Archive for the 'Arquivo' Category

30
out
15

Sisters of Mercy: 25 anos da primeira turnê brasileira

São Paulo 1990 - Fanbase-produced cover (front)

São Paulo 1990 – Fanbase-produced cover (front)

Imagine a euforia dos fãs brasileiros, em particular esse escriba, quando ouviu pelo rádio numa longínqua tarde de domingo do ano de 1990 que The Sisters of Mercy tocariam no Brasil. A nota foi dada pelo DJ e locutor José Roberto Mahr no seu programa Novas Tendências (popular NT) na 89 FM. A banda incluíra o nosso país na turnê de lançamento do terceiro álbum (até hoje o último disco) intitulado Vision Thing que chegaria às lojas no mês de novembro daquele ano. As datas confirmadas: Discoteca Zoom em Brasília (25/10), Projeto SP em São Paulo (26 e 27/10), Americana-SP (28/10) e Canecão no Rio de Janeiro (29 e 30/10).

Album Vision Thing (1990)

Album Vision Thing (1990)

Naquela época bandas em atividade ou no auge dificilmente incluíam o Brasil nas turnês.Talvez fosse a última oportunidade para assistir a um show deles. Para tristeza dos fãs, após desavenças com Andrew Eldritch, a baixista Patricia Morrison afastada da banda não viria, e sim, o recém-integrado Tony James (Sigue Sigue Sputnik).

Matéria Folha de S. Paulo por Jean-Yves Neufville 26/Out/1990 (Acervo)

Matéria Folha de S. Paulo por Jean-Yves Neufville 26/Out/1990 (Acervo)

No meu bairro, quem curtia aquele tipo de música era eu, um camarada e mais dois outros que viria a conhecer depois. Não lembro o porquê, mas acabei indo sozinho (afinal faz tanto tempo). A única certeza que tenho: a música de abertura foi First And Last And Always.

Fui de Metrô. A cada parada figuras características embarcavam e não deixavam dúvidas que iriam para o mesmo lugar que eu. Ao desembarcarmos na estação Marechal Deodoro fomos a pé para o Projeto SP situado na Rua Sérgio Meira, na Barra Funda (apenas algumas quadras do metrô). Quem visse aquele grupo de gente esquisita com suas roupas pretas, cabelos espetados e demais paramentos – poderia se assustar. Ao passarmos por uns tiozinhos, eles fizeram o sinal da cruz como se fossemos vampiros ou coisa pior… Hoje em dia tais roupas e o visual se tornaram corriqueiros e até foram incorporados ao mercado de moda.

Ingresso para o primeiro show no Projeto SP 26/Out/1990 (Acervo)

Ingresso para o segundo show no Projeto SP 27/Out/1990 (Acervo)

Fui sozinho, mas encontrei vários conhecidos do Espaço Retrô (porão da região central da cidade de São Paulo frequentado por fãs de bandas como Sisters of Mercy, Bauhaus, Cure entre outras) que também consideravam imperdível a apresentação dos Sisters em Sampa.

O show, apesar da infeliz escolha do insípido Nenhum de Nós como banda de abertura – quando entramos eles estavam saindo do palco ((nenhum de nós assistiu). A apresentação foi arrebatadora: a voz gutural de Andrew Eldritch apoiada por dois guitarristas Tim Bricheno (All About Eve) e Andreas Bruhn (amigo de Eldricht), Tony James (Sigue Sigue Sputnik), o tecladista Dan Donovan (Big Audio Dynamite) e a lendária Doktor Avalanche. Como o ser humano nunca se dá por satisfeito, eu senti falta de No Time To Cry e Walk Away. Abaixo relação das músicas do set list original tocadas dia 27/10 segundo a cópia distribuída aos jornalistas:

First And Last And Always
Lucretia My Reflection
Body And Soul 
Detonation Boulevard 
When You Don`t See Me 
Marian
Body Electric ( relacionada mas não tocada)

Valentine
Doctor Jeep 
Dominion/Mother Russia
 Alice
Gimme Shelter
Temple Of Love 

Vision Thing  (BIS)
This Corrosion 

Jolene (BIS)
 1969

Sao Paulo 1990 - Fanbase-produced cover (back)

Sao Paulo 1990 – Fanbase-produced cover (back)

O show do Projeto SP (26/10) saiu num CD “bootleg” produzido pelo fan club brasileiro dos Sisters of Mercy com as quatro últimas músicas substituídas pelas apresentadas no show do dia seguinte (27/10). No YouTube está disponível uma das apresentações gravada no Canecão (Rio de Janeiro) com imagem e som sofríveis.

