dinâmica do conjunto com teclado, órgão, harmônica e violino possibilita canções poderosas.

O CD abre com Outlaw Pete, a faixa mais longa do álbum com mais de sete minutos e andamento progressivo, antes do final cadencia para crescer novamente. Working on a Dream, a música tema do álbum, lembra  Traveling Wilburys; Tomorrow Never Knows parece On the Road Again (Willie Nelson), mais lenta e lírica. Tem ainda a canção The Wrestler, tema do filme O Lutador, ganhadora do “Globo de Ouro”.

Bruce Springsteen, juntamente com Bob Dylan, Neil Young, Lou Reed, Leonard Cohen e Van Morrison, faz parte de um seleto grupo de senhores que após décadas de carreira, ainda tem algo a dizer em seus discos.

CD: Working on a Dream, 2009
Artista: Bruce Springsteen
Gravadora: Columbia

20
jul
09

DVD: Live From New York City, Willie Nelson Wynton Marsalis (2008)

Charles Antunes Leite

Filmado no Jazz Lincoln Center, o encontro de dois ícones da música americana: Willie Nelson, lenda viva da country music e a tradição da música negra representada pelo versátil trompetista Wynton Marsalis.

Marsalis
sempre esteve dividido entre o jazz e a música erudita, principalmente  barroca. Gravou álbuns díspares como as músicas da trilha sonora dos Peanuts (Snoopy), em Joe’s Cool Blues (1995) ao lado do pai, o pianista Ellis Marsalis, e os irmãos Branford e Delfeayo. Tocou com Art Blakey e gravou tributos aos grandes pioneiros do jazz.

Willie Nelson
, por sua vez, vem empunhando a bandeira da música country americana desde a década de 70. O cantor e compositor se apresentou ao lado de Ray Charles em 1985, e formou com Johnny Cash, Waylon Jennings e Kris Kristofferson o grupo Highwaymen na década de 80.

O DVD traz depoimentos dos dois artistas sobre suas influências, processo de produção e escolhas para o álbum/show. O violão e a voz com sotaque caipira de Nelson juntamente com o competente grupo liderado por Marsalis apresentam grandes temas da música americana.

Em Georgia on my Mind, clássico do repertório de Ray Charles, além do piano e voz da original, é apresentada com trompete e harmônica  em solos generosos. Bright Lights, Big City, piano blues; Caldonia, country blues em que a voz de Nelson dialoga com trompete de Marsalis; em Down by the Riverside, o clima é New Orleans.

Os arranjos com destaque para os metais, principalmente as intervenções de Marsalis, dão nova dinâmica às músicas Basin Street Blues Rainy Day Blues.

A fusão da música negra e branca, utilizando na receita jazz, blues e country desembocam num country blues de responsa. Fica a impressão que a parceria já é antiga, tamanha afinidade e entrosamento entre os dois.

DVD: Live From New York City, EUA, 2008
Artista: Willie Nelson e Wynton Marsalis
Direção: Danny Clinch
Duração: 85 min
Distribuidora: ST2





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