11
jan
16

Adeus, Bowie!

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David Bowie nascido David Robert Jones em 1947, em Brixton, Londres (UK) desenvolveu a aptidão para música ainda na pré-escola. Ele ficava fascinado pelos discos do pai: Little Richard, Elvis Presley entre outros. Durante a juventude aprende a tocar diversos instrumentos, se aprofunda na pesquisa de novos sons e a desenvolver a figura de performer que anos mais tarde aperfeiçoaria.

O nome artístico veio da insatisfação de ser confundido com Davy Jones dos Monkees. Ele adota o sobrenome Bowie (facas Bowie). Outra marca característica do artista são os olhos de cores diferentes adquirida aos 15 anos de idade – devido a um soco desferido pelo “amigo” (sic) George Underwood – a pupila esquerda se mantém constantemente dilatada daí a diferença de coloração.
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Bowie adotou vários heterônimos (Major Tom, Ziggy Stardust, Aladdin Sane, Thin White Duke etc) como Fernando Pessoa; foi revolucionário para o Pop Rock como Miles Davis para o Jazz. David Bowie era um artista de muitos talentos: cantor, compositor, produtor, multi-instrumentista, ator – como não se lembrar dele em filmes como o drama de guerra Furyo – Em Nome da Honra (1983), o vampiro John de Fome de Viver (1983) ou Jareth, o rei dos duendes de Labirinto (1986). Da mesma forma que a imagem, a música de Bowie também se diferenciava de um disco para outro. Na discografia podemos destacar trabalhos de inegável valor como Hunky Dory (1971),The Rise and Fall of Ziggy Stardust and Spiders From Mars (1972), Aladdin Sane (1973), Diamond Dogs (1974), Young Americans (1975), Low e Heroes(1977), Lodger (1979) e Scary Monsters (1980) . O “Camaleão” em constante mutação e à frente de seu tempo anunciava tendências e influenciava músicos, atores, estilistas, o mais variado leque de artistas das mais variadas áreas.

Um grande artista que esteve sempre se reinventando e para isso se juntava aos seus pares: revitalizou a carreira de Iggy Pop compondo com ele e produzindo os discos (The Idiot e Lust for Life, ambos de 1977); também produziu Lou Reed no clássico álbum Transformer (1972); parceiro de John Lennon na música “Fame” (Young Americans, 1975) e Queen ”Under Pressure” (Hot Space,1982); regravou a canção “Dancing in the Streets” em dueto com Mick Jagger em 1985.

David Bowie em Sao Paulo (1990)

David Bowie em São Paulo (1990)

Assisti ao show de um Bowie na meia-idade na Sound + Vision Tour em 1990, no Palestra Itália (atual Allianz Parque), mas infelizmente não fui à exposição no MIS em 2014 por falta de tempo e disposição para enfrentar filas quilométricas.

the next dayDavid Bowie se retirou dos holofotes após a Reality Tour em 2004. Ele ensaiou um retorno em 2013 surpreendendo fãs e crítica com um clipe que anunciava novo álbum de inéditas The Next Day – mesmo não se equiparando aos trabalhos anteriores a 1980, pode ser considerado muito acima da média de discos posteriores dele ou de outros artistas contemporâneos. Bowie morre três dias após completar 69 anos e de lançar seu vigésimo oitavo álbum “Blackstar”.

David Bowie saiu de cena de surpresa como sempre o fez ao apresentar suas mutações aos fãs. O “Camaleão” se junta ao panteão dos grandes nomes da música que deixaram esse plano; deixa um legado artístico para a eternidade.