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09
fev
15

Mar Inquieto – Yukio Mishima

Por Charles Antunes Leite

Yukio Mishima apresenta um quadro deslumbrante da paisagem costeira da pequena ilha de Utajima – uma das mais de seis mil que formam o arquipélago japonês. O lugar parece ter perdido o “trem da história” em relação ao restante do Japão pós-guerra e industrializado. Como herança do conflito restou um posto de observação do exército (abandonado) em que ocorre o encontro dos futuros amantes. Os cerca de 1400 habitantes da ilha se servem de água que precisam pegar direto da fonte e a energia elétrica depende de um gerador que durante a narrativa vimos saber que está quebrado –  Isso parece tão atual!

11252_gMar Inquieto, publicado em 1954, de Yukio Mishima é um romance sobre o amor atemporal e universal em que moça rica (Hatsue) e rapaz pobre (Shinji) se apaixonam e precisam enfrentar a tudo e a todos para ficarem juntos. Inspirado em Dáfnis e Cloé de Longo, escrito entre os séculos II e III, Mishima explora disciplina, paciência e honra do casal enamorado para vencerem as vicissitudes que acometem o relacionamento.

Shinji aos 18 anos de idade se dedica com afinco ao trabalho como pescador num pequeno barco. Ele vive com a mãe que trabalha como mergulhadora e o irmão caçula dedicado aos estudos e atraído pelo conforto da vida urbana.

A vida do jovem pescador sofre bruscas mudanças ao conhecer a bela Hatsue que cresceu longe da ilha e retornou a pedido do pai, o homem mais rico do lugar, para casar e assumir a posição como herdeira.

O antagonismo entre os dois pretendentes a noivo é bem definido pela coragem, honestidade e lealdade do pescador Shinji em contraste ao preguiçoso, arrogante, covarde e rico Yasuo. Shinji é a escolha de Hatsue enquanto sobre Yasuo recai a escolha do pai dela.

Honra é um dos motes do livro e pode ser percebido em pelo menos dois momentos: quando a castidade é mantida diante do arroubo de um amor jovem durante um encontro furtivo – a espera pelo momento em que esse amor possa se tornar legítimo tão certo como esperar o tempo para ter a melhor colheita.  A amiga Chyoko, contrária ao romance, ama em silêncio e por não ter o amor correspondido espalha boatos depondo contra a honra de Hatsue. Ela toma consciência do ato e se vê moralmente na obrigação de promover a união.

O romance pode, inicilamente, despertar estranheza mas no desenrolar da história passa a ser fascinante ao descrever costumes e tradições japonesas e ofício dos pescadores.  As 168 páginas podem ser lidas em uma tarde.

Título: Mar Inquieto
Autor: Yukio Mishima
Tradução: Leiko Gotoda
Páginas: 168
Editora: Companhia das Letras

 

 

26
jan
15

30 Anos dos Paralamas do Sucesso

Charles Antunes Leite

Janeiro de 1985, no Rio de Janeiro ocorre o primeiro mega festival de rock no Brasil: o Rock in Rio. O evento serviu como vitrine para que artistas internacionais passassem a incluir o país em suas agendas de shows. Dentre os artistas brasileiros que se apresentaram no festival Os Paralamas do Sucesso obtiveram o melhor retorno por parte do público e o respaldo para que pudessem construir uma carreira longeva e repleta de êxitos. Nesses 30 anos, o rock brasileiro mudou muito e se profissionalizou. Os Paralamas abriram caminho para artistas como Legião Urbana, Capital Inicial, Plebe Rude entre outros. Nas décadas seguintes continuaram a influenciar novos artistas como Skank e Jota Quest. 10262083_618345584918170_5221057940088318933_nVoltando a 1983, Os Paralamas estão procurando sua identidade em Cinema Mudo. Nesse primeiro trabalho, apesar da inexperiência e crueza como instrumentistas, eles foram comparados aos ingleses do Police. Músicas com frescor juvenil como Vital e Sua Moto, Cinema Mudo, Patrulha Noturna e Química composta por “um certo” Renato Russo que depois seria apresentado à gravadora EMI por Herbert Vianna já mostravam o caminho a ser seguido.passo do luiO Passo do Lui (1984) flerta com a música jamaicana, principalmente, na faixa instrumental que intitula o disco e em Ska (o título já diz tudo) na levada do ritmo de mesmo nome. O coro de mais de 100 mil vozes cantou Óculos, música que enalteciam a turma dos “quatro olhos”, na primeira edição do Rock in Rio em 1985. Os óculos deixaram de ser excludentes, rapazes míopes tinham em Herbert inspiração – agora também poderiam ter a sua chance com as garotas e também na vida.  O Passo do Lui era uma coleção de sucessos radiofônicos entre eles Meu Erro, Romance Ideal e Me Liga (oito das dez canções tocaram nas Rádios).

