Archive for the 'Resenha' Category

18
mar
15

Coleção Folha Soul & Blues (2015)

Por Charles Antunes Leite

Primeiro volume da coleção

Primeiro volume da coleção

O Blues e o Soul são dois gêneros da música norte-americana que podem ser considerados os pais do rock. Desde os precursores como Chuck Berry, Little Richard, Elvis Presley passando por Eric Clapton, Beatles, Rolling Stones, The Who, Jimi Hendrix, Janis Joplin, The Doors – todos tiveram como influência decisiva nas suas carreiras os artistas do blues e do soul.

O Soul e, principalmente o Blues, fizeram a cabeça, primeiramente do outro lado do Atlântico, dos jovens ingleses que começaram a apreciar a música negra americana, antes mesmo dos jovens americanos. A “British Invasion” pode exemplificar tal fenômeno em que artistas ingleses em suas excursões pela terra do Tio Sam devolviam aos jovens ianques a música deles repaginada e incutiam o interesse pela busca dessas raízes musicais.

Disco de Howlin Wolf gravado em Londres com a participação de seus fãs ilustres.

Disco de Howlin Wolf gravado em Londres com a participação de seus fãs ilustres (não faz parte da coleção).

Na década de 1980, uma ramificação do que veio a ser conhecido como New Wave, revelou artistas cuja principal influência musical era o Soul: Prince, Simply Red, Sade, Style Council, Fine Young Cannibals. Os anos 1990 continuaram a revelar artistas influenciados pelo soul e blues como Lisa Stansfield, Des’ree, Jamiroquai, Lenny Kravitz. Nos anos 2000 surgiram: Adele, Amy Winehouse, Corinne Bailey Rae, Aloe Blacc, Raphael Saadiq, Joss Stone, Mayer Hawthorne, Gary Clark Jr. Entre muitos outros.

A Coleção Folha Soul & Blues pretende resgatar artistas tão influentes e atemporais dessas duas correntes musicais que poderá agradar aos neófitos e também aos habituais apreciadores dos dois gêneros.

A coleção oferece um panorama da música negra produzida no século XX. O repertório dos CDs foi extraído dos lendários selos fonográficos e gravadoras Stax e Motown (Soul) e Chess e Alligator (Blues) com as principais canções de cada artista. Cada livro traz textos explicativos da obra, principais gravações, curiosidades sobre os artistas, além de indicações de livros e filmes para aprofundar nos estilos musicais em questão.

Nomes de suma importância para os dois gêneros, por não pertencerem ao cast das gravadoras citadas, ficaram de fora da coleção: Sam Cooke, Aretha Franklin, Al Green, Booker T and the MGs, Ray Charles, Lightnin’ Hopkins, Willie Dixon, Pinetop Perkins, Stevie Ray Vaughan.

São 30 livros de capa dura com 44 páginas em papel couché acompanhados respectivamente por um CD. À venda nas bancas a partir de 15 de março. Abaixo a relação dos fascículos:

Soul

  1. Stevie Wonder
  2. Marvin Gaye
  3. James Brown
  4. Ike & Tina Turner
  5. Jackson 5
  6. Diana Ross & The Supremes
  7. Barry White
  8. Curtis Mayfield
  9. The Commodores
  10. Otis Redding
  11. Gladys Knight & The Pips
  12. Isaac Hayes
  13. The Temptations
  14. Etta James
  15. Smokey Robinson

Blues

  1. B.B. King
  2. Muddy Waters
  3. Buddy Guy
  4. John Lee Hooker
  5. Robert Cray
  6. Howlin’ Wolf
  7. Fats Domino
  8. Robert Johnson
  9. Koko Taylor
  10. Johnny Winter
  11. Albert Collins
  12. Magic Slim
  13. Bessie Smith
  14. James Cotton
  15. Shemekia Copeland

 

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09
fev
15

Mar Inquieto – Yukio Mishima

Por Charles Antunes Leite

Yukio Mishima apresenta um quadro deslumbrante da paisagem costeira da pequena ilha de Utajima – uma das mais de seis mil que formam o arquipélago japonês. O lugar parece ter perdido o “trem da história” em relação ao restante do Japão pós-guerra e industrializado. Como herança do conflito restou um posto de observação do exército (abandonado) em que ocorre o encontro dos futuros amantes. Os cerca de 1400 habitantes da ilha se servem de água que precisam pegar direto da fonte e a energia elétrica depende de um gerador que durante a narrativa vimos saber que está quebrado –  Isso parece tão atual!