Por Charles Antunes Leite

 

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30
out
15

Sisters of Mercy: 25 anos da primeira turnê brasileira

São Paulo 1990 - Fanbase-produced cover (front)

São Paulo 1990 – Fanbase-produced cover (front)

Imagine a euforia dos fãs brasileiros, em particular esse escriba, quando ouviu pelo rádio numa longínqua tarde de domingo do ano de 1990 que The Sisters of Mercy tocariam no Brasil. A nota foi dada pelo DJ e locutor José Roberto Mahr no seu programa Novas Tendências (popular NT) na 89 FM. A banda incluíra o nosso país na turnê de lançamento do terceiro álbum (até hoje o último disco) intitulado Vision Thing que chegaria às lojas no mês de novembro daquele ano. As datas confirmadas: Discoteca Zoom em Brasília (25/10), Projeto SP em São Paulo (26 e 27/10), Americana-SP (28/10) e Canecão no Rio de Janeiro (29 e 30/10).

Album Vision Thing (1990)

Album Vision Thing (1990)

Naquela época bandas em atividade ou no auge dificilmente incluíam o Brasil nas turnês.Talvez fosse a última oportunidade para assistir a um show deles. Para tristeza dos fãs, após desavenças com Andrew Eldritch, a baixista Patricia Morrison afastada da banda não viria, e sim, o recém-integrado Tony James (Sigue Sigue Sputnik).

Matéria Folha de S. Paulo por Jean-Yves Neufville 26/Out/1990 (Acervo)

Matéria Folha de S. Paulo por Jean-Yves Neufville 26/Out/1990 (Acervo)

No meu bairro, quem curtia aquele tipo de música era eu, um camarada e mais dois outros que viria a conhecer depois. Não lembro o porquê, mas acabei indo sozinho (afinal faz tanto tempo). A única certeza que tenho: a música de abertura foi First And Last And Always.

Fui de Metrô. A cada parada figuras características embarcavam e não deixavam dúvidas que iriam para o mesmo lugar que eu. Ao desembarcarmos na estação Marechal Deodoro fomos a pé para o Projeto SP situado na Rua Sérgio Meira, na Barra Funda (apenas algumas quadras do metrô). Quem visse aquele grupo de gente esquisita com suas roupas pretas, cabelos espetados e demais paramentos – poderia se assustar. Ao passarmos por uns tiozinhos, eles fizeram o sinal da cruz como se fossemos vampiros ou coisa pior… Hoje em dia tais roupas e o visual se tornaram corriqueiros e até foram incorporados ao mercado de moda.

Ingresso para o primeiro show no Projeto SP 26/Out/1990 (Acervo)

Ingresso para o segundo show no Projeto SP 27/Out/1990 (Acervo)

Fui sozinho, mas encontrei vários conhecidos do Espaço Retrô (porão da região central da cidade de São Paulo frequentado por fãs de bandas como Sisters of Mercy, Bauhaus, Cure entre outras) que também consideravam imperdível a apresentação dos Sisters em Sampa.

O show, apesar da infeliz escolha do insípido Nenhum de Nós como banda de abertura – quando entramos eles estavam saindo do palco ((nenhum de nós assistiu). A apresentação foi arrebatadora: a voz gutural de Andrew Eldritch apoiada por dois guitarristas Tim Bricheno (All About Eve) e Andreas Bruhn (amigo de Eldricht), Tony James (Sigue Sigue Sputnik), o tecladista Dan Donovan (Big Audio Dynamite) e a lendária Doktor Avalanche. Como o ser humano nunca se dá por satisfeito, eu senti falta de No Time To Cry e Walk Away. Abaixo relação das músicas do set list original tocadas dia 27/10 segundo a cópia distribuída aos jornalistas:

First And Last And Always
Lucretia My Reflection
Body And Soul 
Detonation Boulevard 
When You Don`t See Me 
Marian
Body Electric ( relacionada mas não tocada)

Valentine
Doctor Jeep 
Dominion/Mother Russia
 Alice
Gimme Shelter
Temple Of Love 

Vision Thing  (BIS)
This Corrosion 

Jolene (BIS)
 1969

Sao Paulo 1990 - Fanbase-produced cover (back)

Sao Paulo 1990 – Fanbase-produced cover (back)

O show do Projeto SP (26/10) saiu num CD “bootleg” produzido pelo fan club brasileiro dos Sisters of Mercy com as quatro últimas músicas substituídas pelas apresentadas no show do dia seguinte (27/10). No YouTube está disponível uma das apresentações gravada no Canecão (Rio de Janeiro) com imagem e som sofríveis.