imagem: Jorge Marinho

imagem: Jorge Marinho

Com a chegada da Nova República, os Paralamas passaram para um discurso crítico e social, respeito pelos valores brasileiros associados à realidade musical e social jamaicana, além dos ritmos afro-latinos. selvagemSelvagem? (1986) pode ser considerado o trabalho mais maduro e inovador na discografia deles. O álbum selou a paz entre fãs e críticos. A faixa tema Selvagem é robusta na cozinha de Bi e João e o riff da guitarra de Herbert é cortante como seu discurso contra o poder bélico da policia e do governo num momento de transição política. A letra gaiata do Melô do Marinheiro narra aventuras de um clandestino que quer conhecer o mundo de navio e se dá mal. O vídeo clipe de Alagados colocou a banda pop em meio ao povão.  A Novidade, parceria com Gilberto Gil, bebe na fonte do reggae.

Se em Selvagem eles haviam quebrado paradigmas com fusão do rock com ritmos regionais e reggae, em Bora Bora (1988) expandiram a experimentação. O disco se divide em canções quentes e temperadas como praias caribenhas e canções intimistas e passionais para serem ouvidas em apartamentos escuros – eco do final do relacionamento amoroso com Paula Toller. Destaques para O Beco com seu instrumental acrescido de metais; Uns Dias; a confessional Quase Um Segundo; Dois Elefantes. A sonoridade afro-caribenha reforçada pelo naipe de metais e o tecladista João Fera, integrado na turnê de Selvagem e presente desde o álbum D gravado ao vivo no Festival de Montreux (1987), contribuiu para que os Paralamas pudessem explorar novos sons e enriquecessem os arranjos de antigas canções.

Big Bang (1989) eles acrescentaram ritmos brasileiros aos ritmos pesquisados anteriormente: o samba em Se Você Me Quer; o repente de Rabicho do Cachorro Rabugento e canções paralâmicas como Perplexo, Pólvora e Lanterna dos Afogados. Os Grãos (1991) trazia Tendo a Lua, Carro Velho, Trac Trac (versão de composição de Fito Paez) e Sábado. O esmero da produção e um tom monocromático da capa se refletiam também na economia de ritmos, mas com uso de efeitos eletrônicos.

Severino (1994) foi um disco que não teve a devida aceitação no Brasil sendo o momento de reconhecimento da banda na Argentina. O disco foi produzido na Inglaterra e contou com inúmeros nomes da música internacional, inclusive Brian May do Queen. Dos Margaritas alcançou relativo sucesso no Brasil. Vamo Batê LataVamo Batê Lata (1996) gravado ao vivo trazia um CD bônus com quatro faixas inéditas. Destaque para Uma Brasileira – parceria de Herbert com Carlinhos Brown e enriquecida pelo dueto com Djavan – uma das melhores canções do ano e da carreira da banda; A polêmica Luís Inácio (300 Picaretas) um rap contra a corrupção política com o tempero dos Paralamas.  Ainda em 1996 lançaram um disco de inéditas 9 Luas em que se destacaram: Lourinha Bombril, Capitão da Indústria e La Bella Luna.

Hey Na Na (1998) trazia Ela Disse Adeus cujo clipe sagrou-se vencedor na MTV e o Amor Não Sabe Esperar (dueto com Marisa Monte), além de composições de Charly Garcia e Chico Science.