11252_gMar Inquieto, publicado em 1954, de Yukio Mishima é um romance sobre o amor atemporal e universal em que moça rica (Hatsue) e rapaz pobre (Shinji) se apaixonam e precisam enfrentar a tudo e a todos para ficarem juntos. Inspirado em Dáfnis e Cloé de Longo, escrito entre os séculos II e III, Mishima explora disciplina, paciência e honra do casal enamorado para vencerem as vicissitudes que acometem o relacionamento.

Shinji aos 18 anos de idade se dedica com afinco ao trabalho como pescador num pequeno barco. Ele vive com a mãe que trabalha como mergulhadora e o irmão caçula dedicado aos estudos e atraído pelo conforto da vida urbana.

A vida do jovem pescador sofre bruscas mudanças ao conhecer a bela Hatsue que cresceu longe da ilha e retornou a pedido do pai, o homem mais rico do lugar, para casar e assumir a posição como herdeira.

O antagonismo entre os dois pretendentes a noivo é bem definido pela coragem, honestidade e lealdade do pescador Shinji em contraste ao preguiçoso, arrogante, covarde e rico Yasuo. Shinji é a escolha de Hatsue enquanto sobre Yasuo recai a escolha do pai dela.

Honra é um dos motes do livro e pode ser percebido em pelo menos dois momentos: quando a castidade é mantida diante do arroubo de um amor jovem durante um encontro furtivo – a espera pelo momento em que esse amor possa se tornar legítimo tão certo como esperar o tempo para ter a melhor colheita.  A amiga Chyoko, contrária ao romance, ama em silêncio e por não ter o amor correspondido espalha boatos depondo contra a honra de Hatsue. Ela toma consciência do ato e se vê moralmente na obrigação de promover a união.

O romance pode, inicilamente, despertar estranheza mas no desenrolar da história passa a ser fascinante ao descrever costumes e tradições japonesas e ofício dos pescadores.  As 168 páginas podem ser lidas em uma tarde.

Título: Mar Inquieto
Autor: Yukio Mishima
Tradução: Leiko Gotoda
Páginas: 168
Editora: Companhia das Letras

 

 

26
jan
15

30 Anos dos Paralamas do Sucesso

Charles Antunes Leite

Janeiro de 1985, no Rio de Janeiro ocorre o primeiro mega festival de rock no Brasil: o Rock in Rio. O evento serviu como vitrine para que artistas internacionais passassem a incluir o país em suas agendas de shows. Dentre os artistas brasileiros que se apresentaram no festival Os Paralamas do Sucesso obtiveram o melhor retorno por parte do público e o respaldo para que pudessem construir uma carreira longeva e repleta de êxitos. Nesses 30 anos, o rock brasileiro mudou muito e se profissionalizou. Os Paralamas abriram caminho para artistas como Legião Urbana, Capital Inicial, Plebe Rude entre outros. Nas décadas seguintes continuaram a influenciar novos artistas como Skank e Jota Quest. 10262083_618345584918170_5221057940088318933_nVoltando a 1983, Os Paralamas estão procurando sua identidade em Cinema Mudo. Nesse primeiro trabalho, apesar da inexperiência e crueza como instrumentistas, eles foram comparados aos ingleses do Police. Músicas com frescor juvenil como Vital e Sua Moto, Cinema Mudo, Patrulha Noturna e Química composta por “um certo” Renato Russo que depois seria apresentado à gravadora EMI por Herbert Vianna já mostravam o caminho a ser seguido.passo do luiO Passo do Lui (1984) flerta com a música jamaicana, principalmente, na faixa instrumental que intitula o disco e em Ska (o título já diz tudo) na levada do ritmo de mesmo nome. O coro de mais de 100 mil vozes cantou Óculos, música que enalteciam a turma dos “quatro olhos”, na primeira edição do Rock in Rio em 1985. Os óculos deixaram de ser excludentes, rapazes míopes tinham em Herbert inspiração – agora também poderiam ter a sua chance com as garotas e também na vida.  O Passo do Lui era uma coleção de sucessos radiofônicos entre eles Meu Erro, Romance Ideal e Me Liga (oito das dez canções tocaram nas Rádios).