08
jun
15

Por trás das máscaras

Por Charles Antunes Leite

Dois programas de TV me motivaram a escrever o post a seguir: o documentário “Olho Nu” e o show de Alice Cooper Live at Avo Sessions.
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Olho Nu (2012), do diretor Joel Pizzini, narrado em primeira pessoa pelo cantor Ney Matogrosso revela um pouco das muitas faces do artista; são fragmentos antes e depois dos Secos & Molhados. A máscara icônica com a qual se apresentava foi o que catapultou para o sucesso nacional.

King Diamond, o precursor do

King Diamond, o precursor do “corpse paint”

O show de Alice Cooper Live at Avo Sessions de 2012: o cara mantém o pique como há décadas vem fazendo. Os brasileiros puderam conferir, em 1974, na apresentação no Anhembi, em São Paulo. A performance foi marcante pela pintura do rosto, suas caracterizações; o show em si é uma grande espetáculo de terror B. Alice Cooper foi influência para bandas como Kiss (EUA) e Mercyful Fate (Dinamarca). O vocalista King Diamond do Mercyful Fate declarou ter se inspirado em Alice Cooper para desenvolver a pintura facial (corpse paint) característica de suas apresentações que aliada ao estilo de sua música inspirou a segunda geração Black Metal norueguesa na década de 1990.

New York Dolls

New York Dolls

A prática do uso de máscaras e maquiagem está longe de ser novidade. O freak Arthur Brown (1968) e os italianos do grupo Osanna (1971) já se apresentava maquiados há mais de 40 anos. Os artistas do “glam” como New York Dolls e David Bowie; Os “góticos” como Siouxsie, Cure, Alien Sex Fiend.

Misfits de Glenn Danzing e Jerry Only

Misfits de Glenn Danzig e Jerry Only

Em 1977, Glenn Danzig e Jerry Only fundaram o Misfits cujos integrantes pintavam e ainda pintam os rostos com temática de caveiras (o logo da banda é uma pintura de caveira em branco) associadas aos topetes criavam impacto para a sonoridade “horror punk “.

Dee Snider, vocalista do Twisted Sister

Dee Snider, vocalista do Twisted Sister

Dee Snider, vocalista do Twisted Sister, pode ser considerado um dos sujeitos mais feios do rock: Cabelos loiros compridos e crespos e rosto maquiado – se parecia com uma bruxa velha.

o glam metal oitentista Poison

o glam metal oitentista Poison

O contrário pode ser dito do “glam metal” Poison, no início da carreira, se apresentava com maquiagem e cabelos armados semelhantes às strippers das boates de L.A.

Marylin Manson - variações de “corpse paint”

Marylin Manson – variações de “corpse paint”

Vulvatron, a vocalista dos bárbaros interplanetários Gwar!

Vulvatron, a vocalista do Gwar!

Os nojentos do Gwar! trazem semelhanças com os perseguidores de Mel Gibson em Mad Max II (1981) elevados à décima potência em brutalidade e bizarrice.

Cartaz do filme Mad Max 2 com Mel Gibson

Cartaz do filme Mad Max 2 com Mel Gibson

No Brasil pelo menos três grupos fizeram uso de máscaras/maquiagens em suas performances: os integrantes do Made in Brazil (em 1969) contam que já utilizaram tal artifício cênico, muito antes dos Secos & Molhados que passaram a se pintar em 1973. Os Secos misturavam poesia, rock, folclore e MPB ficaram conhecidos pelos rostos pintados e androginia dos seus integrantes. Quem veio primeiro o ovo ou a galinha? Quem se pintou primeiro: Kiss ou Secos & Molhados?