Fevereiro de 2001: Herbert Vianna, líder e voz dos Paralamas do Sucesso sofre acidente aéreo em que perde a esposa; depois de semanas em coma se vê paraplégico. Para a grande maioria dos fãs, o fim da banda era inevitável, mas a “Música” salvou Herbert – tanto que um ano depois lançaram Um Longo Caminho seguido por outros trabalhos. 30 anos O segredo para a banda se manter na ativa depois de três décadas tem uma resposta compartilhada pelo trio – Eles se consideram uma família. A prova disso é o registro em CD/DVD do show comemorativo de 30 anos realizado no Rio de Janeiro em 2013. São sucessos e músicas emblemáticas (28 no DVD). No telão no fundo do palco são projetadas informações sobre a banda, as músicas e imagens de arquivo. A gravadora cometeu um deslize: Don’t Stand So Close To Me, cover do Police, foi grafada na capa como Don’t Stop So Close to Me – careceu de revisão antes de ir para gráfica.

12
jan
15

Miragem, Os Lobos (1971)

Por Charles Antunes Leite O mês de janeiro é propício para se aventurar na procura por ofertas e promoções. Em tempos de MP3, em que os CDs já não têm tanta procura como outrora, fãs dos disquinhos prateados podem se surpreender com verdadeiros achados nas gôndolas das lojas. Numa grande livraria de São Paulo deparei com um balcão de promoções com preços convidativos, inclusive uma “bacia das almas” com CDs por um Real.  À primeira vista o cidadão desanima pela desordem dos títulos e gêneros, além da descrença de encontrar algo que valha a busca. Aqueles que tiverem tempo e paciência podem garimpar pérolas ou mesmo se arriscar a conhecer novos artistas. No referido lote de disquinhos, pela módica moedinha, havia Independentes, Jovem Guarda, Regional, Instrumental, Brega… Saí da livraria com um pacote contendo: Uakti (Instrumental mineiro), Os Brasas (Jovem Guarda gaúcho), Um duplo com gravações de 78 rotações da Dóris Monteiro, Yo La Tengo e alguns outros títulos à 3,90 (que convenhamos é uma ninharia) e Os Lobos – Miragem. os-lobos-miragemUma das melhores aquisições do pacote foi o grupo niteroiense Os Lobos. A sonoridade deles era calcada em Beatles e Stones, elementos de psicodelia e música brasileira (em alguns momentos lembra Mutantes). Se não fosse pelo selo Discobertas, não veriam a luz do laser. Fanny, o primeiro sucesso deles, ficou de fora do álbum relançado pela Discobertas – não foi liberado pela família de Ed Lincoln, proprietário do selo Savoya. Duas músicas de Raul Seixas interpretadas por eles no VII Festival Internacional da Canção Popular, em 1972, foram acrescentadas. Os Lobos – Miragem (1971): Seu Lobo – vocal e ritmo Lembra a fase Tutti Frutti da Rita Lee; Homem de Neanderthal – autoria de Luiz Carlos Sá remete ao rock rural do autor e também associo a Zé Geraldo e Eduardo Araújo com guitarra rock setentista; Avenida Central – cordas e o vocal sentimental da cantora Cristina; Meu amor por Cristina – melodia num crescendo “pinkfloydiano” fase Atom Heart Mother, ecos do Tim Maia dos primeiros discos nos vocais; YouMutantes no escracho e na melodia; Miragem – a faixa titulo (outra de ) traz a sonoridade da guitarra de Roger Mcguinn (Byrds) e o vocal de Cristina emulando Rita Lee; Santa Teresa – a canção apresenta vocalização que se tornaria marca dos Secos e Molhados, que surgiriam em 1973; Psicodelia e letras bicho grilo estão em Carro Branco e Na sombra da Amendoeira; Ótimas releituras de Let me Sing, Let me Sing e Eu sou eu, Nicuri e o Diabo ambas de Raul Seixas. A banda se separou em meados dos anos 1970. O cantor e compositor Dalto, que fez parte da primeira formação, se tornaria conhecido nacionalmente, em 1985, com o sucesso radiofônico Muito Estranho.

13
jun
14

Minhas Copas Inesquecíveis

 

Guias e suplementos especiais de Copas do Mundo - Acervo

Guias e suplementos especiais de Copas do Mundo – Acervo

 

Só se fala em Copa do Mundo… Então fica difícil não falar também seja bem ou mal. Aproveito esse espaço para relembrar as copas passadas – recheadas de boas e más recordações – todas inesquecíveis.