imagem: Jorge Marinho

imagem: Jorge Marinho

Com a chegada da Nova República, os Paralamas passaram para um discurso crítico e social, respeito pelos valores brasileiros associados à realidade musical e social jamaicana, além dos ritmos afro-latinos. selvagemSelvagem? (1986) pode ser considerado o trabalho mais maduro e inovador na discografia deles. O álbum selou a paz entre fãs e críticos. A faixa tema Selvagem é robusta na cozinha de Bi e João e o riff da guitarra de Herbert é cortante como seu discurso contra o poder bélico da policia e do governo num momento de transição política. A letra gaiata do Melô do Marinheiro narra aventuras de um clandestino que quer conhecer o mundo de navio e se dá mal. O vídeo clipe de Alagados colocou a banda pop em meio ao povão.  A Novidade, parceria com Gilberto Gil, bebe na fonte do reggae.

Se em Selvagem eles haviam quebrado paradigmas com fusão do rock com ritmos regionais e reggae, em Bora Bora (1988) expandiram a experimentação. O disco se divide em canções quentes e temperadas como praias caribenhas e canções intimistas e passionais para serem ouvidas em apartamentos escuros – eco do final do relacionamento amoroso com Paula Toller. Destaques para O Beco com seu instrumental acrescido de metais; Uns Dias; a confessional Quase Um Segundo; Dois Elefantes. A sonoridade afro-caribenha reforçada pelo naipe de metais e o tecladista João Fera, integrado na turnê de Selvagem e presente desde o álbum D gravado ao vivo no Festival de Montreux (1987), contribuiu para que os Paralamas pudessem explorar novos sons e enriquecessem os arranjos de antigas canções.

Big Bang (1989) eles acrescentaram ritmos brasileiros aos ritmos pesquisados anteriormente: o samba em Se Você Me Quer; o repente de Rabicho do Cachorro Rabugento e canções paralâmicas como Perplexo, Pólvora e Lanterna dos Afogados. Os Grãos (1991) trazia Tendo a Lua, Carro Velho, Trac Trac (versão de composição de Fito Paez) e Sábado. O esmero da produção e um tom monocromático da capa se refletiam também na economia de ritmos, mas com uso de efeitos eletrônicos.

Severino (1994) foi um disco que não teve a devida aceitação no Brasil sendo o momento de reconhecimento da banda na Argentina. O disco foi produzido na Inglaterra e contou com inúmeros nomes da música internacional, inclusive Brian May do Queen. Dos Margaritas alcançou relativo sucesso no Brasil. Vamo Batê LataVamo Batê Lata (1996) gravado ao vivo trazia um CD bônus com quatro faixas inéditas. Destaque para Uma Brasileira – parceria de Herbert com Carlinhos Brown e enriquecida pelo dueto com Djavan – uma das melhores canções do ano e da carreira da banda; A polêmica Luís Inácio (300 Picaretas) um rap contra a corrupção política com o tempero dos Paralamas.  Ainda em 1996 lançaram um disco de inéditas 9 Luas em que se destacaram: Lourinha Bombril, Capitão da Indústria e La Bella Luna.

Hey Na Na (1998) trazia Ela Disse Adeus cujo clipe sagrou-se vencedor na MTV e o Amor Não Sabe Esperar (dueto com Marisa Monte), além de composições de Charly Garcia e Chico Science.

Fevereiro de 2001: Herbert Vianna, líder e voz dos Paralamas do Sucesso sofre acidente aéreo em que perde a esposa; depois de semanas em coma se vê paraplégico. Para a grande maioria dos fãs, o fim da banda era inevitável, mas a “Música” salvou Herbert – tanto que um ano depois lançaram Um Longo Caminho seguido por outros trabalhos. 30 anos O segredo para a banda se manter na ativa depois de três décadas tem uma resposta compartilhada pelo trio – Eles se consideram uma família. A prova disso é o registro em CD/DVD do show comemorativo de 30 anos realizado no Rio de Janeiro em 2013. São sucessos e músicas emblemáticas (28 no DVD). No telão no fundo do palco são projetadas informações sobre a banda, as músicas e imagens de arquivo. A gravadora cometeu um deslize: Don’t Stand So Close To Me, cover do Police, foi grafada na capa como Don’t Stop So Close to Me – careceu de revisão antes de ir para gráfica.