Semelhanças entre Secos & Molhados e Kiss

Semelhanças entre Secos & Molhados e Kiss

 Por muitos anos os brasileiros aceitaram que o Kiss os havia copiado – tese derrubada pelo jornalista Emilio Pacheco após análises cuidadosas das carreiras dos dois grupos. Parafraseando Pacheco: “Kiss e Secos começaram shows e discos mais ou menos na mesma época, mas com diferença de meses, porém o Kiss já vinha se apresentando antes da formação dos Secos. Numa época em que a informação era difícil e demorada, as chances do Kiss ter acesso à imagem de Ney Matogrosso e Cia. eram irrisórias”.

O Rap metal core do Pavilhão 9

O Rap metal core do Pavilhão 9

No final de 1992, o “crossover” rap metal harcore do Pavilhão 9 do vocalista Rhossi se apresentava com máscara para manter o anonimato e evitar represálias da polícia devido ao discurso de suas canções.

Slipknot: máscaras e macacões numerados

Slipknot: máscaras e macacões numerados

 Na virada do século, o coletivo de “nu metal” Slipknot tem como diferencial em suas apresentações energéticas e caóticas: nove (!) integrantes usando macacões numerados e máscaras intimidadoras. A questão dos macacões denotam a postura anti-capitalista e uma crítica ao sistema que os considera um produto no mercado musical. Ao longo da carreira a banda procurou manter a individualidade e refletir a personalidade de cada integrante na concepção das máscaras. Enquanto o Kiss mantém o padrão das personas dos músicos há décadas, o Slipknot desenvolve novas temáticas a cada novo álbum por meio da indumentária.

Ghost B.C : o visual é mais pesado que o som

Ghost B.C : o visual é mais pesado que o som

Os integrantes do grupo Ghost B.C., surgido na primeira década do século 21, se apresentam caracterizados como monges e sacerdotes. As máscaras assustadoras aliadas às letras que invocam a missa negra revisitam, mesmo que de forma diluída o “black metal” dos 80 e 90, andamentos lentos, vocal e produção limpa – o visual causa mais impacto que a música propriamente.

O duo francês de música eletrônica  Daft Punk - visual inspirado no filme Tron (2010)

O duo francês de música eletrônica Daft Punk – visual inspirado no filme Tron (2010)

Os percussivos Blue Man Group (os caras azuis conhecidos no Brasil pelos anúncios da TIM)

Os percussivos Blue Man Group (os caras azuis conhecidos no Brasil pelos anúncios da TIM)

Lordi - versão mais light do visual do Gwar e sonoridade hard rock

Lordi – versão mais light do visual do Gwar e sonoridade hard rock

O

“nu metal”, máscaras e capuzes

DJ conhecido como Deadmau5 se apresenta com máscaras de rato

DJ conhecido como Deadmau5 se apresenta com máscaras de rato

O

O “tex metal” Brujeria – lenços nos rostos como se fossem assaltantes de trens

 Los Straitjackets:

Los Straitjackets: “surf music” instrumental e máscaras de lutadores de telecatch

Mudvayne e as várias  cores de corpse paint

Mudvayne e as várias cores de corpse paint

Hoje, ainda mais do que antes, os artistas precisam se esmerar para proporcionar shows memoráveis – não é necessário ter luzes e telões como Pink Floyd ou figurinos e bailarinos como Madonna. Produções modestas em que artistas tragam performances musicais condizentes aliados ao “mise em scène” como o próprio Alice Cooper valorizam os shows.

Alice Cooper - circo dos horrores e banda com três guitarristas

Alice Cooper – circo dos horrores e banda com três guitarristas

Ele se apresenta acompanhado por uma banda jovem e competente com três guitarristas (a guitarrista solo é uma bela garota) para embalar o circo de horror que apresenta há quatro décadas. Imagine pagar uma grana pelo ingresso, pegar trânsito, chegar a um local lotado de gente suando, permanecer de de pé (no mínimo) duas horas, bebida quente e cara – os artistas precisam caprichar para que o fã possa voltar para casa satisfeito por ter participado de um show de rock e querer repetir a experiência.