Gostar e jogar futebol – prazeres surgidos em momentos distintos de minha infância, mas ambos me acompanharam por muito tempo. Minha lembrança mais remota: a Copa do Mundo da Argentina, aos oito anos de idade, em 1978. Assisti ao jogo em que os donos da casa “golearam” o Peru por 6 x 0 num pequeno televisor em preto e branco enquanto minha mãe passava roupa e aguardava o final do jogo para assistir à novela. A qualidade da transmissão era sofrível e a imagem do aparelho ainda pior. Mesmo assim, um luxo para quem até seis meses antes vivia no interior de Minas Gerais, na zona rural. Os aparelhos de TV da região podiam ser contados nos dedos de uma mão.

Acompanhei alguns jogos sem entender direito as regras. Aqueles estádios lotados, a barulheira e o papel higiênico encobrindo o verde do gramado. Difícil entender, até hoje, como o juiz Clive Thomas pode encerrar o jogo em que Brasil e Suécia empatavam em 1×1 – durante a trajetória de uma cobrança de escanteio convertida por Zico, de cabeça. Argentina e Brasil estavam empatados em número de pontos. O suposto suborno pago aos peruanos para que perdessem por 6 x 0 proporcionaria aos anfitriões o saldo de gols necessário par disputar a final com a Holanda. A Argentina acabou conquistando a Copa pela primeira vez. Ao Brasil coube o título simbólico de “Campeão Moral”.

Jogadores argentinos comemoram gol contra a Holanda na final da Copa de 1978

Jogadores argentinos comemoram gol contra a Holanda na final da Copa de 1978

Algumas semanas depois a casa ao lado recebeu novos moradores, inclusive um menino mais ou menos da idade do meu irmão mais novo. Ele nos convidou para brincar de bola na calçada: “gol a gol” , “três dentro, três fora”– de maneira tímida dava meus chutes na pelota. Dois anos depois, numa tarde ensolarada, na quadra do clube de várzea do bairro tive uma epifania ao arriscar um drible. Percebi que poderia fazer aquilo com naturalidade. Nasceu ali o gosto pela prática do futebol.

A nossa seleção que disputou a Copa da Espanha, em 1982, era de encher os olhos tanto no papel quanto em campo – uma das melhores que já representaram o país. Telê Santana montou uma equipe com jogadores habilidosos e um esquema tático alegre e ofensivo. Só que no meio do caminho tinha uma pedra e se chamava Itália… Até aquele momento a “Esquadra Azurra” vinha aos trancos e barrancos tendo chegado as quartas de final com três empates e uma derrota. O jogo contra os italianos dava como favorito o “escrete canarinho” de Zico, Sócrates, Falcão e Cia. Motivados pela plasticidade do futebol comparável ao apresentado pela seleção de 1970, as ruas foram tomadas por pinturas com motivos futebolísticos e pelo verde e amarelo. O atacante Paolo Rossi, que até aquele fatídico jogo, não havia demonstrado vocação para o gol resolveu jogar justamente naquela partida tudo que não havia feito nas anteriores.

Paolo Rossi supera a defesa brasileira e marca o primeiro dos três gols da Itália.

Paolo Rossi supera a defesa brasileira e marca o primeiro dos três gols da Itália.

A estrela dos italianos brilhou como o sol naquela tarde no Sarriá enquanto a nossa se apagava. Comoção nacional. Todos os garotos da rua indignados com a virada do destino. Queríamos a desforra mesmo que demorasse alguns anos. Eu fui o mais motivado a jogar e alcançar o profissionalismo. Sonhava com o dia em que faria parte da seleção brasileira e devolver aquela derrota para os italianos.

No mundial do México, em 1986, a seleção brasileira trazia entre os convocados alguns remanescentes do time que disputou a copa de 82, inclusive o técnico Telê Santana. Nossa seleção enfrentou problemas administrativos, de logística e contusões.  Poderia assistir aos jogos em cores, finalmente. . . O carrasco da vez foi a França nos pênaltis. Eu estava no meu auge físico e técnico como jogador, mas mesmo com a dedicação e a possibilidade de jogar no Juventus, percebi que para atingir meu objetivo precisaria contar com a sorte e tratamento fisiológico equivalente ao que Zico havia sido submetido para ganhar massa muscular. Como eu não era um atleta “fora de série” e ainda enfrentava astigmatismo acentuado – tirei meu time de campo. Entre os colegas de clube pelo menos meia dúzia deles apresentava melhores condições que as minhas, porém somente um conseguiu chegar ao futebol profissional e jogar pelo Guarani de Campinas. Os demais se perderam pelo mundo. Eu me conformei em ser apenas torcedor.