12
jan
15

Miragem, Os Lobos (1971)

Por Charles Antunes Leite O mês de janeiro é propício para se aventurar na procura por ofertas e promoções. Em tempos de MP3, em que os CDs já não têm tanta procura como outrora, fãs dos disquinhos prateados podem se surpreender com verdadeiros achados nas gôndolas das lojas. Numa grande livraria de São Paulo deparei com um balcão de promoções com preços convidativos, inclusive uma “bacia das almas” com CDs por um Real.  À primeira vista o cidadão desanima pela desordem dos títulos e gêneros, além da descrença de encontrar algo que valha a busca. Aqueles que tiverem tempo e paciência podem garimpar pérolas ou mesmo se arriscar a conhecer novos artistas. No referido lote de disquinhos, pela módica moedinha, havia Independentes, Jovem Guarda, Regional, Instrumental, Brega… Saí da livraria com um pacote contendo: Uakti (Instrumental mineiro), Os Brasas (Jovem Guarda gaúcho), Um duplo com gravações de 78 rotações da Dóris Monteiro, Yo La Tengo e alguns outros títulos à 3,90 (que convenhamos é uma ninharia) e Os Lobos – Miragem. os-lobos-miragemUma das melhores aquisições do pacote foi o grupo niteroiense Os Lobos. A sonoridade deles era calcada em Beatles e Stones, elementos de psicodelia e música brasileira (em alguns momentos lembra Mutantes). Se não fosse pelo selo Discobertas, não veriam a luz do laser. Fanny, o primeiro sucesso deles, ficou de fora do álbum relançado pela Discobertas – não foi liberado pela família de Ed Lincoln, proprietário do selo Savoya. Duas músicas de Raul Seixas interpretadas por eles no VII Festival Internacional da Canção Popular, em 1972, foram acrescentadas. Os Lobos – Miragem (1971): Seu Lobo – vocal e ritmo Lembra a fase Tutti Frutti da Rita Lee; Homem de Neanderthal – autoria de Luiz Carlos Sá remete ao rock rural do autor e também associo a Zé Geraldo e Eduardo Araújo com guitarra rock setentista; Avenida Central – cordas e o vocal sentimental da cantora Cristina; Meu amor por Cristina – melodia num crescendo “pinkfloydiano” fase Atom Heart Mother, ecos do Tim Maia dos primeiros discos nos vocais; YouMutantes no escracho e na melodia; Miragem – a faixa titulo (outra de ) traz a sonoridade da guitarra de Roger Mcguinn (Byrds) e o vocal de Cristina emulando Rita Lee; Santa Teresa – a canção apresenta vocalização que se tornaria marca dos Secos e Molhados, que surgiriam em 1973; Psicodelia e letras bicho grilo estão em Carro Branco e Na sombra da Amendoeira; Ótimas releituras de Let me Sing, Let me Sing e Eu sou eu, Nicuri e o Diabo ambas de Raul Seixas. A banda se separou em meados dos anos 1970. O cantor e compositor Dalto, que fez parte da primeira formação, se tornaria conhecido nacionalmente, em 1985, com o sucesso radiofônico Muito Estranho.

20
dez
14

Meus Discos de 2014

Charles Antunes Leite

Não pretendo com os discos abaixo citados criar uma lista com os melhores do ano. Dentre aqueles que ouvi em 2014 foram os que mais me agradaram e, que sem arrependimentos, pude investir suados reais na certeza de que mereciam ser ouvidos mais de uma vez.

Juçara Marçal – Encarnado

jucara-marcalA sujeira da guitarra e o “noise” em contraponto encarnados pelo discurso a flor da pele e pela voz macia de Juçara. O instrumental característico da geração Lira Paulistana: Itamar Assumpção, Arrigo Barnabé, Thiago Araripe, Grupo Rumo, Jorge Mautner, Eliete Negreiros entre outros ecoam pelo álbum. As harmonias limpas se unem ao instrumental sujo e dissonante. Não é necessário se esgoelar para parecer rock como na “sonic youthiana” Ciranda do Aborto. O disco que se sustenta na guitarra e distorção termina com a suavidade de um sambinha paulista João Carranca.