18
mar
15

Coleção Folha Soul & Blues (2015)

Por Charles Antunes Leite

Primeiro volume da coleção

Primeiro volume da coleção

O Blues e o Soul são dois gêneros da música norte-americana que podem ser considerados os pais do rock. Desde os precursores como Chuck Berry, Little Richard, Elvis Presley passando por Eric Clapton, Beatles, Rolling Stones, The Who, Jimi Hendrix, Janis Joplin, The Doors – todos tiveram como influência decisiva nas suas carreiras os artistas do blues e do soul.

O Soul e, principalmente o Blues, fizeram a cabeça, primeiramente do outro lado do Atlântico, dos jovens ingleses que começaram a apreciar a música negra americana, antes mesmo dos jovens americanos. A “British Invasion” pode exemplificar tal fenômeno em que artistas ingleses em suas excursões pela terra do Tio Sam devolviam aos jovens ianques a música deles repaginada e incutiam o interesse pela busca dessas raízes musicais.

Disco de Howlin Wolf gravado em Londres com a participação de seus fãs ilustres.

Disco de Howlin Wolf gravado em Londres com a participação de seus fãs ilustres (não faz parte da coleção).

Na década de 1980, uma ramificação do que veio a ser conhecido como New Wave, revelou artistas cuja principal influência musical era o Soul: Prince, Simply Red, Sade, Style Council, Fine Young Cannibals. Os anos 1990 continuaram a revelar artistas influenciados pelo soul e blues como Lisa Stansfield, Des’ree, Jamiroquai, Lenny Kravitz. Nos anos 2000 surgiram: Adele, Amy Winehouse, Corinne Bailey Rae, Aloe Blacc, Raphael Saadiq, Joss Stone, Mayer Hawthorne, Gary Clark Jr. Entre muitos outros.

A Coleção Folha Soul & Blues pretende resgatar artistas tão influentes e atemporais dessas duas correntes musicais que poderá agradar aos neófitos e também aos habituais apreciadores dos dois gêneros.

A coleção oferece um panorama da música negra produzida no século XX. O repertório dos CDs foi extraído dos lendários selos fonográficos e gravadoras Stax e Motown (Soul) e Chess e Alligator (Blues) com as principais canções de cada artista. Cada livro traz textos explicativos da obra, principais gravações, curiosidades sobre os artistas, além de indicações de livros e filmes para aprofundar nos estilos musicais em questão.

Nomes de suma importância para os dois gêneros, por não pertencerem ao cast das gravadoras citadas, ficaram de fora da coleção: Sam Cooke, Aretha Franklin, Al Green, Booker T and the MGs, Ray Charles, Lightnin’ Hopkins, Willie Dixon, Pinetop Perkins, Stevie Ray Vaughan.

São 30 livros de capa dura com 44 páginas em papel couché acompanhados respectivamente por um CD. À venda nas bancas a partir de 15 de março. Abaixo a relação dos fascículos:

Soul

  1. Stevie Wonder
  2. Marvin Gaye
  3. James Brown
  4. Ike & Tina Turner
  5. Jackson 5
  6. Diana Ross & The Supremes
  7. Barry White
  8. Curtis Mayfield
  9. The Commodores
  10. Otis Redding
  11. Gladys Knight & The Pips
  12. Isaac Hayes
  13. The Temptations
  14. Etta James
  15. Smokey Robinson

Blues

  1. B.B. King
  2. Muddy Waters
  3. Buddy Guy
  4. John Lee Hooker
  5. Robert Cray
  6. Howlin’ Wolf
  7. Fats Domino
  8. Robert Johnson
  9. Koko Taylor
  10. Johnny Winter
  11. Albert Collins
  12. Magic Slim
  13. Bessie Smith
  14. James Cotton
  15. Shemekia Copeland

 

09
fev
15

Mar Inquieto – Yukio Mishima

Por Charles Antunes Leite

Yukio Mishima apresenta um quadro deslumbrante da paisagem costeira da pequena ilha de Utajima – uma das mais de seis mil que formam o arquipélago japonês. O lugar parece ter perdido o “trem da história” em relação ao restante do Japão pós-guerra e industrializado. Como herança do conflito restou um posto de observação do exército (abandonado) em que ocorre o encontro dos futuros amantes. Os cerca de 1400 habitantes da ilha se servem de água que precisam pegar direto da fonte e a energia elétrica depende de um gerador que durante a narrativa vimos saber que está quebrado –  Isso parece tão atual!