Na Itália, em 1990, presenciamos uma das piores formações da seleção brasileira a começar pelo técnico Sebastião Lazaroni e seu esquema tático equivocado. Caímos diante da Argentina de Maradona e Caniggia, ainda nas oitavas de final.

As ruas foram decoradas com cautela para o mundial de 94, nos Estados Unidos. Nossas esperanças depositadas em Romário, Bebeto e Raí que iniciou como capitão da equipe e ainda na primeira fase perdeu a braçadeira para Dunga e a posição para Mazinho. Para a final contra a Itália, a vizinhança se reuniu em volta da TV ligada em cima de um freezer na calçada e fechamos a rua para assistir a partida.

O Brasil disputaria uma final de copa do mundo depois de 24 anos. O momento histórico para a maioria de nós. No meu caso, um ano antes, tive a prévia da emoção de ver meu time vencer um campeonato (o Palmeiras sagrou-se campeão paulista depois de 17 anos e campeão brasileiro depois de 20 anos). Se tudo tivesse corrido como o planejado, a Copa dos Estados Unidos, em 1994, teria sido aquela em que poderia ter disputado e finalmente vencido a Itália na final. Lembro-me da tensão naquela cobrança de pênaltis (veio à memória o desastre da disputa contra a França, em 1986). Mas desta vez tínhamos a estrela de Taffarel que agarrou a cobrança de Massaro e o infortúnio de Baresi e Baggio que chutaram para fora. No ano em que o país perdeu Ayrton Senna, pode se alegrar com o título de tetra campeão mundial de futebol.

O capitão Dunga levanta a Copa do Mundo nos Estados Unidos , em 1994

O capitão Dunga levanta a Copa do Mundo nos Estados Unidos , em 1994

Naquela copa ficou evidente que o futebol vistoso e de jogadores habilidosos estava se tornando um jogo pragmático em que jogadores sobressaiam pela constituição física e não mais pela técnica e domínio dos fundamentos. Não estou generalizando, mas tenho a impressão de que grande parte dos jogadores profissionais possuem dois pés esquerdos – não conseguem fazer um passe ou chute a média distância e mesmo assim recebem altos salários.

Em 1998, na França, a melhor lembrança tenho da semifinal contra a Holanda que chegou às últimas consequências: relembrou a disputa contra a Itália, quatro anos antes, e novamente Taffarel deu uma mãozinha ( ou melhor duas) ao defender as cobranças de pênaltis de Cocu e Ronald de Boer. Aquele foi o último jogo de Copa do Mundo que torci e me emocionei. Foi considerado como final antecipada e muitos acreditavam que não seria difícil vencer os anfitriões que não apresentaram um futebol tão bom quanto à Holanda. O domingo amanheceu nublado – um presságio de que o jogo contra a França não teria um resultado favorável ao Brasil. Dito e feito. O jogo foi nebuloso como aquele domingo. Ronaldo, nossa maior esperança, teve aquelas “convulsões” e não rendeu. Ficou apático durante o jogo, enquanto o craque Zidane apresentou talento e sofisticação ao liderar  a equipe durante o jogo. Foi responsável por dois dos três gols da derrota brasileira . A França levantou seu primeiro título mundial.

Na Copa de 2002, disputada pela primeira vez em duas sedes Coréia e Japão não cheguei a assistir aos jogos. Acompanhei o jogo final contra a Alemanha porque foi num domingo. Fazia alguns anos que não via o Brasil tão bem como naquela partida.

Os mundiais de 2006 e 2010 nem liguei para as eliminações precoces. Aquelas seleções não me empolgaram.

Eis que chegamos a 2014 e a chance de disputar e ganhar a Copa do Mundo no Brasil. Estava de folga e poderia assistir a Abertura e estreia da seleção brasileira. Pela manha saí pelo bairro para ver o movimento nas ruas e até aproveitei para cortar o cabelo. Durante o almoço, em casa, no telejornal acompanhei a cobertura da Copa e as manifestações contrárias à realização dela. Em São Paulo, onde seria o primeiro jogo, alguns manifestantes tentaram fechar o acesso à Arena Corinthians. A policia revidou com “tiro, porrada e bomba” para reestabelecer a ordem.