Johnny Cash – Out Among the Stars

91ZGqKs-0lL__SL1500_Johnny Cash como muitos artistas influentes deixou muito material sem ver a luz do laser. A grata surpresa em perceber já na primeira audição que este não é um mero caça-níqueis.  O filho de Cash encontrou o material durante o processo de catalogação da obra do pai. Out Among the Stars compila material não utilizado nas sessões de gravação de 1981. A faixa título é o anúncio do clima que impera em todo o disco, o ritmo no melhor estilo do Pica Pau e seu fiel cavalo “Pé de Pano”.  Dentre os destaques dois duetos com June Carter Cash e um com outra fera do country Waylon Jennings.  São rocks, baladas e temas com influência gospel reunidos que não perdem em nada para as gravações clássicas do Homem de Preto.

Willie Nelson – Band of Brothers

willieDesde 1996, Nelson não lançava um disco com 100% de material inédito: 14 temas (nove de sua autoria). Band of Brothers (a canção) é uma homenagem àqueles que foram parceiros na carreira de Nelson como Johnny Cash, Waylon Jennings e Kris Kristofferson entre outros. É um grande retorno com uma coleção de baladas límpidas e encorpadas longe da “xaropisse” do neocountry. O disco sereno e próprio para descansar após o dia de trabalho em volta da fogueira com o violão sob a luz das estrelas. Em poucos momentos, ao contrário de Cash, o ritmo é acelerado como nas canções: Crazy Like Me e I’ve Got a Lot of Traveling to Do.

Eric Clapton & Friends – The Breeze: An Appreciation of JJ Cale

 imagesZ9UD6PL4Clapton tem em J.J. Cale uma das suas influências declaradas e teve o prazer de tê-lo como parceiro em 2006 no álbum The Road to Escondido. Cale, morto em 2013, recebe a homenagem de Clapton que conta com a participação de amigos e fãs do compositor: Mark Knopfler, John Mayer, Willie Nelson, Tom Petty, Derek Trucks e Don White em releituras das composições do guitarrista e compositor. Algumas muito boas outras ok. Com poucos momentos aquém da grandiosidade de Cale. Estilos variados resultados também – o que não compromete – no final o saldo é positivo.

St. Vincent – St. Vincent

st vincentAnnie Clark aka St. Vincent (ex-guitarrista do Polyphonic Spree) no seu quarto trabalho solo envereda por caminhos melódicos e vocais semelhantes à Kate Bush e Tori Amos.  No mesmo disco podemos ouvir a pop Prince Johnny; a levada funk  de Prince safra 80’s de Digital Witness; Psycopath lembra a banda do parceiro no disco anterior David Byrne. St. Vincent mescla faixas mais acessíveis com outras situadas no “Art Rock” em que experimenta recursos da sua guitarra amparados pela eletrônica.

Suzanne Vega – Tales from the Realm of the Queen of Pentacles

suzanneSuzanne apresenta músicas inéditas depois de sete anos. O folk com vocal sussurrado acompanhado de violão ganhou a companhia de alguns instrumentos e, em alguns momentos, uma roupagem mais moderna sem descaracterização. A força dos primeiros trabalhos pode ser sentida nas canções que modulam entre o folk econômico e introspectivo e rock, mas sempre com a capacidade de se misturar ao moderno e inusitado: Jacob and the Angel traz nas palmas quase um acompanhamento flamenco. A voz de Vega é um bálsamo para os ouvidos constantemente invadidos pelas vozes das cantoras que acham que gritar é o caminho para se fazer ouvir.

Swans – To The Kind

swansCategorizar o Swans pela música que faz (há décadas) principalmente se analisarmos uma das faixas de To Be Kind que dura mais de meia hora, seria falta de informação ou incongruência, né? O centro nervoso desse trabalho, concebido como álbum duplo em que a música mais curta dura cinco minutos,  é a sequencia Bring The Sun/Toussaint L’Ouvertureo antirrock progressivo, um pesadelo sonoro com batida e vocal xamânico seguido por uma linha de efeitos sonoros tenebrosos. Depois dos 34 minutos de pesadelo, você acorda para beber água e respirar.