11252_gMar Inquieto, publicado em 1954, de Yukio Mishima é um romance sobre o amor atemporal e universal em que moça rica (Hatsue) e rapaz pobre (Shinji) se apaixonam e precisam enfrentar a tudo e a todos para ficarem juntos. Inspirado em Dáfnis e Cloé de Longo, escrito entre os séculos II e III, Mishima explora disciplina, paciência e honra do casal enamorado para vencerem as vicissitudes que acometem o relacionamento.

Shinji aos 18 anos de idade se dedica com afinco ao trabalho como pescador num pequeno barco. Ele vive com a mãe que trabalha como mergulhadora e o irmão caçula dedicado aos estudos e atraído pelo conforto da vida urbana.

A vida do jovem pescador sofre bruscas mudanças ao conhecer a bela Hatsue que cresceu longe da ilha e retornou a pedido do pai, o homem mais rico do lugar, para casar e assumir a posição como herdeira.

O antagonismo entre os dois pretendentes a noivo é bem definido pela coragem, honestidade e lealdade do pescador Shinji em contraste ao preguiçoso, arrogante, covarde e rico Yasuo. Shinji é a escolha de Hatsue enquanto sobre Yasuo recai a escolha do pai dela.

Honra é um dos motes do livro e pode ser percebido em pelo menos dois momentos: quando a castidade é mantida diante do arroubo de um amor jovem durante um encontro furtivo – a espera pelo momento em que esse amor possa se tornar legítimo tão certo como esperar o tempo para ter a melhor colheita.  A amiga Chyoko, contrária ao romance, ama em silêncio e por não ter o amor correspondido espalha boatos depondo contra a honra de Hatsue. Ela toma consciência do ato e se vê moralmente na obrigação de promover a união.

O romance pode, inicilamente, despertar estranheza mas no desenrolar da história passa a ser fascinante ao descrever costumes e tradições japonesas e ofício dos pescadores.  As 168 páginas podem ser lidas em uma tarde.

Título: Mar Inquieto
Autor: Yukio Mishima
Tradução: Leiko Gotoda
Páginas: 168
Editora: Companhia das Letras

 

 

26
jan
15

30 Anos dos Paralamas do Sucesso

Charles Antunes Leite

Janeiro de 1985, no Rio de Janeiro ocorre o primeiro mega festival de rock no Brasil: o Rock in Rio. O evento serviu como vitrine para que artistas internacionais passassem a incluir o país em suas agendas de shows. Dentre os artistas brasileiros que se apresentaram no festival Os Paralamas do Sucesso obtiveram o melhor retorno por parte do público e o respaldo para que pudessem construir uma carreira longeva e repleta de êxitos. Nesses 30 anos, o rock brasileiro mudou muito e se profissionalizou. Os Paralamas abriram caminho para artistas como Legião Urbana, Capital Inicial, Plebe Rude entre outros. Nas décadas seguintes continuaram a influenciar novos artistas como Skank e Jota Quest. 10262083_618345584918170_5221057940088318933_nVoltando a 1983, Os Paralamas estão procurando sua identidade em Cinema Mudo. Nesse primeiro trabalho, apesar da inexperiência e crueza como instrumentistas, eles foram comparados aos ingleses do Police. Músicas com frescor juvenil como Vital e Sua Moto, Cinema Mudo, Patrulha Noturna e Química composta por “um certo” Renato Russo que depois seria apresentado à gravadora EMI por Herbert Vianna já mostravam o caminho a ser seguido.passo do luiO Passo do Lui (1984) flerta com a música jamaicana, principalmente, na faixa instrumental que intitula o disco e em Ska (o título já diz tudo) na levada do ritmo de mesmo nome. O coro de mais de 100 mil vozes cantou Óculos, música que enalteciam a turma dos “quatro olhos”, na primeira edição do Rock in Rio em 1985. Os óculos deixaram de ser excludentes, rapazes míopes tinham em Herbert inspiração – agora também poderiam ter a sua chance com as garotas e também na vida.  O Passo do Lui era uma coleção de sucessos radiofônicos entre eles Meu Erro, Romance Ideal e Me Liga (oito das dez canções tocaram nas Rádios).