Mascote oficial da Copa do Mundo do Brasil 2014

Mascote oficial da Copa do Mundo do Brasil 2014

Que abertura mequetrefe! O mundo todo assistiu a uma gigantesca festa de escola infantil. Deixar a direção do espetáculo de abertura por conta de uma europeia… Perpetuação da imagem estereotipada do brasileiro. Um carnavalesco o faria com concisão, volume e originalidade. A geração de imagens e transmissão capenga da Rede Globo completou o trabalho.

Assisti ao evento em casa com a minha mãe, como em 1978. O restante da família não conseguiu vir assistir ao jogo em casa. Cinco da tarde, a seleção em campo e começa a execução do Hino Nacional Brasileiro, confesso que me emocionei. O zagueiro David Luiz gritava ao invés de cantar, deixando evidente o nervosismo. A FIFA que vem limitando o Hino Nacional a 90 segundos teve que se dobrar a vontade dos torcedores que entoaram “à capela” o restante do hino.

Mesmo liberada às pressas, a Arena Corinthians, pelo menos pela TV, lembra estádios europeus: uma beleza! Pena que houve várias quedas de energia durante o primeiro tempo (havia sol). Pelo menos no segundo tempo se estabilizou (a noite caiu rapidamente). Bola rolando e nervosismo da estreia. Aos 11 minutos do primeiro tempo, num lance rápido pela linha de fundo, Marcelo acabou jogando contra o patrimônio. O empate persistia até os 25 minutos do segundo tempo quando a malandragem brazuca de Fred enrolou o juiz que marcou um pênalti duvidoso. Convertido por Neymar numa cobrança mais ou menos (por pouco o goleiro não defende). Neymar pode ter feito dois gols, mas o melhor em campo foi Oscar. Ele foi responsável pelo passe do primeiro gol, o lançamento que originou o pênalti e ainda teve tempo para marcar o seu aos 46 minutos do segundo tempo.

O futebol apresentado foi mediano, deu para o gasto e ainda contou com a ajuda da arbitragem. As manchetes internacionais davam ênfase ao juiz e não ao futebol brasileiro. Muita desconfiança no ar. Vamos torcer muito pelo Brasil (a seleção e o país) para que entrem nos eixos.

Charles Antunes Leite

27
ago
13

LP: Estação Primeira, Gueto (1987)

Por Charles Antunes Leite

ÁLBUM CLÁSSICO

Na cidade de São Paulo, em meados dos anos 1980, um movimento surgia com jovens em torno da cultura hip hop (música, artes plásticas e dança) que ainda engatinhava por terras brasileiras. No Largo São Bento (região central) “MC’s”, “DJs” e dançarinos de “break” se reuniam para animadas disputas musicais. Thaíde era um desses breakers – ele viria a se tornar um dos expoentes do Rap no Brasil. Nesse cenário surgiu o GUETO com a proposta de unir rock com a sonoridade dos jovens de periferia. O que era um gueto na cultura oitentista, nos anos 2000, foi assimilado por todas as classes socioeconômicas por meio de artistas como Racionais MCs, Marcelo D2, Criolo, Emicida entre outros.

GUETO_~1Estação Primeira (1987) trazia na capa o grupo clicado em meio aos edifícios do centro da cidade – reflexo do estilo cosmopolita da música que estavam produzindo. O som era calcado no rap, funk, rock, samba, soul e demais influências da black music. Outra novidade introduzida na música brasileira seria o uso de “scratchs” – depois incorporados pelo Ira! no Psicoacústica (1988) e pelos Titãs no disco Õ Blésq Blom (1989).

A abertura G-U-E-T-O funciona como um aquecimento em que os “slaps” do baixo de Marcola, bateria e guitarra pesadas, scratchs do DJ Marlboro e a percussão do samba são utilizados para compor esse “prelúdio”. A banda e seus integrantes são apresentados “… nos anos 90 é misturando que a gente inventa”.

A guitarra suingada no estilo Nile Rodgers (Chic) de Márcio, a bateria de Edson X  e o vocal nervoso de Júlio César são acrescidos de um naipe de metais para contar Uma Estória –  roqueira, pesada, mas sem perder o swing. É como percorrer uma imensa estrada sem saber o que vai encontrar pelo caminho.

A climática Esse Homem é Você centrada na cozinha em que o baixo se sobressai junto com o trombone de Raul de Souza até se encontrar com a cuíca de escola de samba para dialogarem entre si. Emoção tem nas frases da guitarra e a cozinha azeitada um típico “funk de breque”.