Max Richter – Recomposed By Max Richter: Vivaldi the Four Seasons

28947927778_p0_v1_s260x420O compositor, produtor e pianista Max Richter recriou uma das peças com maior número de interpretações gravadas na história da música: As Quatro Estações (1723) de Antonio Vivaldi. Richter desenvolveu junto com a sua formação erudita o gosto pelo punk rock e pela música contemporânea – predileção por Luciano Berio e Steve Reich. Ele toma como base As Quatro Estações de origem barroca e acrescenta elementos modernos. Manteve a dinâmica, suaviza passagens, cria texturas utilizando loops e o inusitado acréscimo de sintetizador Moog na composição. Ele ainda criou alguns bônus inspirados livremente na obra original em que flerta com a música ambiente, o minimalismo e até a boa acepção do termo New Age. O resultado não desagrada ouvintes de mente aberta, principalmente quando o violinista solo é Daniel Hope, um músico conceituado e conhecedor da peça.

Valentina Lisitsa- Chasing Pianos: The Piano Music of Michael Nyman

valentina_lisitsa_-_chasing_pianos_-_michael_nymaA pianista ucraniana conhecida por interpretações de Rachmaninoff e Liszt homenageia o compositor Michael Nyman conhecido por trilhas inspiradas como O Piano que ocupa quase metade da seleção de Chasing Piano. O score minimalisma pode ser apreciado a partir da capa em que faz referência ao cenário da capa da trilha original.

O pianista mineiro Nélson Freire teve três produtos chegando às lojas em 2014 para celebrar seus 70 anos de vida:

imagesBE8SJYBGA colaboração com o regente Riccardo Chailly que já havia sido bem sucedida com a gravação dos concertos de Brahms se repete com o Concerto nº 5 de BeethovenComplete Columbia Album Collection é uma caixa com sete CDs que cobrem o período de 1969/1982; Radio Days – The Concerto Broadcasts 1969/1979 – CD duplo com gravações das transmissões radiofônicas do início da carreira europeia.

Flying Lotus – You’re Dead!

flyingFlying Lotus aka Steven Ellison traz o DNA do clã Coltrane– ele é sobrinho neto da pianista e harpista Alice Coltrane e primo do saxofonista  Ravi Coltrane , o que já são credenciais para se aventurar a ouvi-lo.  Sinceramente, ele não desaponta.  Sua música permeia entre o jazz fusion em Tesla e Cold Dead, pelo rap em Never Catch Me e Dead Man’s Tetris passando pela psicodelia e eletrônica em Siren Song .

Pat Unity Group Metheny – Kin

kinO premiado guitarrista Pat Metheny apresenta o segundo trabalho com seu Unity Group. Ele mostra que aos 60 anos ainda tem muita lenha para queimar. Sua sensibilidade harmônica e facilidade de improvisação o levaram a colaborar com diversos artistas do pop, jazz e música erudita.  Essa versatilidade adquirida ao longo de tantos anos pode ser ouvida em discos como Kin.

Toninho Ferragutti e Neymar Dias – Festa na Roça

festaToninho Ferragutti (acordeon) e Neymar Dias (viola caipira) recriaram temas presentes na memória afetiva interiorana. Clássicos da música sertaneja autêntica ganharam arranjos instrumentais inspiradíssimos, sem mexer na estrutura das canções originais. O caráter bucólico de obras-primas do cancioneiro caipira recebeu uma embalagem condizente em digipack tendo como capa a reprodução Festa na Roça (Óleo sobre tela, 1957) de José Antônio da Silva.

Também dignos de nota:

Thurston Moore – Best Day; Bruce Springsteen-High Hopes; Leonard Cohen– Popular Problems; Vittor Santos & Grupo – Co(n) vivências; Silva – Vista Para o Mar; Dr. John   Ske-Dat-De-Dat…The Spirit Of Satch ; Keith Jarrett/Charlie Haden-Last Dance; Charlie Haden – Jim Hall; Cecilia Bartoli – St. Petersburg; Anna Netrebko-Strauss, R.: Four Last Songs; Ein Heldenleben; Alisa Weilerstein– Solo; Martha Argerich/Claudio Abbado – Mozart Piano Concertos 20 e 25; Martha Argerich/Daniel Barenboim – Piano Duos de Mozart, Schubert e Stravinsky.