imagem: Jorge Marinho

imagem: Jorge Marinho

Com a chegada da Nova República, os Paralamas passaram para um discurso crítico e social, respeito pelos valores brasileiros associados à realidade musical e social jamaicana, além dos ritmos afro-latinos. selvagemSelvagem? (1986) pode ser considerado o trabalho mais maduro e inovador na discografia deles. O álbum selou a paz entre fãs e críticos. A faixa tema Selvagem é robusta na cozinha de Bi e João e o riff da guitarra de Herbert é cortante como seu discurso contra o poder bélico da policia e do governo num momento de transição política. A letra gaiata do Melô do Marinheiro narra aventuras de um clandestino que quer conhecer o mundo de navio e se dá mal. O vídeo clipe de Alagados colocou a banda pop em meio ao povão.  A Novidade, parceria com Gilberto Gil, bebe na fonte do reggae.

Se em Selvagem eles haviam quebrado paradigmas com fusão do rock com ritmos regionais e reggae, em Bora Bora (1988) expandiram a experimentação. O disco se divide em canções quentes e temperadas como praias caribenhas e canções intimistas e passionais para serem ouvidas em apartamentos escuros – eco do final do relacionamento amoroso com Paula Toller. Destaques para O Beco com seu instrumental acrescido de metais; Uns Dias; a confessional Quase Um Segundo; Dois Elefantes. A sonoridade afro-caribenha reforçada pelo naipe de metais e o tecladista João Fera, integrado na turnê de Selvagem e presente desde o álbum D gravado ao vivo no Festival de Montreux (1987), contribuiu para que os Paralamas pudessem explorar novos sons e enriquecessem os arranjos de antigas canções.

Big Bang (1989) eles acrescentaram ritmos brasileiros aos ritmos pesquisados anteriormente: o samba em Se Você Me Quer; o repente de Rabicho do Cachorro Rabugento e canções paralâmicas como Perplexo, Pólvora e Lanterna dos Afogados. Os Grãos (1991) trazia Tendo a Lua, Carro Velho, Trac Trac (versão de composição de Fito Paez) e Sábado. O esmero da produção e um tom monocromático da capa se refletiam também na economia de ritmos, mas com uso de efeitos eletrônicos.

Severino (1994) foi um disco que não teve a devida aceitação no Brasil sendo o momento de reconhecimento da banda na Argentina. O disco foi produzido na Inglaterra e contou com inúmeros nomes da música internacional, inclusive Brian May do Queen. Dos Margaritas alcançou relativo sucesso no Brasil. Vamo Batê LataVamo Batê Lata (1996) gravado ao vivo trazia um CD bônus com quatro faixas inéditas. Destaque para Uma Brasileira – parceria de Herbert com Carlinhos Brown e enriquecida pelo dueto com Djavan – uma das melhores canções do ano e da carreira da banda; A polêmica Luís Inácio (300 Picaretas) um rap contra a corrupção política com o tempero dos Paralamas.  Ainda em 1996 lançaram um disco de inéditas 9 Luas em que se destacaram: Lourinha Bombril, Capitão da Indústria e La Bella Luna.

Hey Na Na (1998) trazia Ela Disse Adeus cujo clipe sagrou-se vencedor na MTV e o Amor Não Sabe Esperar (dueto com Marisa Monte), além de composições de Charly Garcia e Chico Science.