Borboleta Psicodélica com a participação de Paulo Calazans nos teclados, Geraldo D’Arbilly e Luiz Batera é cantarolável e efusiva sem deixar o groove de lado. Você Errou é mais uma levada em que rock e o funk unem a guitarra e a cozinha trabalhando a favor de uma narrativa musical que remetem ao grupo Skowa e a Máfia, outro artista que bebeu na fonte da black music nos 80’s.

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Estação Primeira
anuncia a criação de uma rádio para difundir a música celebrada pela banda e a cultura hip hop. A canção vem escorada no instrumental do Gueto e outra vez os scratchs do DJ Marlboro e a programação de Dino Vicente incrementam o som. Ensaio Geral promove a descontração e criatividade que surge durante os ensaios, discutem-se os erros e experimenta-se “por que ainda bem que é só ensaio geral”.

A banda lançou três discos em 11 anos, alterou a grafia do nome e trocou de vocalista no derradeiro trabalho. Esse primeiro disco pela coesão, diversidade rítmica e competência de seus integrantes inseriu o nome do GUETO na história do pop rock brasileiro.

Álbum: Estação Primeira, 1987
Artista: Gueto
Gravadora: WEA (Warner)

24
jan
13

Memórias Musicais: Transa, Caetano Veloso (1972)

Charles Antunes Leite

RELANÇAMENTO

Certa noite estava assistindo a um programa de TV… E surpreso, percebi na trilha uma canção de Caetano Veloso que não costuma tocar no rádio: It`s a Long Way, abre o lado dois do álbum Transa (1972). Lembrei-me da primeira vez em que ouvi um LP de Caetano – até então havia tido acesso a  canções mais conhecidas e esparsas na programação das emissoras de rádio nos anos 1980.

Essa audição ocorreu quando Transa havia alcançado a maioridade, em 1990. Eu, que até então, só ouvia rock – fui apresentado aos grandes expoentes da MPB e também do jazz por um amigo.

Transa foi produzido por Ralph Mace que havia sido tecladista do álbum The Man Who Sould the World (1970) de David Bowie. Mace já havia produzido o disco homônimo Caetano Veloso (1971). A banda: Jards Macalé (violões, guitarras e direção musical), Tutty Moreno (bateria), Áureo de Souza (percussão), Moacyr Albuquerque (baixo) além das participações de Gal Costa e Ângela Ro Ro.

O vinil durava menos de 40 minutos distribuídos em apenas sete faixas:

You Don’t Know Me: Guitarra blues com letra cantada primeiro em inglês e depois no característico português que confirma a origem baiana do compositor. Aí aparece pela primeira vez o backing vocal luxuoso de Gal Costa nesse disco.

Nine Out of Ten: Um passeio por Portobelo Road ao som do reggae – Carpe Diem!

Triste Bahia: Um lamento embalado pela música de capoeira. Duas estrofes de um soneto do poeta baiano Gregório de Matos fazem parte da letra.

It’s a Long Way: O longo caminho percorrido pelo mais famoso filho de Santo Amaro da Purificação:  do exílio em Londres para finalmente voltar ao Brasil. A canção é conduzida pelo violão e apresenta percussão e influência rítmica da música nordestina.

Mora na Filosofia:  Originalmente um samba vinculado ao carnaval- era um descarrego percussivo. A música na versão de Caetano propõe a análise de uma relação pondo amor e dor como dois pesos de uma balança. A interpretação de andamento cadenciado (a maior parte do tempo) pode ser considerada uma das melhores versões para a célebre composição de Monsueto e Arnaldo Passos.

Neolithic Man: A música vem numa crescente com violão e percussão tímida para culminar no tribal concretista.

Nostalgia (That’s What Rock’n Roll Is All About): Caetano revisita o rock’n’roll dos fifties. Nessa faixa nota-se a gaita tocada pela  jovem, ainda desconhecida, Ângela Ro Ro que no início dos anos 1970 “ralava” em Londres servindo mesas, cantando e tocando piano.

O disco Transa como introdução ao universo de Caetano Veloso é plural em influências- mescla raízes antropofágicas, naturalismo e a musicalidade londrina da época.  O mix de instrumentos acústicos e elétricos, ritmos e idiomas fez do compositor baiano um artista cosmopolita  sem se afastar de suas raízes provincianas.

Em 2012, Transa completou 40 anos. A Universal relançou em CD remasterizado em Abbey Road e vinil 180g com projeto gráfico de Álvaro Guimarães.




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