27
ago
13

LP: Estação Primeira, Gueto (1987)

Por Charles Antunes Leite

ÁLBUM CLÁSSICO

Na cidade de São Paulo, em meados dos anos 1980, um movimento surgia com jovens em torno da cultura hip hop (música, artes plásticas e dança) que ainda engatinhava por terras brasileiras. No Largo São Bento (região central) “MC’s”, “DJs” e dançarinos de “break” se reuniam para animadas disputas musicais. Thaíde era um desses breakers – ele viria a se tornar um dos expoentes do Rap no Brasil. Nesse cenário surgiu o GUETO com a proposta de unir rock com a sonoridade dos jovens de periferia. O que era um gueto na cultura oitentista, nos anos 2000, foi assimilado por todas as classes socioeconômicas por meio de artistas como Racionais MCs, Marcelo D2, Criolo, Emicida entre outros.

GUETO_~1Estação Primeira (1987) trazia na capa o grupo clicado em meio aos edifícios do centro da cidade – reflexo do estilo cosmopolita da música que estavam produzindo. O som era calcado no rap, funk, rock, samba, soul e demais influências da black music. Outra novidade introduzida na música brasileira seria o uso de “scratchs” – depois incorporados pelo Ira! no Psicoacústica (1988) e pelos Titãs no disco Õ Blésq Blom (1989).

A abertura G-U-E-T-O funciona como um aquecimento em que os “slaps” do baixo de Marcola, bateria e guitarra pesadas, scratchs do DJ Marlboro e a percussão do samba são utilizados para compor esse “prelúdio”. A banda e seus integrantes são apresentados “… nos anos 90 é misturando que a gente inventa”.

A guitarra suingada no estilo Nile Rodgers (Chic) de Márcio, a bateria de Edson X  e o vocal nervoso de Júlio César são acrescidos de um naipe de metais para contar Uma Estória –  roqueira, pesada, mas sem perder o swing. É como percorrer uma imensa estrada sem saber o que vai encontrar pelo caminho.

A climática Esse Homem é Você centrada na cozinha em que o baixo se sobressai junto com o trombone de Raul de Souza até se encontrar com a cuíca de escola de samba para dialogarem entre si. Emoção tem nas frases da guitarra e a cozinha azeitada um típico “funk de breque”.

Borboleta Psicodélica com a participação de Paulo Calazans nos teclados, Geraldo D’Arbilly e Luiz Batera é cantarolável e efusiva sem deixar o groove de lado. Você Errou é mais uma levada em que rock e o funk unem a guitarra e a cozinha trabalhando a favor de uma narrativa musical que remetem ao grupo Skowa e a Máfia, outro artista que bebeu na fonte da black music nos 80’s.

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Estação Primeira
anuncia a criação de uma rádio para difundir a música celebrada pela banda e a cultura hip hop. A canção vem escorada no instrumental do Gueto e outra vez os scratchs do DJ Marlboro e a programação de Dino Vicente incrementam o som. Ensaio Geral promove a descontração e criatividade que surge durante os ensaios, discutem-se os erros e experimenta-se “por que ainda bem que é só ensaio geral”.

A banda lançou três discos em 11 anos, alterou a grafia do nome e trocou de vocalista no derradeiro trabalho. Esse primeiro disco pela coesão, diversidade rítmica e competência de seus integrantes inseriu o nome do GUETO na história do pop rock brasileiro.

Álbum: Estação Primeira, 1987
Artista: Gueto
Gravadora: WEA (Warner)

21
ago
13

DVD: O Moinho e a Cruz, Lech Majewski (2011)

Por Charles Antunes Leite

“O infinito da estética é um sentimento que resulta da finita e perfeita completeza da coisa que se admira” (Umberto Eco).

omoinhoeacruzposterf2O Moinho e a Cruz (The Mill and the Cross, 2011) do polonês Lech Majewski é uma esmerada produção que recria o quadro A Procissão Para o Calvário (1564) do pintor Pieter Bruegel. As imagens são os pontos fortes da narrativa: cores, formas e texturas sobressaem sobre o som, a música e as palavras. O indizível é descrito em cores e sombras. A fotografia do filme privilegia o contraponto entre luz e sombra, reproduzindo o efeito de “chiaroscuro”  para reforçar a carga dramática das cenas. Poucos diálogos, a narração econômica, a música tímida e quase imperceptível no decorrer do filme. Num raro momento, um camponês bêbado dança ao som de um menestrel. A ausência de música e palavras leva o espectador a divagar de forma subjetiva sobre aquilo que é apresentado na tela.