Fevereiro de 2001: Herbert Vianna, líder e voz dos Paralamas do Sucesso sofre acidente aéreo em que perde a esposa; depois de semanas em coma se vê paraplégico. Para a grande maioria dos fãs, o fim da banda era inevitável, mas a “Música” salvou Herbert – tanto que um ano depois lançaram Um Longo Caminho seguido por outros trabalhos. 30 anos O segredo para a banda se manter na ativa depois de três décadas tem uma resposta compartilhada pelo trio – Eles se consideram uma família. A prova disso é o registro em CD/DVD do show comemorativo de 30 anos realizado no Rio de Janeiro em 2013. São sucessos e músicas emblemáticas (28 no DVD). No telão no fundo do palco são projetadas informações sobre a banda, as músicas e imagens de arquivo. A gravadora cometeu um deslize: Don’t Stand So Close To Me, cover do Police, foi grafada na capa como Don’t Stop So Close to Me – careceu de revisão antes de ir para gráfica.

12
jan
15

Miragem, Os Lobos (1971)

Por Charles Antunes Leite O mês de janeiro é propício para se aventurar na procura por ofertas e promoções. Em tempos de MP3, em que os CDs já não têm tanta procura como outrora, fãs dos disquinhos prateados podem se surpreender com verdadeiros achados nas gôndolas das lojas. Numa grande livraria de São Paulo deparei com um balcão de promoções com preços convidativos, inclusive uma “bacia das almas” com CDs por um Real.  À primeira vista o cidadão desanima pela desordem dos títulos e gêneros, além da descrença de encontrar algo que valha a busca. Aqueles que tiverem tempo e paciência podem garimpar pérolas ou mesmo se arriscar a conhecer novos artistas. No referido lote de disquinhos, pela módica moedinha, havia Independentes, Jovem Guarda, Regional, Instrumental, Brega… Saí da livraria com um pacote contendo: Uakti (Instrumental mineiro), Os Brasas (Jovem Guarda gaúcho), Um duplo com gravações de 78 rotações da Dóris Monteiro, Yo La Tengo e alguns outros títulos à 3,90 (que convenhamos é uma ninharia) e Os Lobos – Miragem. os-lobos-miragemUma das melhores aquisições do pacote foi o grupo niteroiense Os Lobos. A sonoridade deles era calcada em Beatles e Stones, elementos de psicodelia e música brasileira (em alguns momentos lembra Mutantes). Se não fosse pelo selo Discobertas, não veriam a luz do laser. Fanny, o primeiro sucesso deles, ficou de fora do álbum relançado pela Discobertas – não foi liberado pela família de Ed Lincoln, proprietário do selo Savoya. Duas músicas de Raul Seixas interpretadas por eles no VII Festival Internacional da Canção Popular, em 1972, foram acrescentadas. Os Lobos – Miragem (1971): Seu Lobo – vocal e ritmo Lembra a fase Tutti Frutti da Rita Lee; Homem de Neanderthal – autoria de Luiz Carlos Sá remete ao rock rural do autor e também associo a Zé Geraldo e Eduardo Araújo com guitarra rock setentista; Avenida Central – cordas e o vocal sentimental da cantora Cristina; Meu amor por Cristina – melodia num crescendo “pinkfloydiano” fase Atom Heart Mother, ecos do Tim Maia dos primeiros discos nos vocais; YouMutantes no escracho e na melodia; Miragem – a faixa titulo (outra de ) traz a sonoridade da guitarra de Roger Mcguinn (Byrds) e o vocal de Cristina emulando Rita Lee; Santa Teresa – a canção apresenta vocalização que se tornaria marca dos Secos e Molhados, que surgiriam em 1973; Psicodelia e letras bicho grilo estão em Carro Branco e Na sombra da Amendoeira; Ótimas releituras de Let me Sing, Let me Sing e Eu sou eu, Nicuri e o Diabo ambas de Raul Seixas. A banda se separou em meados dos anos 1970. O cantor e compositor Dalto, que fez parte da primeira formação, se tornaria conhecido nacionalmente, em 1985, com o sucesso radiofônico Muito Estranho.




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