O pintor holandês Pieter Bruegel, o Velho (1525-1569) sofreu a influência de Hieronymus Bosch na sua forma de compor cenas complexas e com múltiplos elementos, principalmente temas pastoris e sacros. A passionalidade em relação ao divino, a condição humana subjugada pela religião – o olhar do artista descrevia o cotidiano a sua volta em cenas panorâmicas exploradas com maestria no formato “widescreen” do cinema e telas de TV. São vários quadros menores que convergem na grande cena retratada na pintura de 124 cm exposta no Kunsthistorisches Museum de Vienna.

A abertura do filme apresenta os atores se vestindo enqunato Bruegel (Rutger Hauer) instrui o posicionamento dos modelos na cena, ao lado do amigo e colecionador de arte Nicolaes Jonghelinck (Michael York). O plano de fundo pintado à mão e as locações na Polônia, Áustria e Nova Zelândia servem para ilustrar e emoldurar o quadro.

Bruegel elenca os elementos das cenas retratadas na tela da mesma forma que Vittore Carpaccio, Albrecht Dürer e Hieronymus Bosch. Nesse ponto a pintura e o cinema se encontram na apresentação do “storyboard” do quadro a ser pintado. O esboço traça uma cena principal com cenas secundárias e terciárias que convergem e possibilitam a compreensão do tema num sentido mais amplo.

Para sua obra-prima A Procissão Para o Calvário, ele se inspirou no momento político e social em que viviam. Os aldeões incorporam os contemporâneos de Jesus Cristo, principalmente Charlotte Rampling como a inspiração para a Virgem Maria. Os espanhóis representam os romanos e o Salvador moído como grão pelo Moinho. Paralelamente ao drama que se anuncia, o cotidiano familiar do artista se faz presente como ação secundária para inseri-lo naquele ambiente em que é um observador dos fatos.

O quadro com temática religiosa funciona como alegoria para criticar a ação e os conflitos a sua volta. A região de Flandres que abrange atualmente parte da Bélgica e da Holanda estava sob o domínio dos espanhóis. Os invasores subjugavam a classe camponesa em cenários áridos sob o céu constantemente nublado.  Os corvos sobrevoam todos os cenários externos e, mesmo pelas frestas das janelas, podem ser vistos e ouvidos no seu canto fúnebre como símbolos de mal agouro e arautos do mundo dos mortos.

Bruegel descreve o quadro que deverá ter uma centena de personagens “Minha pintura terá que contar muitas histórias… trabalharei como a aranha que esta manhã vi tecer sua teia”. Vários temas alinhavados pelo Poder e Religião. Mulheres enterradas vivas, homens perseguidos e agredidos para depois serem deixados à mercê dos corvos imprimia morbidez às suas pinturas. A intolerância religiosa se faz presente e justifica a perseguição e morte. O reformista em busca de mudanças é tido como criminoso contra o Estado e a Igreja. Da mesma forma que o Cristo da antiguidade deve ser crucificado. O homem que teme a Deus teme morrer e ir para o Inferno – se torna mais fácil de controlar pelos governantes. A presença ostensiva dos cavaleiros do Rei de Espanha como Cavaleiros do Apocalipse lembrava a todos da danação, primeiro na terra e depois no inferno.

A paisagem pastoril com o Moinho no alto representa o Gólgota. A Paixão de Cristo é revisitada pelo vermelho da farda espanhola  que se confunde com o sangue do camponês. Não poderia ser diferente – no quadro de Bruegel – o céu se fecha no momento em que Jesus é crucificado.

Fotografia, iluminação, direção de arte e figurinos caprichados são utilizados para transpor uma tela para tridimensionalidade do cinema. O Moinho e a Cruz pode ser descrito, literalmente, como filme de arte.




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